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Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias – O Sol e a Fúria!

Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias é puro substrato de memória e cultura na forma de quadrinhos

Otto Maria Carpeaux, um dos maiores críticos literários da história brasileira, disse que José Lins do Rêgo era o último grande contador de histórias do país. Uma pena o crítico ter morrido em 1978. Ele morreu muito antes de poder mudar de ideia. Porque se era do regionalismo lírico de Rêgo que ele admirava, Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias, de Jefferson Costa, lançado aqui pela Pipoca & Nanquim, iria ser um prato cheio para ele.

Não há porque circundar demais o volume, ou poupar elogios. O trabalho do autor nessa HQ retoma a trajetória das famílias de seus pais através do implacável sertão nordestino, e aborda um tema bastante caro – e, no texto e traço de Costa, comparável – ao regionalista supracitado, assim como outros nomes que definiram os pilares do “som e da fúria” do povo brasileiro, como Graciliano Ramos e Jorge Amado.

Retomaremos os louvores – merecidos – em breve. Roseira é um trabalho de resgate – a história, a memória e o esquecimento ricoeurianos que eu sempre gosto de mencionar por aqui. E fala sobre uma história de resistência à negligência, de um povo cuja cultura é quase sinônimo da palavra “sobreviver”.

Natureza inclemente brasileira

O contexto histórico-geográfico atravessa um par de gerações das famílias dos pais do autor, que transitam entre desde simpáticas cidadezinhas até o sertão nordestino, perpassando a lembrança do infame, porém persistente, Polígono da Seca. Nós, de outras regiões do país, eventualmente esquecemos dessa eterna celeuma brasileira. Para muitos nordestinos, é uma realidade e ameaça sempre iminentes.

Foi entre 1877-1879 que a ficha caiu para o governo brasileiro pela primeira vez: Quase 250 mil mortos, direta ou indiretamente, pelo sol inclemente e o chão rachado. O que foi feito para contornar essa realidade natural e preservar o povo do temperamento volúvel do sertão? Nada. Ou muito pouco.

E não apenas D. Pedro II não fez nada. Praticamente todos os que vieram depois dele ou negligenciaram solenemente a questão, ou, como em 1970, apenas criaram métodos e programas que reforçavam a presença da Indústria da Seca como um estado-cliente e conveniente da manutenção do status quo político brasileiro. Este, que sempre matou mais do que clima, e deu origem aos tropos típicos – e ainda assim, menos retratados do que deveriam – da história nordestina, como a migração, a fome, o cangaço, etc.

O ponto ao jogar luz sobre essa questão é que tanto tempo de exposição e resistência ao clima e ao sistema moldaram não apenas o caráter dos nordestinos como indivíduos, mas também sua cultura enquanto povo. E se minha fala parece demasiadamente técnica e acadêmica e afasta o leitor da obra, como se ela tivesse a intenção de ser uma apostila ilustrada, peço desculpas. Não é nada disso. Apenas me falta o talento para tornar dados frios no lirismo da dor e da alegria do povo. Felizmente, esse talento sobra para o autor.

Sobre os ombros de gigantes

Apesar de ter evocado nomes como Rêgo e Ramos, é curioso como as escolhas narrativas lembram muito mais, talvez, os trabalhos de Guimarães Rosa. Justifico: O “Outras Histórias” do fim do título entrega um ponto do que a HQ realmente é. Antes de ser uma narrativa coesa e linear, ela transita entre tempos e personagens de forma fluida, lembrando, através de seus coloquialismos interioranos e neologismos, o autor de Grande Sertão e Sagarana.

É seguro dizer, talvez reafirmar, que a verdadeira protagonista da trama não é a família do autor, em um esforço biográfico, mas a cultura por eles emanada e na figura deles preservada – um esforço muito mais filosófico. Costa faz uma espécie de ponte entre as pretensões de uma alta literatura, insinuando uma grande epopeia familiar, mas nos entrega uma narrativa etérea, intuitiva, que soa mais como um conto oral cheio de afeto do que um exercício formal de escrita.

Há que se ressaltar também o trabalho gráfico de Costa, cujo talento muitos descobriram inicialmente no seu ótimo trabalho com Jeremias: Pele. Se a narrativa é, como dissemos, bastante afetiva e sempre incutindo em abstrações que desafiam a compreensão linear do leitor, o autor evita que este se perca imprimindo o ritmo da leitura através de um dinamismo interessantíssimo nos seus traços e formas.

Há constantemente uma transição entre representações mais realistas, quando existe a intenção de chamar a atenção, e traço livre, informal – no sentido estético – quando ele parece pretender que o leitor pare de pensar e passe a vivenciar o que está sendo dito ali. Sua paleta de cores é recheada de escolhas precisas,que  que tem um objetivo bastante claro: Manter na superfície das nossas mentes a imageria típica nordestina, de elementos barrocos, interioranos e da poeira do chão seco levantada pelos resilientes pés rachados de mesma cor do seu povo. Um espetáculo visual que exala brasilidade.

Nossa história, nossa memória, nosso esquecimento

A mim, como ex-professor, só me resta fazer um lamento e um encarecido pedido: Não tenho mais, nesse momento, a oportunidade de levar essa obra para dentro da sala de aula. Roseira, assim como outras obras recentes, como Angola Janga ou Couro de Gato, realizam um envolvente resgate narrativo e visual da nossa própria história, feitos como se fossem prontos para conquistar as mentes daqueles que estão aprendendo sobre a história de seu próprio país e sociedade.

Seria tão belo se nossa educação desse um passo além de sua tradicional esterilidade e alienação, e usasse essa brilhante geração de quadrinistas em atividade de uma forma diferente do austero e anacrônico ensino que estraga o prazer e a fruição de tantos brilhantes autores para os alunos, como os já citados Rêgo, Ramos, Amado, Rosa, etc.

E sobre isso, é válida uma última reflexão: Muitos dizem que a literatura brasileira mingua, e que não existem mais grandes pensadores da história e cultura brasileira. Eu digo que, até onde consigo ver, ela apenas tomou outra forma nesse exato instante. Uma forma envolta por quadros e expressa através de riscos. Os Rosas e Ramos da nossa geração estão vivos e crescendo, trabalhando com uma forma de arte que, tal qual nossa literatura foi em sua maior expressão, é marginal, afrontadora, consciente e bela.

Que os Quadrinhos salvem nossa história.

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