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Michael Moorcock fala de Tolkien, Martin e muito mais!

O texto a seguir não é uma resenha de um livro, conforme já foi possível perceber pelo título. Também não é de nossa autoria, mas a tradução de uma matéria do site da prestigiada revista inglesa New Statesman, sobre um autor quase ausente nas prateleiras do nosso país.

Mesmo que você nunca tenha ouvido falar de Michael Moorcock, com certeza já teve contato com o trabalho de algum autor influenciado por ele, em maior ou menor grau, direta ou indiretamente. Duvida? Neil Gaiman aponta o cara como sua inspiração maior, algo que deixou claro para o mundo através de uma carta endereçada ao velho escritor. Alan Moore e Grant Morrison também fazem questão de bradar como a obra dele os marcou, sendo o primeiro um amigo pessoal de Moorcock. Isso ficando apenas nos exemplos mais famosos.

Atualmente com 75 anos, este britânico prolífico no gênero da fantasia e ficção científica só marca presença por aqui com UM título de sua criação mais famosa. Os primeiros capítulo da saga de Elric de Melniboné já foram publicados por aqui (resenhas do Livro 1 e Livro 2), mas Moorcock segue virtualmente desconhecido do público brasileiro, que consome trabalhos de ingleses que veneram sua obra. Como ele continua produzindo e dando declarações polêmicas – como seu amigo barbudo de Northampton, semelhança que ele mesmo admite – o jornalista Andrew Harrison foi até a França conversar com essa figura controversa, passando a limpo sua carreira e puxando assunto sobre Tolkien, Game of Thrones e muito mais, arrancando afirmações pouco lisonjeiras que devem irritar alguns fãs.

Independente disso, o trabalho dele é fantástico e merece ser lido. Com a idade que tem, ele ainda procura inovar! Leia a matéria traduzida a seguir e a original você encontra AQUI!

Confira!

Michael Moorcock

Michael Moorcock

Você não pode voltar para casa. A última vez em que Michael Moorcock visitou Notting Hill – o berço contracultural de suas fantasias científicas multi-dimensionais e terra natal do autor, de sua jovem família e de uma de suas mais amadas criações, o agente secreto polimorfo e flâneur Jerry Cornelius – ele “ficou realmente uma arara”, de acordo com sua esposa texana, Linda. A velha e febril Notting Hill, dos invasores de imóveis e da miséria, há muito deu lugar às “iceberg houses”, as instalações de bilionários com aquele tédio bem cuidado da extrema riqueza. A gota d’água foi quando Moorcock testemunhou uma mulher saindo do seu 4×4 vestindo calças de equitação. “Ele ficou enfurecido por isso”, Linda se lembra divertindo-se.

“O lugar me deixou doente”, Moorcock admite cansado. O escritor e psicogeógrafo Iain Sinclair, seu amigo, trouxe Moorcock de volta para filmar reminiscências de seu antigo reduto. “Mas tornou-se inacreditavelmente horrível em todos os níveis”, ele diz. “Quer dizer, Notting Hill havia sido um lugar de horror e violência nas décadas de 1960 e 70. Minha mãe não ousava visitar-nos. No vizinho ao lado sempre havia briga de facas e polícia. Mas era barato, e é o que você precisa como escritor com uma família recém formada. Agora olhe para isso. Pessoas com calças de equitação.”

Esse é um apocalipse que nem mesmo Moorcock esperava. Uma bomba de dinheiro que veio e levou embora todas as pessoas comuns.

Os Moorcocks hoje dividem seu tempo entre Paris e Austin, Texas. Nos encontramos em seu apartamento francês, em um dos conjuntos multiculturais do décimo distrito, um aconchegante espaço no primeiro andar com prateleiras abarrotadas de efemeridades: as edições pulp que o inspiraram a escrever ficção, uma foto promocional da adaptação de 1973 de sua obra, The Final Programme – o único livro de Moorcock filmado até hoje – e uma minúscula miniatura de um bonde vintage de Londres. Antes de viajar a Paris, eu perguntei se havia algo de sua terra que Moorcock sentia falta, e que eu poderia contrabandear para ele. É perceptível que a capital francesa está bem abastecida com saquinhos de chá e picles Branston. Você não pode dizer que viveu, até presentear um de seus heróis literários com o contrabando que ele realmente deseja: quatro tortas especiais de carne de porco.

* * *

Agora com 75 anos, com um número de livros maior que esse (eles tem sido alterados, entrado em antologias e, geralmente, reorganizados tão frequentemente que são incontáveis), Moorcock é possivelmente o autor de fantasia mais influente, uma força equivalente e oposta a J. R. R. Tolkien, cujo trabalho Moorcock desdenha como antiquado e conservador. Londrino da classe trabalhadora, Moorcock apareceu na indústria chamativa dos pulp fictions da década de 1950 – ele tornou-se editor da Tarzan Adventures com 17 anos – para defender uma forma diferente de ficção científica em meados da década seguinte, quando editou a revista New Worlds.

Os trabalhos que ele publicou, de J. G. Ballard, Brian Aldiss, William Burroughs e outros, substituíram a ficção científica banal, de armas de raios e batalhas espaciais, por técnicas experimentais de ficção literária e os estados de consciência alterados da contracultura. “O povo da ficção científica pensou que estávamos tentando destruir a ficção científica”, ele recorda. Na realidade eles estavam fazendo um ajuste, pensando em um futuro que não seria determinado pela viagem espacial, mas pela comunicação de massa, propaganda, demagogia política e consciência modificada.

Atravessando as décadas de 60 e 70, Moorcock também se envolveu com os livros de bolso, de leitura fácil, em um ritmo possível apenas para os escolados nos pulps. Seus contos de Espada e Feitiçaria, com o debilitado imperador albino Elric de Melniboné, viciado nas energias fornecidas pela sua espada de lâmina negra, a devoradora de almas senciente Stormbringer,foram além do mercado convencional de fantasia. Os livros estavam mergulhados na transgressão: sexualidades trocadas, incesto, amoralidade e falta de compaixão. Por baixo de tudo isso, a repetição de alguns temas: o multiverso de realidades alternativas e seu “Campeão Eterno” (personificado por Elric, Jerry Cornelius, Corum, Coronel Pyat, Oswald Bastable e um sem número de outros) que lutam, muitas vezes inconscientemente, para restaurar o equilíbrio da “Lei” e do “Caos”. Essa combinação de literatura com formato acessível fizeram de Moorcock uma raridade – um arquiteto da fantasia que recusa fórmulas fáceis para agradar multidões e um autor de ficção literária que insiste em chacoalhar as estruturas.

A única obra dele atualmente em catálogo no Brasil!

A única obra dele atualmente em catálogo no Brasil!

Ambos aspectos se juntam novamente este mês, com a publicação do que é anunciado como o maior trabalho de ficção de Moorcock em uma década, apesar de ser um tanto mais complicado que isso. Começando na Londres pós-Guerra, The Whispering Swarm apresenta uma região oculta da velha Cidade chamada Alsacia, que parece existir em todos os tempos e funciona como um santuário para uma mistura de figuras históricas reais, personagens da literatura e mitos inescrutáveis. O nome do (possível) jovem escritor que descobre Alsacia e é pego entre este mundo fabuloso e a realidade do seu casamento desintegrando-se é “Michael Moorcock”. Com uma porta mágica a lá Narnia, dimensões como as que a Tardis (Dr. Who) alcança e uma pegada viciante, Alsacia é uma metáfora para os confortos e perigos da fantasia ao lê-la ou escreve-la. Ficção autobiográfica tem uma tradição rica; agora Moorcock inventou a fantasia autobiográfica.

“Eu sinto que desapontaria pessoas com quem me importava, se escrevesse uma autobiografia convencional,” ele explica, “e eu estava interessado em escrever sobre fantasia – como eu a usei para evitar a ação e o compromisso moral e como outras pessoas a usaram.” Ele optou por uma forma que era “tão realista quanto eu pude faze-la”, mas o processo foi doloroso. Um livro que deveria ter levado um ano para escrever levou cinco. “Escreve-lo me deixou muito deprimido,” Moorcock admite. “Eu fiquei confuso e realmente quebrado emocionalmente. Tive que encarar atos para os quais eu não havia olhado. Alsacia representa uma fuga da realidade, pois isso é o que eu fiz na vida real.”

Em The Whispering Swarm, o canto da sereia de Alsacia é parcialmente culpado pelo fracasso do primeiro casamento de Moorcock com “Helena Denham”. Na vida real, seu afastamento de Hilary Bailey – uma colega de letras, que escreveu a continuação de Jane Eyre, Mrs. Rochester, entre outros livros de sucesso – teve causas menos sobrenaturais. Retrógrado e desfrutando a condição de um escritor em ascensão, Moorcock simplesmente tinha sua esposa (com quem teve três filhos) como uma companhia doméstica.

“Naqueles tempos eu era ignorante quanto à política de gêneros,” ele confessa. “Nós simplesmente não tínhamos vocabulário para lidar com essas desigualdades. Quando penso sobre isso agora, eu era capaz de viver e escrever por causa de alguém que depois tornou-se uma escritora prolífica, que escreveu um par de best-sellers. Mas ela não escreveu nada além de contos bizarros até que fui embora. Você tem que lidar com isso e pensa, ‘Cristo, eu era um bastardo.”

O aspecto mais atraente de The Whispering Swarm é a excitação contagiante dos primeiros dias do jovem Moorcock no mundo das publicações, com a velha Fleet Street passando por seu apogeu e o mundo a seus pés enquanto era jovem e esperto, capaz de aguentar o cheiro tóxico da cola usada para juntar as páginas. Um orgulhoso esperto que escreveu um guia sobre como escrever um romance em três dias, Moorcock abriu seu caminho nos pulps e nunca olhou para trás.

“Ainda penso em mim como um jornalista,” ele diz. “É a razão para eu fazer o que faço.” J. G. Ballard uma vez disse a Moorcock que ele se parecia com um jovem Defoe*, ”o que foi incrivelmente lisonjeiro. Jimmy disse que eu poderia assumir qualquer tarefa e torna-la minha. Eu pensei ‘Sim!’ Você pode muito bem imitar o cara que começou tudo.”

*(N.T.: Daniel Defoe, jornalista e escritor inglês, autor de Robinson Crusoé)

Psicodelismo no texto e nas capas!

Psicodelismo no texto e nas capas!

Em um episódio não-característico de trabalho freelancer, Moorcock foi brevemente empregado pelo Partido Liberal, escrevendo panfletos. Um ar de cansaço sereno rondou os guardiões da política de centro na década de 60. “ Tudo que fizemos foi juntar os panfletos dos Conservadores e Trabalhistas e pegar as partes que gostávamos”, diz Moorcock. “O líder, Jo Grimond, era muito agradável e incrivelmente roliço, um amável e dissimulado velho liberal. A impressão de que o Partido não queria realmente o poder foi muito boa para eles.”

Moorcock não durou muito ali. “Isso fez, definitivamente, eu não querer mais me meter com políticos. Ao invés disso eu me interessei por anarquismo, que é mais uma questão moral do que uma plataforma ativa. Não sou um Bukharinista. Sou um Kropotkinista*.”

*(N.T.: As referênciaa dizem respeito a Nikolai Bukharin , intelectual revolucionário bolchevique, e Piotr Kropotkin, ativista e teórico do Anarquismo)

Desde sua adolescência, Moorcock se misturou com a comunidade da ficção científica de Londres, no Globe pub em Hatton Garden, não muito longe da ficcional Alsacia. “Era o único lugar em Londres onde você poderia conhecer pessoas que não achavam que você espumava pela boca. Naqueles tempos, todo mundo achava que fãs de ficção científica literalmente acreditavam em discos voadores.” Entusiastas e jovens escritores como Moorcock encontraram acesso fácil a figuras estabelecidas, incluindo Arthur C. Clarke, Kingsley Amis, C. S. Lewis e John Wyndham. “Montes desses escritores eram almofadinhas,” ele recorda. “Todos vestiam paletós esporte com cotovelos de couro e se interessavam por jazz…”

Apesar destes escritores veteranos serem amigáveis e prestativos, um desconforto começou depois de Moorcock se tornar o editor da revista de antologias New Worlds, em 1964. E seu desejo de trazer técnicas literárias ao mundo da ficção científica, Moorcock excluiu o populista, explicativo e obsessivo elemento Hard Science* – o que hoje podemos chamar de “fan service” – em favor de histórias impressionistas e vanguardistas nos quais pouco era explicado em termos convencionais, e a ressonância psicológica era tudo.

*(N.T.: Termo coloquial que denomina um ramo da ficção científica que aplica fundamentos da vida real, mantendo-se fiel às nossas leis da física)

 “Você queria livrar-se de toda aquela explicação entediante e ir direto ao imagético, que para nós era a verdadeira essência da ficção científica,” Moorcock explica, “Quem realmente se importa como naves espaciais e foguetes funcionam? Eu não me importo mesmo com o espaço. Você tem que cavar por toda essa merda, que pessoas como Arthur C. Clarke insistiram em apresentar, para chegar em, talvez, cinco boas imagens. Nós estávamos interessados em pintura e especialmente em simbolismo. Queríamos dar ao público um trabalho substancial que operasse em múltiplos níveis, com várias narrativas que pudessem destrinchar.”

 Isso causou um “certo tumulto” entre os fãs do gênero, que iam às convenções brigar com Moorcock e Ballard por terem arruinado a “verdadeira” ficção científica.  “Ainda existe gente por aí que vai dizer, ‘ha, ha, sua revolução da New Worlds nunca aconteceu.’ Mas nossa intenção o tempo todo foi aplicar no mainstream o que havia de melhor em ficção científica, e que isso conectasse um monte de gente.” De Martin Amis a Will Self e Michael Chabon, em roteiristas de quadrinhos como Grant Morrison e Alan Moore (“é nojento como somos parecidos”), para uma inclinação sci-fi na ficção popular (Cloud Atlas de David Mitchell, A Mulher do Viajante do Tempo de Audrey Niffenegger), New Worlds e sua revolução continuam ressoando.

Quando sugiro que foram os fetichistas da máquina, a facção de Arthur C. Clarke, que acertaram sobre o nosso presente tecnológico, Moorcock discorda.

“Não, não, não,” ele diz. “Vivemos em um mundo de Philip K. Dick agora. Os grandes nomes da pegada da tecnologia e do militarismo, como Asimov, Heinlein e Arthur erraram mortalmente. Eram todos convictos no militarismo como assunto principal, com guerras espaciais, futuros racionais – futuros essencialmente fascistas – e nenhuma dessas coisas realmente importa hoje. Foi Dick e gente como Frederik Pohl e Alfred Bester que foram incrivelmente bem-sucedidos em predizer o futuro, porque estavam interessados em mudanças sociais, ecologia, propaganda. Veja o Facebook, Twitter, Apple, Google… São os fenômenos de Philip K. Dick.”

Enquanto a década de 1960 avançava e as preocupações sobre ficção científica e contracultura se fundiam, Moorcock se movia em ambos os mundos. Na década seguinte, e além, ele colaborou com as bandas de rock psicodélico Hawkwind e Blue Öyster Cult. (ele ainda toca guitarra e teclado com sua banda ocasional, Deep Fix). “Eu estava atraído tanto por rock’n’roll quanto ficção científica porque não havia como saber o que sairia no fim,” ele diz. “Ninguém estava olhando sobre seu ombro e lhe dizendo o que fazer, porque ninguém sabia o que fazer.”

Sua ficção, quase sempre, altamente sexualizada se tornaria uma febre entre as mentes impressionáveis, carentes de estimulação erótica na árida década de 1970. “Recebi cartas furiosas de diretores de escola, dizendo que eu estava disfarçando minha podridão como ficção científica para os jovens,” Moorcock se lembra orgulhoso. O melancólico e horrivelmente carismático imperador bruxo, Elric, se tornou uma figura cultuada entre os fãs de Heavy Metal, ocultistas e contestadores diversos da realidade tediosa. Embora as histórias de Elric sempre aparecessem como drama e horror, Moorcock as construiu em sólidas fundações psicológicas.

“Eu estava muito em Freud e Jung quando estava escrevendo aqueles livros”, ele diz. “O ponto central da espada de Elric, a devoradora de almas Stormbringer, era dependência: de sexo, de violência, de grandes e negras espadas fálicas, de drogas, de fuga. Por isso casou tão bem com o mundo do rock’n’roll.”

 Entre os mais inusitados fãs de Elric estão os cineastas Chris e Paul Weitz, que fizeram a comédia grosseira American Pie, que obviamente não tem nada a ver com o mundo Moorcockiano. Os irmãos Weitz estiveram brevemente comprometidos em dirigir um filme de Elric, possivelmente com Michael Sheen no papel principal, mas não deu em nada. Moorcock mostra pouco entusiasmo por adaptações de seu trabalho para as telas. “Já fiz um monte de trabalho em filmes, mas a enrolação desse mundo te derruba.”

Logo, é uma ironia que Moorcock permaneça em grande parte não filmado – ou infilmável –enquanto o escritor com a responsabilidade maior de transformar a fantasia em entretenimento global, mesmo postumamente, é a sua velha antítese: J. R. R. Tolkien. Moorcock gostava de Tolkien; ele visitou o velho professor em Oxford e o achou polido e gentil. Mas não é difícil ver Tolkien como complacente, uma força hierárquica da Lei em oposição ao Caos moralmente complexo e livre de Moorcock. Em 1978, Moorcock iniciou um conflito explícito, com uma lamentação contra o velho conceito, intitulada “Epic Pooh” (alusão ao ursinho da Disney), onde acusava Tolkien de propagar um Ludismo* sentimental enquanto alegremente promovia a guerra.

*(N.T.: Movimento surgido durante a Revolução Industrial, contrário à mecanização dos meios de produção)

“Eu o acho um cripto-fascista,” diz Moorcock rindo. “Em Tolkien, todos estão em seus lugares e felizes por estarem lá. Nós vamos ali e voltamos, para onde começamos. Não há escapatória, nada vai mudar de verdade e ninguém nunca vai extrapolar esse mundo bem ordenado.” Como ele se sente a respeito do triunfo do Tolkienismo e, em seguida, do épico político de Espada e Fetiçaria em Game of Thrones, no sentido de tornar o gênero fantasia algo maior do que jamais foi?

“Para mim é simples”, ele diz. “Fantasia se tornou tão sem graça quanto todo o resto no entretenimento. Para ser um bestseller, você tem que enxugar bastante. Quanto mais previsível for o arco emocional de um livro, mais sucesso ele terá.”

“Eu entendo que Game of Thrones é diferente. Tem suas dimensões políticas; estou gostando muito do anão e bastante satisfeito que George (R. R. Martin), que é um bom amigo, tenha alcançado esse sucesso imenso. Mas em última análise, é uma novela. No objetivo de ter sucesso nessa escala, você tem que obedecer certas regras. Tive conversas com escritores de fantasia que ambicionam o status de best-seller, então perguntei a eles, ‘Sim, mas você quer escrever esses tipos de livros para chegar lá?’”

* * *

Quando criança, Michael Moorcock costumava ver fantasmas. Eles flutuariam pela janela até a sala de estar da família. Entre eles estava Jesus, um convidado inesperado, considerando que apesar de Moorcock ser meio judeu, nunca houve nenhum elemento religioso significativo em sua educação.

“Eu nunca vi essa coisa como real,” ele diz. “Eu sabia de alguma forma que tudo vinha da minha cabeça. E elas nunca me assustaram. Me acostumei com elas. Anos depois, na década de 60, quando todo mundo estava pirando em drogas e dizendo que haviam visto Deus, não me pareceu incomum.” Ele ainda tem essas visões de vez em quando. Linda diz que ele enxerga uma magnífica exposição de armaduras samurais brilhantes em vitrines de lojas, quando tudo que ela consegue ver são esponjas e baldes.

Essa é a perspectiva mágica do dia-a-dia presente em The Whispering Swarm – a experiência transcendente em uma rua comum. E torna-se mais difícil de manter enquanto o mundo se torna mais sombriamente materialista.

“Eu escrevo sobre Londres porque isso fornece um número máximo de narrativas,” Moorcock diz, “mas o culto do individualismo que vem com o consumismo capitalista é simplificador, destruindo todas as narrativas com as quais eu cresci: os mitos da nossa sobrevivência na Blitz, nossa habilidade para resistir a agressões, nossa habilidade para criar um novo mundo. Tudo isso está ameaçado agora, ou já foi destruído.” As pequenas ilhas de solidão e zonas de paz estão sendo forçadas a pagar o preço, ele me diz, e não há lugar em Notting Hill para um Jerry Cornelius – ou um Michael Moorcock.

“Então eu fico na França,” diz o nosso maior escritor de fantasia vivo, “rezando para que não fique mais parecida com a Grã-Bretanha.”

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