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Black Silence – Ficção científica consistente!

Black Silence aborda questionamentos pertinentes através de um bom verniz sci-fi

Às vezes, nós reclamamos por aqui – porque somos ranzinzas, mas com alguma razão – que é difícil achar uma boa ficção científica em HQ ultimamente. Não é exatamente uma especialidade da casa – a “casa” sendo os quadrinhos brasileiros – então, quando algo de bom dentro desse gênero emerge por aqui, precisa ser valorizado. Black Silence, HQ autoral de Mary Cagnin, não é apenas uma boa obra, mas um caldeirão de referências interessantes, que ganha uma roupagem mais apropriada para os nossos tempos.

Black Silence

Na trama, ambientada num futuro não especificado, a Terra está com os dias contados. Uma equipe de astronautas é convocada para fazer reconhecimento de um planeta que pode ser a única chance de sobrevivência dos seres humanos. Lucas é um exobiólogo renomado que se encontra numa situação complicada e sua carreira está por um triz. O destino o leva até Nee, uma militar com uma reputação e tanto, que o faz uma proposta irrecusável. O que ele não sabe é que esta missão mudará tudo o que ele acreditava um dia ser verdade.

Para o amigo leitor mais calejado nas estradas da ficção científica – eminentemente a cinematográfica, que exerce influência explicitamente maior sobre a autora – a história em si não apresenta grandes arroubos de novidade. Uma motivação ecológica semelhante a de Interestelar, um encontro com um objeto imperscrutável à lá 2001, com um foco narrativo orientado para um terror psicológico interpessoal, conforme ensinado didaticamente por Ridley Scott em seu primeiro Alien. Mas, antes que se torça o nariz, é salutar apontar que, no caso de Black Silence, apesar das claras referências, trata-se de um daqueles casos em que o resultado da soma é mais do que uma mera união das partes.

Porque esse pano de fundo é apenas isso: um pano de fundo. A riqueza desse volume está em seus detalhes. Cagnin claramente deseja apontar sua narrativa em direção a um ecofeminismo sutil, onde temos uma tripulação composta por um número ímpar, com a minerva pesando para o lado das minas – trocadilho ruim absolutamente deliberado. Não obstante, essa tripulação futurista é multiétnica – todos os argumentos a favor disso já foram devidamente ensinados por Star Trek, então procede – mas destaca-se o fato de que ela é comandada por uma mulher negra. “Nee” é a contração carinhosa para Neesrin Ubuntu. Naturalmente, esse tipo de abordagem precisa ser feita com cuidado, para que não se ofenda um público justificadamente sensível, nem se caia em uma panfletagem rasteira.

Black Silence

Caminhando apropriadamente sobre o limite

Nesse aspecto, Cagnin consegue caminhar com segurança e leveza sobre esse limiar delicado. Seus personagens são apresentados de forma orgânica. De certa forma, a curta duração do volume – pouco mais de 100 páginas – lhe serve bem nesse propósito. Black Silence funciona – e é quase – como um conto de ficção científica, onde explicar o background dos eventos e dos protagonistas é muito menos importante do que imergir no contexto da narrativa em si. Dessa forma, quando somos arremessados nos dilemas propostas pela última, somos dragados pela autora para os detalhes que são realmente relevantes – justamente aqueles que constroem o suspense da trama.

E, conforme dissemos, muito desse suspense é oriundo das tensas relações interpessoais exponencialmente pioradas por um contexto de indecisão é completo desconhecimento. Por mais que Nee seja uma protagonista forte, nem todos os seus companheiros o são, e certos aspectos – trabalhados pela autora como uma sutil e válida crítica social – se revelam no meio dessa viagem, com a vida dos tripulantes sendo colocada em risco pela manifestação passivo-agressiva de certos moldes comportamentais que, na HQ, ecoam do passado. No fim, apesar de todo o trabalho na construção de uma ambientação sci-fi, a mensagem de Cagnin é clara, simples e, mais importante, relevante.

Adornando a narrativa bem escrita, está a verdadeira joia da HQ: a arte. Publicada em papel Pólen Bold, uma excelente escolha que valoriza imensamente o preto-e-branco dos desenhos, a autora mostra um imenso domínio não apenas do traço, que se alterna entre algo mais limpo e geometricamente preciso com momentos e, principalmente, expressões de traços mais soltos e livres.

Black Silence

As paisagens pintadas por ela são de encher os olhos, assim como se nota uma interessante representação multiétnica que não patina sobre estereotipia, mas que não se priva de exaltar as diferenças inatas – físicas e culturais – dos membros da tripulação. A autora também opta em muitos momentos por uma diagramação ousada e dinâmica, bastante semelhante à escola de mangá, que permite pontuar os poucos momentos de quebra de ritmo da narrativa sem forçar uma intervenção gráfica mais extrema. Ponto para a visão de HQ de Mary Cagnin.

Black Silence já está rodando faz algum tempo, tendo sido lançada na CCXP 2016. Ganhou alguns prêmios grandes, como o Agostini, mas é importante lembrar que a HQ é fruto de financiamento coletivo e pode ser adquirida na loja da autora. Ou seja, mais uma artista talentosíssima que pôde nos premiar com sua arte graças à pessoas que acreditaram e valorizaram seu trabalho. Que entenderam que essa artista tinha algo a dizer.

E o que ela tem a dizer é muito válido. Hoje e também no futuro.

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