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Beasts of Burden – Horror animal!

Beasts of Burden agrada ao misturar beleza gráfica com horror narrativo

Já não deveríamos ter superado animaizinhos com qualidades antropomórficas? Bom, depende. Se for como em Beasts of Burden, ainda está valendo. Lançado por aqui pela Pipoca & Nanquim, a HQ de Evan Dorkin e Jill Thompson traz exatamente aquilo que esperamos quando se trata de histórias com bichinhos fofinhos: Sanguinolência, vísceras e suspense.

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A HQ é episódica, e se passa em uma bucólica cidadezinha chamada Burden Hill. Ali, pessoas estereotípicas do subúrbio vivem suas vidinhas pacatas, sem se preocupar com muita coisa. O que eles não sabem – bom para eles – é que de pacato o lugar não tem nada. É uma verdadeira infestação de desgraças sobrenaturais de todos os tipos. Nossa última linha de defesa contra essas forças das trevas? Os bichinhos de Burden Hill. Segundo eles próprios, é preciso defender os humanos dessas ameaças, pois nós não percebemos por sempre estarmos “muito distraídos”. Em nome dos humanos, corroboro com essa afirmação.

Descrevendo dessa forma, parece um tipo de “Scooby Doo e amigos”. Não é bem por aí. Um dos choques divertidos da HQ é justamente ver esses animais fofinhos envolvidos em situações recorrentemente macabras, mas não de maneira jocosa. Dorkin faz um bom trabalho de construção narrativa, e a antropomorfização dos animais é feita como manda o manual desse subgênero: De maneira orgânica, sem nos lembrar a todo o tempo da ironia ou sátira do que estamos vendo.

Uma comparação interessante que se pode fazer é que Beasts se assemelha a uma espécie de We3 misturado com a Brigada dos Encapotados. De fato, se existe qualquer dúvida sobre as pretensões sobrenaturais da HQ, elas acabam logo no início, quando temos uma participação de ninguém menos que o Hellboy – o que, claro, também nos faz abrir um sorriso quando percebemos que a equipe animal lembra uma versão de quatro patas do B.P.R.D. onde o demônio de Mignola trabalha.

Mas, apesar das comparações, é preciso apontar que Dorkin, muito bem auxiliado pelas pinturas de Thompson, não depende de comparações análogas. Ele imprime em cada um dos protagonistas e coadjuvantes uma personalidade única, que, em conjunto, funcionam muito bem como complementares. Novamente, não é que Beasts apresente qualquer ideia muito chocante ou surpreendente. É mais uma questão de domínio narrativo e uma exploração bacana dos gêneros propostos.

Isso porque as histórias transitam constantemente entre esses gêneros. Embora o suspense e o horror deem o tom mais chocante das histórias, existe ali muito humor e drama, e até algum romance. A dupla de autores acerta ao escolher esse formato episódico, pois torna a leitura mais fluida e divertida, impedindo que – como acontece bastante com histórias de animais antropomórficos – uma hora ou outra percebamos que todo aquele teor de seriedade e intensidade da narrativa está sendo carregado por um bando de bichinhos, o que sempre prejudica bastante a fruição desse tipo de narrativa.

Outro destaque do volume fica por conta do trabalho de Thompson. Como de hábito, seus traços e cores são de encher os olhos. O que chama a atenção são as imagens grotescas pontualmente apresentadas: Beasts não é uma HQ gore, mas também não economiza nas tripas. Essa economia e equilíbrio fazem com que toda vez que um cachorro zumbi apareça coberto de sangue e cheio de cavidades abertas – Isso não é um exemplo aleatório – a imagem se torne ainda mais chocante, o que também colabora para o efeito do envolvimento que mencionamos. Thompson, que é bastante conhecida do público daqui pelo seu trabalho com Sandman, em particular com Delírio dos Perpétuos, mostra boa versatilidade ao conduzir bem a narrativa com uma proposta específica, mas sem deixar de nos surpreender.

A única ressalva talvez em relação ao volume seja algo que já mencionamos também ser uma de suas qualidades: O caráter episódico. Os autores parecem saber que têm em mãos uma ideia de tem muito potencial para se tornar uma bobagem, e trabalham de forma quase autocontida. Isso torna os contos do volume consistentes e autocentrados, mas também torna sua leitura um pouco mais frugal – não é bem o tipo de coisa que irá marcar o leitor por grandes arroubos de criatividade. É extremamente bem feito, e a arte, como dissemos, é deslumbrante, mas recomendados cautela no investimento, pois não é o tipo de HQ que será revisitada muitas vezes ou com muita frequência.

Ademais, particularmente, a única coisa que me incomoda é toda a exposição dos animaizinhos à desgraça. Infelizmente, minha estrutura emocional para histórias com animais é nula.

Se me dão licença, vou ali benzer meus cachorros e já volto.

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