Home > Cinema > Carros 3 – O medo do cemitério de automóveis!

Carros 3 – O medo do cemitério de automóveis!

A decadência automobilística em Carros 3

Ultimamente, Hollywood parece estar interessada em explorar os dramas da decadência e da passagem do tempo. Foi assim com Loganem que foram narradas as últimas aventuras do mutante com esqueleto revestido de adamantium, e com a comédia Despedida Em Grande Estilocuja história girava em torno de três idosos assaltando um banco. Cito somente esses dois títulos porque desejo focar nos últimos seis meses. Porém, o segundo semestre de 2017 já começou, e o tema volta à tona com Carros 3 (Cars 3), animação que, encerrando a trilogia iniciada em 2006, trata do fim da carreira de seu protagonista de uma maneira que é tanto cômica quanto lúgubre.

Crítica de Carros 3

Carros 3

Quando a narrativa do novo filme começa, Lightning McQueen (voz original de Owen Wilson, visto no recente Gênios do Crime) ainda está gozando de sucesso e colhendo os frutos provenientes do fato de ser o carro de corrida mais veloz de todos. No entanto, a sua alta posição no universo automobilístico passa a ser ameaçada no momento em que Jackson Storm (Armie Hammer, de Animais Noturnos), um carro construído a partir das mais novas invenções tecnológicas, começa a ganhar todas as corridas. Agora, ele terá de decidir se aceita a derrota ou junta forças para vencer o ameaçador oponente.

Carros 3 é um filme sobre a inevitabilidade da passagem do tempo. Tratar de um assunto como esse numa animação destinada ao público infantil pode parecer alienação, entretanto, se ele for trabalhado com um certo equilíbrio, respeitando a inteligência dos pais que levam os seus filhos aos cinemas e, também, a inocência das crianças que buscam apenas divertimento, pode sempre gerar um filme como Up – Altas Aventuras. Caso contrário, é bem provável que se fique no meio do caminho, agradando os grandões, porém, entendiando os pequenos. Infelizmente, é isso o que acontece nesta nova animação da Disney-Pixar.

Crítica de Carros 3

Nos instantes em que se concentra na melancolia de seu protagonista, o filme entrega os seus melhores momentos. Usando coisas como um velho cinematógrafo e se beneficiando do local em que a trama se desenrola – o sul dos Estados Unidos – para criar bonitos paralelos entre a situação de Lightning McQueen e o desenrolar da história estadunidense como um todo (é comovente a forma como o filme lamenta a “morte” dos valores tradicionais norte-americanos), os roteiristas conseguem estabelecer para o espectador (adulto, principalmente) a dor sentida pelo protagonista e transformar o seu drama particular em um sentimento capaz de ser reconhecido por qualquer um.

Além disso, os roteiristas mostram ter maturidade narrativa na forma como enxergam a evolução tecnológica e um possível progresso histórico. Em vez de verem na tecnologia somente uma força poderosa que, na sua caminhada inconsequente, destrói vidas e deixa um rastro de morte por onde passa, eles entendem que esse marchar do tempo é imparável e que, na mesma medida que traz problemas, entrega soluções. Assim, não deixa de ser interessante que busquem defender a ideia de que se o avanço da história é irrefreável (até mesmo referente aos discursos ideológicos, já que há um elemento de empoderamento feminino), seria um erro achar que o passado e as pessoas mais velhas não têm nada a ensinar. Quem não conhece tempos pretéritos está sempre propenso a cometer os mesmos erros.

Crítica de Carros 3

Onde ficam as crianças?

No entanto, como podem ver, essas questões, tão pertinentes à parcela adulta do público, nada significam para crianças. Portanto, para mantê-las interessadas, era necessário que as gags visuais fossem boas o suficiente para atrair a atenção e produzir risos. Porém, a maioria das piadas não possui graça alguma. Aliás, algumas delas se destacam negativamente pela falta de timing cômico de Brian Fee, o diretor (dentre os últimos filmes lançados pelo estúdio, Carros 3 é o menos criativo nos quesitos humorísticos). Piorando ainda mais a situação, o ritmo estabelecido pela montagem é lento demais. Se, para os adultos, essa lentidão é tolerável, para as crianças, se transforma numa tortura.

Dessa maneira, este último capítulo é um filme que falha em atingir o seu principal público: o infantil. É verdade que os dois filmes anteriores da trilogia nunca foram grandes obras cinematográficas, mas, ainda assim, eram longas mais bem-sucedidos que o atual. No fim, é uma despedida irregular para uma série de filmes irregulares (se é que dá para falar em “despedidas” quando o assunto é Hollywood). Talvez, em questão de anos, nem mais nos lembremos deles.

Já leu essas?
Crítica de Não Devore Meu Coração
Não Devore Meu Coração – Experiência fascinante!
Crítica de A Vilã
A Vilã – Uma vida de muita violência!
Elder Fraga premiado melhor diretor por curta baseado em Shakespeare!
Crítica de Uma Razão Para Viver
Uma Razão Para Viver – Estreia frustrada de Andy Serkis na direção!