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Jeanine – Quando nos esquecemos para que possamos lembrar!

Jeanine é uma narrativa sobre as tramas das nossas vidas – e os fios que esquecemos

Uma das características mais interessantes da vida é que, como diria Paul Ricoeur, “o esquecimento é uma das ferramentas mais importantes na construção da memória“. Nossos hiatos entre eventos, suas motivações, sua continuidade, quando se perdem, sempre provocam um misto de emoções: a inevitável dor de esquecer algo que um dia foi precioso e, quando esse sentimento se esvai, o deleite e frescor quando alguma dessas memórias vêm à tona, como se nossas próprias vidas fossem assistidas pelos olhos de outrem.

(Clique na imagem para comprar!)Resenha da HQ Jeanine

Talvez esse seja o maior encanto de Jeanine, HQ do francês Matthias Picard lançada recentemente pela Veneta. Nela, o autor realiza uma retomada, na forma de narrativa visual, da surpreendente e errática trama da vida da protagonista homônima, também conhecida por seu pseudônimo de trabalho: Isa, a sueca. Pseudônimo esse que é associado ao trabalho que acabou por definir grande parte de sua vida: a prostituição. Mas que de forma alguma a reduz à isso.

(Confira também as resenhas de O Perfeito Estranho e A Louca do Sagrado Coração!)

Porque, de fato, quando se pensa no sumo de uma vida tão vívida – entre ser uma promessa desportiva, aceitar a prostituição não como uma vergonhosa necessidade, mas como um austero modo de vida, e dessa austeridade extrair o ímpeto para a militância política – imaginasse o glamour crepuscular da boemia francesa, onde o imaginário vive no limite.

No entanto, os relatos do próprio autor dão o tom da obra: uma trama cuja beleza reside nas intersecções de seus fios, e não na visão do todo. Ele a conheceu em uma entrevista onde contava a história de sua vida – sem estar usando sua indefectível peruca platinada, que distingue Isa, a Sueca, de Jeanine. Ou seja, despida de sua persona. Isso explica um pouco do choque de Picard ao posteriormente encontrar Jeanine – ou melhor, na ocasião, Isa – pessoalmente pela primeira vez.

Um evento chamado Jeanine

De fato, muitas resenhas da obra, curiosamente, se propõem a destacar pontos de virada mais explosivos da sua vida: Jeanine, a promissora jovem nadadora; Jeanine, a militante política presa em Maio de 68; Jeanine, a prostituta; Jeanine, a militante política pelos direitos das prostitutas. Tudo isso constitui, de fato, pinceladas salutares da exótica vida da então sexagenária (a HQ foi publicada originalmente em 2011 na França).

No entanto, Picard acerta ao não se concentrar demais nesses pontos e se focar no todo. Sua narrativa flutua pelo tempo como quem observa argutamente um quadro, mas sem uma ordem definida do caminho do olho. Diria o mesmo Ricoeur do início do texto que uma obra de arte se realiza no momento em que acontece para o espectador. Assim foi a vida de Jeanine, e é exatamente assim que Picard a retrata: ela simplesmente aconteceu.

Resenha da HQ Jeanine

Picard opta por uma arte característica das narrativas biográficas de quadrinhos independentes – ou que ao menos se tornaram assim características depois de Persépolis. O que funciona, incidentalmente, até melhor para uma história que, apesar da imensa carga dramática, não possui nuances reflexivas tão profundas quanto a obra de Satrapi. E isso não é demérito.

É apenas uma maneira de pontuar que, ao contrário da iraniana, Jeanine nunca teve a oportunidade de exaltar e pensar sobre sua própria história. Sua vida foi fluida, solta, por inúmeras vezes imprevisível, e a narrativa visual de Picard faz questão de emular essas ideias em sua arte de luz e sombras – mais as últimas que as primeiras.

Jeanine é aquele pressuposto hermenêutico que eventualmente ressurge pelas mãos de algum artista quando esse resolve fazer o que raramente fazemos no nosso dia-a-dia: pensar sobre quem é a pessoa ao nosso lado. Seu ponto de vista sobre sua própria história. Como ele a narra e o que ele deixou para trás. A memória, a história e o esquecimento.

Jeanine morreu em 2015. Que não seja esquecida.

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