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Luta Livre – A Arte do Esporte Combativo Predeterminado!

Luta Livre – O combate falso de emoções reais

Você sabe que é tudo falso, né?”, você me pergunta, sem ao menos ter deixado eu começar a comentar sobre a arte do combate esportivo predeterminado. Sim, eu sei. Todos os fãs de luta livre sabem, acredite. Nenhum de nós acredita que eles estão lutando de verdade. Eu acho. Espero. Ok, talvez um ou outro ache que é real. Mas isso não é importante.

luta livre

E por que eu deveria me importar com uma lutinha falsa?”, você continua. Já falei que eu acho extremamente mal-educado que você fique me interrompendo? Não obstante, eu provavelmente não mudarei sua opinião sobre a modalidade, e nem é essa minha intenção, só quero tagarelar sobre o assunto. Se eu te convencer o contrário, porém, é lucro!

O conceito da “lutinha falsa” leva as pessoas ao erro. Por exemplo, certa vez, estava eu assistindo um evento da New Japan Pro Wrestling (a liga japonesa mais popular do país, doravante NJPW), quando meu pai, que nunca assistiu sequer os programas nacionais, apareceu enquanto o show estava no intervalo e descreveu a luta livre como “um tipo de ballet”. Minha resposta foi: “se houver um ballet onde a bailarina jogar o bailarino em uma mesa pegando fogo, eu começarei a assistir ballet”. E eu não estava exagerando:

Não é porque é um esporte predeterminado que os lutadores não se machucam, muito pelo contrário! Os lutadores se acertam golpes com força e não é por acidente. Depois ele viu uma luta e percebeu… que é um ballet bem dolorido.

Bom, mas porque celebrar essa arte/esporte? Não vou focar na história da luta livre (é para isso que serve o Wikipedia) ou contar a história da arte no Brasil (assista “Monstros do Ringue”, de 2015, dirigido por Marc Dourdin, excelente documentário sobre o tema). Focando no presente, a luta livre é uma indústria que move milhões de dólares mundo afora, popular nos Estados Unidos, Japão, Reino Unido e, claro, México. Nestes países, programas semanais são transmitidos pela televisão, eventos enchem estádios e os lutadores são tratados como celebridades (…tipo, “celebridade tipo B”, igual atores de novela das 18h. Contudo ao menos são respeitados).

De fato, algumas pessoas definem a luta livre como “um filme de ação ao vivo”, e essa é uma boa descrição. Por ser predeterminado, é necessário motivações, então surgem as “histórias”, onde os lutadores interpretam seus personagens, com uma historinha no melhor estilo “série de TV de ação”, criando rivalidades e alianças.

Luta de mentira, arte de verdade

E sim, todos eles já ouviram “mas é tudo falso, né?”.

Se é tão popular assim”, você me interrompe, eu te olho feio, mas você me ignora e continua, “então por que a luta livre morreu no Brasil?” Ok, vou deixar quieto dessa vez, porque é uma pergunta justa. Enfim, a luta livre não “morreu” – os fãs tiveram que migrar para os produtos internacionais. A razão é simples: a Luta Livre brasileira não “evoluiu”, sendo ainda apenas dois caras “lutando” num ringue.

Como eu mencionei agora pouco, no exterior, a modalidade é uma “novela”: existe um storytelling e tudo mais. Essas histórias são contadas seja por skits entre as lutas, seja por promos (segmentos onde os lutadores fazem monólogos) ou seja através da própria luta, o que é possível, uma vez que se trata de uma luta ensaiada. Inclusive, com a “modernidade”, as histórias não se restringem à programas semanais, estendendo-se para as mídias sociais.

Exemplo prático: Todo fã de luta livre que acompanha as principais promoções (e não só a WWE) certamente citará Kenny Omega contra Kazuchika Okada, no Dominion 2018 como uma das melhores lutas (se não a melhor, eu certamente acredito que ela seja) do ano passado. A saga do Kenny foi contada ao longo do programa semanal exibido no canal de YouTube “Being the Elite” e de eventos na NJPW e na Ring of Honor.

Omega, então líder do grupo Bullet Club, havia sido abandonado pelos companheiros de facção, depois de falhar em derrotar Okada, o então campeão da liga japonesa, duas vezes. Com a ajuda de Kota Ibushi, seu antigo parceiro das ligas independentes, Kenny é desafiado para um confronto final com Okada e eles magistralmente narram a história através da fisicalidade, ao longo de uma hora e sete minutos (!) de luta. Kenny finalmente derrota o até então invencível Okada e se torna campeão. …eu me emocionei, eu admito. E tudo bem, porque os especialistas da área se emocionaram também.

A luta livre vive um momento de revolução. Por quase 20 anos, a WWE é a líder absoluta da modalidade. Seus rivais, NJPW, Ring of Honor, Impact Wrestling, Lucha Underground, entre outros, não tem a mesma visibilidade ou tamanho. Tal posição de liderança fez a WWE “relaxar” – a qualidade de sua programação anda longe de seu auge, no final dos anos 90, quando estava em guerra com a WCW. Isso mudou, contudo, com o surgimento da All Elite Wrestling, formada pela Elite, um grupo de ex-lutadores da NJPW e da RoH, financiados por Tony Khan, filho do bilionário Shahid Khan, dono do Jacksonville Jaguars, time de futebol americano. Com um investimento bilionário e alguns dos melhores lutadores indies da atualidade, a WWE vê seu reino ameaçado pela AEW.

Se você gosta de luta”, eu nem vou comentar essa nova interrupção, “por que você não assiste MMA?”. Como ex-lutador (eu lutava Muay Thai e Submission), eu até acho interessante assistir, pelo aspecto técnico. O diferencial, porém, é que a luta livre… é realmente um filme de ação ao vivo, com movimentos absurdos, teatralidade e momentos de tensão. O MMA é… realístico demais, quase uma barbárie. E disso, meu cotidiano já está cheio. Então, eu prefiro minhas lutinhas falsas.

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