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Asa Quebrada – Uma vida em meio à História!

Com a HQ Asa Quebrada, autores revisitam um universo familiar

Em se tratando de arte, quando a obra retrata algo pessoal e indissociável dos criadores, a chance de resultados expressivos é muito maior. E o que entraria mais nessa categoria do que as pessoas que nos trouxeram ao mundo? Antonio Altarriba sabe bem como isso funciona, pois contou a história de seu pai em A Arte de Voar, de 2010. Seis anos depois, esse trabalho ganharia um par inusitado com a HQ Asa Quebrada, que trouxe sua mãe como protagonista.

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Ainda sobre A Arte de Voar, o premiado álbum não era apenas sobre a trajetória de alguém caro ao roteirista. O retrato de uma Espanha assolada pelo fascismo no começo do século passado, com um protagonista politicamente engajado, já soa atrativo na premissa. Na contra-mão, Asa Quebrada tem em seu foco uma personagem sem a mesma consciência.

Alienação é o termo que descreve o caminho de Petra, do nascimento até sua morte em idade avançada. Mesmo assim, os que não se apressarem no julgamento perceberão que ela não foi menos lutadora e, ao seu próprio modo, heroica do que seu marido. Chegando ao mundo, ela já enfrentou uma situação difícil, com a mãe morrendo no parto. Seu pai, em um acesso de loucura pela morte da amada, tentou matar a recém-nascida, salva pela irmã por pouco.

O episódio deixou sequelas. O braço da pequena foi quebrado, comprometendo a mobilidade do membro, que permaneceria semi-flexionado por toda vida. Curiosamente, é exatamente essa consequência que motivou Altarriba a contar a história de sua mãe, até então, considerada apenas um apêndice na trajetória do pai. Afinal, como foi possível conviver com por tanto tempo com uma pessoa e só perceber, por acaso, essa condição próximo ao seu falecimento?

Os acasos criaram a metáfora que une as duas HQ’s de Antonio Altarriba, que soube usar isso de uma forma belíssima já nos títulos que contrastam entre si. Asa Quebrada ainda abarca em seu significado não apenas a – relativa – limitação física, mas também a vida difícil que a resignada Petra precisou encarar. A condição feminina em um meio provinciano, agravada pela época em questão, são fatores impossíveis de se ignorar. O catolicismo fervoroso foi um refúgio seguro e a ausência de ideologia política até garantiu benefícios profissionais, mesmo que a ela não importasse estar tão próxima do poder na Espanha.

Mãe, Esposa e Mulher

Com nossa protagonista levando a vida alheia ao Franquismo, o peso do regime vigente parece importar menos quando nos lembramos do título da HQ e dos motivos que levaram à sua concepção. Fazer justiça à memória de uma pessoa é o principal, mas como isso deve ter sido desconcertante para o autor, justamente por ele, como todas as outras pessoas que a conheceram depois de adulta, nunca ter se dado conta de sua condição.

Houve culpa neste caldo? Talvez. Teria ele se questionado se tal coisa também passaria despercebida se fosse em seu pai? São questionamentos como esses que nos compelem a lembrar das pessoas que convivem conosco e a atenção que dispensamos a elas. Não se pode deixar de notar também, inclusive, uma espécie de homenagem às mulheres de uma geração distante, que, quase sem opção, se auto investiam da missão de cuidar dos outros antes de si.

Resenha da HQ Asa Quebrada

Um dos grandes valores de Asa Quebrada é justamente provocar essas reflexões, além de outras sobre a coragem paradoxal de Petra e de muitas outras contemporâneas a ela. É justamente isso que transcende o ato de sua leitura e permanece conosco depois de seu término.

No meio de tantas agruras, Antonio Altarriba ainda conseguiu evitar a santificação de sua mãe como protagonista da HQ. Felizmente, a Petra que acompanhamos é uma pessoa falível e, por isso, verossímil nesta linha narrativa. Simpatizamos com ela e nos compadecemos de seus sofrimentos, porém, nem por isso deixamos de questionar certas atitudes. São detalhes que tornam mais vívido o relacionamento com seu marido, que poderia figurar ali apenas como alguém “errado”, e seus desdobramentos.

Revivendo o passado na arte de Kim

Joaquín Aubert Puigarnau, que assina como Kim, repete aqui a parceria de A Arte de Voar. Com uma narrativa expressiva que nos faz esquecer que acompanhamos um retrato biográfico, as figuras dos personagens conseguem transmitir com sucesso as emoções envolvidas nas cenas.

Nada mais adequado que a diagramação das páginas seguisse o tradicional, sem buscar virtuoses gráficas que não encontrariam relação com a protagonista e com o tom de resgate histórico. Neste sentido, o preto e branco com tons de cinza também se mostra uma escolha acertada conceitualmente. É o caso de um artista que mostra desenvoltura e tranquilidade em uma simplicidade estilística relativa.

Um dos grandes pontos positivos da arte de Kim está na quantidade de detalhes que consegue encaixar em cada cena. Um feito notável em um trabalho que não busca o hiper realismo. Seja em planos gerais externos, em ambientes domésticos ou no interior de igrejas, é esse cuidado do artista que nos convence e nos leva para dentro da história. Roteiro e arte caminhando de mãos dadas, conferindo um ritmo de leitura bastante dinâmico e sem comprometer o drama envolvido.

Resenha da HQ Asa Quebrada

A vida real está no gibi

A HQ Asa Quebrada é mais um belo acréscimo ao catálogo da Veneta, que já está identificada com essa vertente de quadrinhos biográficos e de História. Os leitores que gostaram de Sendero Luminoso, Angola Janga e Couro de Gato têm um bom motivo para procurá-la. Aliás, com algum atrativo a mais.

O trabalho de Altarriba e Kim provoca a reflexão sobre o contexto da Espanha de outrora e o impacto na vida do povo. Neste sentido, ele toca em um lado mais frio do nosso senso crítico, mas equilibra isso muito bem com sua protagonista. Por mais que alguém discorde do caminho de Petra, é preciso um distanciamento emocional imenso para não se importar e torcer por ela, ou deixar de lamentar seu fim.

Não basta que um protagonista de HQ tenha existido para que nos conquiste. Às vezes, isso até atrapalha dependendo do grau de fidelidade que o autor busca. No caso da cativante Petra, uma mãe não poderia esperar de um filho uma homenagem póstuma tão especial quanto essa.

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