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Cinema Purgatório: Volume 1 – Pague o ingresso e os seus pecados!

Alan Moore convida para uma sessão sinistra em Cinema Purgatório: Volume 1 

Até quem chegou no universo dos quadrinhos ontem (caso desta que vos escreve) sabe que o nome Alan Moore tem poder. Um poder tão grande que faz muita gente gastar o suado salário em coisas nem tão boas assim pelo simples fato de terem o aval do autor de Choques Futuristas. Em 2016, por meio de um financiamento coletivo no Kickstarter (aliás, o Formiga também está com uma campanha nesses moldes no site Apoia.se, sabia??), Moore juntou-se a Kevin O’Neill para criar uma série mensal de histórias de terror, bem ao gosto (de sangue?) da saudosa EC Comics. Cinema Purgatório: Volume 1, chegou aos leitores brasileiros pela Panini Books e reúne as histórias originalmente publicadas na edição Cinema Purgatorio 1-3. Talvez por isso fique faltando a cereja nesse bolo sinistro.

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A ideia de Moore e O’Neill era dar liberdade para que cada um dos autores convidados deixasse as ideias fluírem para que os horrores mostrados em cada página fossem os mais diversos possíveis. É a técnica funcionou, pois são muitas as propostas e influências de Garth Ennis, Raulo Caceres, Max Brooks, Michale DiPiscale, Kieron Gillen, Ignacio Calero, Christos Gage e Gabriel Andrade. Desvendar as primeiras páginas de Cinema Purgatório: Volume 1 é como aceitar o convite para ir a um daqueles cinemas de rua que, infelizmente, ganharam destinos que passam bem longe de exibir o melhor da Sétima Arte. É cercado por lanterninhas mancos, espectadores mais interessados em se masturbar do que numa boa história e a impossibilidade de deixar aquele local estranho e com cheiro duvidoso que Moore apresenta sua história, de longe a melhor de todas da edição.

A atmosfera é de sonho, mas também pode ser interpretada como se, após à morte, fôssemos colocados em uma sala de exibição caindo aos pedaços para revermos nossas façanhas neste mundo e exorcizarmos nossos pecados. O que não deixa de ser uma metáfora das nossas idas ao cinema durante a vida! Mas mais importante que o narrador que observa as imagens em movimento, são os filmes. As referências à produções B, dos filmes de gângsteres aos épicos, parecem feitas para agradar o leitor cinéfilo. Mas é só no começo. Logo, as histórias tomam um rumo bem diferente dos ensinados nas escolas de roteiro. Moore subverte os clichês para criar o horror e nos deixa curiosos pela próxima atração.

Deserto, Guerras e ambulâncias

Por se tratar de uma primeira etapa do projeto, Cinema Purgatório: Volume 1 tem histórias incompletas. Mesmo que tenhamos apenas o início das trajetórias, já podemos avistar quais serão nossas tramas preferidas quando um segundo volume chegar às nossas mãos. Garth Ennis não poupa a ironia em nenhum diálogo de Código Pru, que narra a nada fácil vida de uma paramédica que precisa lidar com lobisomens e vampiros. Sabe aquele clima de filme de terror dos anos 80? Algo entre Os Caça-Fantasmas e o cinema de Tom Savini, seja lá o que isso signifique.

Kieron Gillen rende-se ao futuro distópico e o tempera com monstros gigantes chamados Daemon em Mods, mas diverte mais pelas referências que pelas piadas. Max Brooks e Michael DiPiscale são os que entregam a história mais fraca, ambientada na Guerra Civil Americana. Brincar com personagens históricos não é nenhuma novidade e, no caso de em Uma União Mais Perfeita, as explicações atrapalham o envolvimento do leitor com os personagens e o traço faz lembrar os livros de história que usávamos no colégio. Depois de uma longa jornada com tripas, sangue e outros horrores menos visuais, é bem decepcionante.

Resenha Cinema Purgatório: Volume 1

Mods, de Kieron Gillen.

Óbvio que uma comparação com a EC Comics é inevitável, já que é um marco nos quadrinhos de terror. Alan Moore até assume o papel de anfitrião, chegando a conversar com o espectador em determinado momento. Mas mesmo que a proposta seja alimentar os pesadelos dos leitores com os mais diversos tipos de traços e monstros, a HQ brinca de montanha-russa e isso pode não agradar à todos. Do humor ácido ao mais profundo dos questionamentos de uma página para a outra, fica difícil mergulhar sem ter que, de vez em quando, tomar ar para seguir em frente.

Cinema Purgatório: Volume 1, mesmo sendo uma jornada incompleta, cumpre o seu papel de divertir, em especial quem guarda um certo apreço pelo cinema. Não bastasse nos fazer lembrar dos monstros da Universal, do cinema noir e do épicos grandiosos em cinemascope, Moore e companhia ainda abrem nossas feridas bem devagarzinho, nos fazendo pensar sobre o que irá definir nosso destino quando a morte chegar. Ou você acha que um super-herói chamado Chama do Remorso é apenas uma brincadeira inocente?

A gente pode até fingir que não se importa, mas quando fecharmos a última página de quadrinhos neste mundo, seremos cobrados por nossas consciências. O seu filme valeu a pena ser exibido?

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