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O Jantar – Um filme moralmente repreensível!

O Jantar é sabotado por diferentes atmosferas e focos narrativos

Obras como O Anjo Exterminador, Adivinhe Quem Vem Para JantarDeus da Carnificina funcionam por causa de duas características principais: situações limítrofes e um núcleo temático bem estabelecido. Respectivamente, esses dois aspectos servem para revelar o verdadeiro caráter dos personagens e emitir um comentário geral sobre a natureza humana. Essenciais ao subgênero no qual as obras supracitadas se encaixam, tanto um quanto outro precisam estar presentes para garantir o sucesso desse tipo de produção. O filme O Jantar (The Dinner), mais recente trabalho do diretor Oren Moverman, infelizmente, não é bem-sucedido na construção de nenhum deles.

Crítica do filme O Jantar

O Jantar

Baseado no romance homônimo de Herman Koch, o roteiro tem como protagonista Paul Lohman (Steve Coogan). Professor de História, marido e pai, ele é conhecido por ser antissocial e niilista. No entanto, como o seu irmão, Stan Lohman (Richard Gere, de Norman: Confie em Mim) está concorrendo a um cargo político importante, ele é obrigado pela esposa Claire (Laura Linney, de Animais Noturnos Sully: O Herói do Rio Hudson) a comparecer em um encontro familiar. Neste, as gentilezas iniciais logo dão lugar às conversas mais sérias e a um segredo do passado que promete modificar a vida de todos.

Os primeiros minutos de O Jantar são os melhores momentos do filme. Colocando os créditos iniciais sobre uma sequência de imagens que funcionam como um foreshadowing da trama, Oren Moverman, posteriormente, não só consegue estabelecer de maneira competente a lógica visual do longa – existe um clima de suspense inquietante, há predominância de cores quentes e alguns movimentos sinuosos de câmera, chegando a ter emprego de zoom, técnica esquecida pelos cineastas contemporâneos -, como também mostra ter evoluído tecnicamente. Quem se assustou com o amadorismo de Um Tira Acima Da Lei O Encontro se surpreenderá com a elegância e precisão de certos quadros.

Porém, a partir do momento em que começa o jantar – portanto, início do segundo ato -, o diretor se perde completamente. Um dos principais equívocos é dividir narrativa em duas: uma mostra a conversa entre os personagens principais, a outra, um flashback envolvendo o filho do protagonista. O motivo para essa divisão é estabelecer para o espectador a ligação existente entre o conteúdo daquilo que será discutido eventualmente com o segredo tenebroso que enlaça os personagens. Em si, a alternância entre passado e presente não é necessariamente ruim. O problema surge quando isso acontece em um filme que pretende ser um drama de câmara.

Crítica do filme O Jantar

Apesar de o diretor tentar construir uma atmosfera especial em cima do jantar, usando letreiros como “Entrada”, “Prato Principal” e “Sobremesa” para estruturar o desenrolar dos eventos, a verdade é que as revelações não acontecem necessariamente por causa da situação em que os personagens se encontram. O grande segredo poderia ser revelado em qualquer outro lugar sem que isso alterasse a essência da história. A própria narrativa, ao começar na casa do protagonista, recorrer aos flashbacks e, constantemente, acompanhar os personagens quando saem do restaurante para fumar ou fazer alguma coisa do lado externo, sabota a sua intenção de se confinar dentro de um único ambiente. Dessa maneira, os recursos empregados por Moverman para ressaltar o jantar acabam se transformando em perfumaria estilística, desprovidos de importância.

O foco temático, por sua vez, se fragmenta em várias frentes, todas brigando pelo protagonismo e incapazes de aceitar o papel de sub-texto ou coadjuvante. Em certos instantes, tudo o que importa é o segredo e, caso este seja revelado, como isso afetará a vida dos envolvidos. Mas, em outros momentos, o filme parece interessado em se aprofundar na questão geracional, mostrando como pais ruins criam filhos que também serão pais ruins, com um destaque especial para a história de Paul e Stan. Por fim, em uma terceira instância, parece que a doença enfrentada pela esposa do protagonista tomará a dianteira.

Essa indefinição também aparece na hora de Moverman criar a atmosfera. Como disse anteriormente, no começo, existe um clima de suspense. Paralelamente, há comédia por causa dos comentários feitos pelo protagonista, uma espécie de Woody Allen ainda mais pessimista (aliás, nesse sentido, a escalação de Steve Coogan é certeira, uma vez que o ator tem um timing verborrágico perfeito). Apresentado já no início, esse paralelismo vai até o fim. Durante um tempo, enquanto o público desconhece os personagens, ele funciona, pois o espectador se mantém interessado e entretido. No entanto, quando estamos familiarizados com o caráter de cada um, surge um problema moral muito sério.

Crítica do filme O Jantar

Onde estão os bons valores?

E isso acaba nos trazendo ao coração totalmente enegrecido de O Jantar. Ao ser revelado, o grande segredo da trama apresenta participações diretas e indiretas completamente abjetas por parte dos personagens. Todavia, em vez de o filme dar a esses desvios comportamentais o peso necessário, o revezamento entre comédia e drama continua, tentando gerar risadas quando a única reação possível é a total repulsa. A cena final é um exemplo disso. O que está acontecendo é repugnante, mas Moverman compõe tudo como se fosse uma sitcom de humor negro.

Mas, as coisas pioram, já que o maior problema não é esse. Na verdade, o prêmio de “recurso mais deplorável empregado por um cineasta” cabe à quebra da quarta parede, que, embora seja usada arbitrária e inofensivamente em boa parte da narrativa, no final, se transforma em uma arma violenta, nos colocando na incômoda posição de cúmplices morais e nos jogando na mesma vala moral em que os personagens se encontram. Tudo isso para justificar a ideia de que todos os seres humanos são podres. Infelizmente, Moverman não percebeu que estava falando apenas dele mesmo e não da totalidade da espécia da qual ele faz parte.

Dessa maneira, as escolhas do cineasta são equivocadas tanto do ponto de vista narrativo quanto do ético. Ironicamente, o diretor evoluiu a sua técnica, mas regrediu como um ser moral. Contudo, nenhum avanço estético é capaz de suprir a necessidade que uma história tem de ser bem contada e de que o coração dos realizadores estejam no lugar certo. Olhar para o mundo com cinismo é uma característica compartilhada pelos artistas medíocres, mas falhar até mesmo na hora de de conceber esse cinismo é uma peculiaridade compartilhada apenas pelos ordinários.

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  • Gean Lionel

    Tenho quase certeza que esse crítico é um antipetista. Aposto! É um coxinha! KKKKKKK