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O Ninguém – Isolamento, paranoia e invisibilidade!

Jeff Lemire usa o fantástico para contar uma história intimista em O Ninguém

Jung disse que a solidão é perigosa e viciante, pois a não obrigação de lidar com outras pessoas traz paz ao indivíduo. Atire a primeira pedra quem nunca desejou essa condição em algum momento ou ocasião específica de sua vida. O Ninguém (The Nobody), de Jeff Lemire (Trillium, O Soldador Subaquático) aborda essa questão através da metáfora da invisibilidade, mas ainda vai além e provoca outras reflexões e interpretações que revelam sua riqueza conceitual.

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Lançado originalmente em 2009, pela DC, via selo Vertigo, esse trabalho chegou ao Brasil em volume único, publicado pela editora Pipoca & Nanquim. Para os iniciados, a imagem da capa já deixa claro que se trata de uma releitura de O Homem Invisível, clássico do fim do século XIX, escrito por H. G. Wells. A interpretação visual também remete à sua célebre adaptação cinematográfica homônima de 1933, dirigida por James Whale, outro marco em sua própria mídia.

O Ninguém mostra uma situação bastante corriqueira em qualquer narrativa, não fosse pela condição de seu personagem principal. A pequena cidade de Boca Larga, em algum lugar do meio oeste norte-americano, não tem muita ação em seus arredores e o tédio da vida de seus habitantes é quase palpável. A chegada de um forasteiro tira o local de sua letargia habitual, pois o recém-chegado se apresenta com o corpo envolto por bandagens e olhos cobertos por óculos fechados como os de natação.

John Griffen (mais uma alusão direta ao protagonista de Wells, Griffin) aluga um quarto em um motel e ali se instala, sem sair ou interagir com alguém além do mínimo necessário. Evidente que o ambiente provinciano de Boca Larga propicia todo tipo de teorias estapafúrdias sobre ele, que vão do cômico ao paranoico. Lemire faz aqui seu comentário sobre essa capacidade que, infelizmente, as pessoas têm de já atribuir algo de ruim às pessoas que não se enquadram em padrões coletivos. O elemento textual é sutil, já que pessoas introvertidas e com menos habilidade social podem muito bem se identificar com a situação.

Quem guia nossa experiência dentro da narrativa de O Ninguém é Vickie, uma adolescente solitária e extremamente aborrecida com a vida em Boca Larga. Abandonada pela mãe e criada por seu pai, o olhar dela sobre Griffen é completamente oposto ao da comunidade geral. A princípio, movida por uma curiosidade própria da idade, o ímpeto de descobrir o que existe oculto por aquelas bandagens – no sentido figurado e literal, simultaneamente – forja uma improvável amizade entre pessoas muito diferentes, mas com dramas que encontram uma conexão evidente.

Para o autor, o pano de fundo científico importa menos do que a relação humana. Exatamente por isso, ele não cai na tentação de compor Griffen como uma pobre vítima inocente das circunstâncias. Assim como não sobrecarrega seus leitores com informações que teriam inchado a narrativa desnecessariamente, comprometendo o envolvimento emocional do qual a história depende. As “lacunas” deixadas servem para reforçar o sentimento de Vickie, nos colocando ao lado dela, como se lidássemos com as mesmas dúvidas.

O Ninguém - Pipoca e Nanquim

Representação visual e conceito andam de mãos dadas

Com seu traço característico, muito adequado à natureza do roteiro, Jeff Lemire está acima de qualquer suspeita como contador de histórias – quando responsável por arte e roteiro, pelo menos. Este não é o primeiro texto que elogia suas capacidades em narrativa visual, o que já soa redundante há tempos. Cabe ressaltar que aqui, como em Nada a Perder, ele optou pelo azul complementando o preto e branco de seus traços marcados e propositalmente irregulares.

Não apenas uma opção meramente estética, esse tom reforça o clima frio do local, a tranquilidade modorrenta e, consequentemente, a melancolia que assola os personagens. Quando Griffen está em cena, é perceptível a maior utilização de massas de preto, um artifício visual muito sábio, que gera mais interpretações sobre o que essa chegada provoca na comunidade.

Cadenciando o ritmo de cada cena de uma forma muito precisa e calculada, Lemire varia bastante sua diagramação, sem que algum detalhe destoe do conjunto. Ele tanto usa um grid tradicional de nove quadros, como também um formato de storyboard vertical que mistura quadros aquarelados. Mesmo assim, o clássico contraste na variação de planos se faz presente, garantindo a fluidez e uma perfeita simbiose da imagem com o texto.

Ao fim do álbum, O Ninguém deixa inúmeros conteúdos para o leitor assimilar. Quem gerou mais identificação, Griffen ou Vickie? Como se sentiu sobre o comportamento geral dos habitantes de Boca Larga? Essas, entre outras, são perguntas pertinentes e provam a sensibilidade profunda deste belo roteiro. Além da pungência que essa situação geral carrega, a escolha do título não poderia ser mais feliz.

Talvez, alguns dias depois da leitura, você se lembre de Griffen como alguém que realmente passou por sua vida, segundos antes de perceber que o conheceu somente através de páginas impressas.

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