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Bill Finger: A História Secreta do Cavaleiro das Trevas!

Em Bill Finger, temos uma ideia de como a indústria dos quadrinhos se erigiu – e quem foram suas vítimas

Os quadrinhos, desde a sua origem, são uma forma de arte marginal. Exatamente por isso, diversos de seus maiores nomes e expoentes, embora tenham entrado para a história dessa arte, viveram vidas de privação, anonimato e, muitas vezes, de sofrimento. É um fato que em outros tempos a vida como um todo era mais difícil: a inexistência de regras e leis de trabalho fazia com que praticamente todos ficassem à mercê do bom senso de seus empregadores. Com Bill Finger não foi diferente. tendo como base fidedignidade histórica, brilhantismo artístico e, acima de tudo, sensibilidade, o quarteto brasileiro composto por Diego Moreau (Autor), Douglas Freitas (Autor), Italo Silva (Colorista) e Sandro Zambi (Ilustrador) traz à luz a história do verdadeiro criador do Cavaleiro das Trevas, em Bill Finger – A História Secreta do Cavaleiro das Trevas, lançado recentemente pela Skript.

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Resenha da HQ Bill Finger

O volume é, antes de tudo, uma investida em busca de reparação histórica. A principal motivação – e um dos trunfos do volume – é que todos os autores são genuinamente fãs do Batman. Pode parecer um comentário pueril, mas é preciso frisar que os dados e fatos levantados pelo grupo estavam esquecidos há décadas, até mesmo pelo público americano. Por isso, é preciso louvar o esforço para realizar uma pesquisa tão minuciosa para confirmar dados no mínimo elusivos.

E a maior causa dessa dificuldade é também o motor “vilanesco” da trama, e aquele que, durante muito tempo, o grande público acreditava ser o responsável pela criação do Homem-Morcego: Bob Kane. Qualquer um que conheça um pouco da história dos quadrinhos – quem leu Homens do Amanhã, de Gerard Jones, por exemplo – sabe que Kane não era flor que se cheirasse. Sua bússola moral parecia estar no mínimo desregulada. O que o volume Bill Finger faz é nos mostrar que Kane simplesmente não possuía uma.

Duas Caras da vida real

Foi um homem que construiu sua vida em torno de mentiras e autopromoção. No entanto, para construir algo, é preciso haver uma fundação. E a principal vítima usada por Kane nesse processo foi o verdadeiramente talentoso Bill Finger. Como dissemos, histórias de artistas sendo passados para trás e terem suas obras tomadas por editoras e empresas era algo comum numa época em que a legislação era frouxa, e empresários, figuras cartunescamente malignas – vide o infamemente lendário Harry Donenfeld.

Mas Kane, na descrição feita em Bill Finger, ultrapassa todos os limites. Se todos os fatos não tivessem sido minuciosamente verificados pelos autores da HQ, seria cabível imaginar que eles estão extrapolando uma figura real para criar um vilão simplista que nos cause ojeriza, valorizando a figura resiliente de Finger. Mas não. Kane, aparentemente, é um daqueles raros estereótipos de pessoa desprezível e mesquinha, que não mede esforços nem se importa em montar nos ombros de gente realmente talentosa para se promover.

E, como dito, a grande vítima dessa narrativa é o personagem titular. Não que Finger seja um grande herói da trama, mas é fácil se identificar com suas aspirações, porque ele era claramente alguém fã das mesmas coisas que nós somos, e canaliza todo o seu vasto catálogo de referências em suas criações. Não à toa o Batman é um caldeirão de referências do pulp, assim como o Superman. De fato, Finger criou Bruce Wayne como um anti-Superman: enquanto o Azulão era uma reinterpretação dos strongmen e de personagens como Doc Savage, o verdadeiro criador do Cavaleiro das Trevas o pensou como uma releitura de personagens que ele adorava, como o Morcego Negro, o Sombra e Zorro.

Talvez por isso, Bill Finger seja involuntariamente um excelente complemento para a leitura de outro volume recentemente publicado no Brasil, A História de Joe Shuster, que também lança luz sobre a vida e carreira de um dos injustiçados criadores do primeiro e maior dos super-heróis, o Superman. Isso porque, juntas, elas nos oferecem um cenário palpável do que esses criadores passavam com a indústria que era capitaneada e povoada por figuras obscuras como Donenfeld e Kane.

Resenha da HQ Bill Finger

Justiça histórica

No entanto, talvez seja até correto dizer – em que pese que nenhum sofrimento seja aceitável – Finger tenha tido uma vida até mais oprimida e frustrante que a de Shuster. Pois, embora ambos fossem gênios explorados por picaretas, o parceiro de Shuster, Siegel, não era um canalha completo como Kane. Até por isso, como bem relata esta HQ, a trajetória até o reconhecimento de Finger foi muito mais árdua e duradoura que a de Shuster, que ainda conseguiu, em vida, algum reconhecimento. Coisa que Bill Finger, precocemente falecido aos 59 anos em 1974, nunca chegou a ver.

E todo esse pacote densamente permeado por importante e confiáveis informações históricas vem adornado de uma sensível narrativa. Os autores da HQ não fazem a menor questão de esconder o quanto ficaram comovidos enquanto desenterravam a história do autor e, embora em alguns momentos a trama possa parecer piegas, provoca um real aperto no coração saber que tudo isso realmente aconteceu. A arte é precisa, e sustenta a qualidade do texto, com destaque para as criativas grades e uma diagramação dinâmica, que tornam a leitura do volume bastante agradável.

Não é exagero dizer que talvez o único porém do volume seja sua duração – o que, na verdade, é um atestado da qualidade do esforço dos autores em resgatar essa história. Entretanto, mesmo sabendo das limitações, fica um certo sabor agridoce, como quem sabe que existe um universo de detalhes e informações ainda ocultos nas trevas esperando para serem revelados nos momentos pivotais. Tal qual o Morcego de Gotham.

Portanto, que isso sirva de estímulo para mais volumes assim. Bill Finger – A História Secreta do Cavaleiro das Trevas coloca os quadrinhos brasileiros em uma posição digna entre pesquisadores e entusiastas de quadrinhos ao redor do mundo.

Talvez não seja um quadrinho que nós merecemos. Mas que com certeza nós precisamos.

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