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Na Mira Do Atirador – E as problematizações desnecessárias!

Na Mira Do Atirador é um drama de situação

Em razão das influências teatrais e dos poderes da linguagem cinematográfica, a história do Cinema está repleta de filmes cujo roteiro se concentra em uma única situação dramática. Alguns dos exemplos mais clássicos são Festim Diabólico, O Anjo Exterminador e 12 Homens e uma Sentença. Já no século XXI, produções como Mar Aberto, Por Um FioDeus Da Carnificina e os recentes Águas Rasas Dunkirk mantiveram essa longa tradição cinematográfica. O novo filme a entrar nessa seleta lista é Na Mira Do Atirador (The Wall), drama de guerra dirigido por Doug Liman (o cineasta por trás de A Identidade Bourne No Limite do Amanhã).

Crítica de Na Mira do Atirador

Na Mira do Atirador

Situada na época em que os Estados Unidos estavam retirando as suas tropas das terras iraquianas e afegãs, a história tem como protagonista o soldado Isaac (Aaron Taylor-Johnson, de GodzillaAnimais Noturnos). Ao lado do franco-atirador Matthews (John Cena), eles são enviados a uma região do Iraque para descobrir o que aconteceu com um grupo de homens responsáveis pela construção de um gasoduto. Ao chegarem lá, se deparam com vários corpos. Em uma análise prévia, descobrem que todos foram assassinados por um sniper profissional, o mesmo que, posteriormente, manterá Isaac preso atrás de uma parede de tijolos, enquanto o tortura psicologicamente através de um rádio.

Como filme de suspense, Na Mira Do Atirador é extremamente eficiente. Com um início propositalmente vagaroso e no qual a situação principal é anunciada sutilmente, através de um jogo calculado de revelações imagéticas, a narrativa vai acelerando aos poucos, até atingir uma velocidade satisfatória, que prende a atenção do espectador, mas nunca soa equivocadamente acelerada. A trilha inteiramente diegética (uma raridade no cinema norte-americano atual), composta de silêncios e dos barulhos provenientes do vento e das tempestades de areia, é corretamente explorada pela mixagem de som, o que a torna um elemento vital para a manutenção do suspense.

Crítica de Na Mira do Atirador

Além disso, o roteirista Dwain Worrell, ciente de que um drama transcorrido em único lugar pode ser maçante, desenvolve as situações no tempo certo e, ao revelar intermitentemente informações sobre o protagonista, o sniper e, principalmente, o poder que este tem sobre aquele, sempre adiciona novos aspectos à narrativa, o que faz com a história avance constantemente. O fato de conseguir explorar de diferentes maneiras uma trama que tinha tudo para ser repetitiva atesta o surgimento de um bom nome para o gênero e, mais precisamente, para a exploração de situações limítrofes.

As baixas de guerra

No entanto, o mesmo não pode ser dito sobre o seu talento para explorar dramas intimistas ou questões externas mais sérias. Excetuando-se a forma como ele cria contrastes de inteligência entre o protagonista e seu inimigo – ao passo que o primeiro possui uma inteligência mais intuitiva, se adaptando facilmente às circunstâncias, o segundo é mais culto e frio na hora de conceber os seus planos -, todas as tentativas de preencher a situação com mais conteúdo se mostram fracassadas, a começar pela inclusão desnecessária de uma culpa sentida pelo protagonista em razão de um evento passado, o que não traz peso à história nem gera emoção genuína.

A adição de elementos políticos à discussão, por sua vez, além de irem na contramão da proposta de imersão sensorial do filme, acabam se anulando. A crítica à ação norte-americana no Oriente Médio é feita através da subjetividade do sniper, mas tudo o que sabemos dele é que é um sádico e mentiroso (não dá para acreditar em nada do que ele diz, muito menos sobre o seu passado como professor); ao mesmo tempo, o comentário sobre o Islã ser violento é contradito pela possível justificativa dada pelo atirador, já que as coisas que lhe aconteceram poderiam tirar a sanidade de alguém; e, por fim, criticar os Estados Unidos na figura de Isaac, que é o típico sulista, é de uma moral horrenda, pois os soldados que deram sua vida à luta não tiveram nada a ver com a criação da “Guerra ao Terror”.

Crítica de Na Mira do Atirador

Assim, o conteúdo político do filme não só ergue uma barreira entre o público e o drama narrado, como também gera uma confusão sobre qual posição está sendo defendida. Para piorar, o título original traz à mesa uma possível referência ao muro prometido por Donald Trump, o que acaba por transformar o confuso no incompreensível. Algo que, juntamente com o final anti-climático, em que o som dos helicópteros e a ausência de música não são suficientes para criar a tensão necessária, e a atuação irregular de Aaron Taylor-Johnson (ele está mais expressivo, porém, abusa das falas e dos palavrões para se expressar), contribui para fazer de Na Mira Do Atirador uma experiência insatisfatória. Se não tivesse recorrido a essas problematizações desnecessárias, seria um filme bem melhor.

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  • Andries Viljoen

    Um relato famoso de sniper no Iraque pós-Saddam é o de Juba, o franco-atirador, o atirador de Bagdá (جوبا) ou “Juba the Sniper”. Páginas da web de grupos Islâmicos, estórias em quadrinhos, vídeos e canções têm nos últimos anos exaltado os feitos de “Qannas Baghdad,” o sniper insurgente a quem são creditados inúmeros sucessos — muitos falam em centenas — de soldados americanos e iraquianos mortos nos quarteirões da capital do Iraque.

    Muito acreditam que não existe um Juba, mas sim um grupo de Jubas em ação no Iraque. E a que a ideia de um “único” sniper é resultado do medo e tensão por parte dos soldados americanos, assim como da propaganda inimiga, que procura solapar a moral dos soldados.

    O sucesso extraordinário de Juba comprova, mais uma vez que o papel dos franco-atiradores nas guerras contemporâneas, as chamadas “guerras de quarta geração” é absolutamente essencial, e que possuem um lugar privilegiado assegurado nas guerras do futuro…