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Aurora nas Sombras – O horror da realidade na fantasia!

Aurora nas Sombras deleita com desenhos fantásticos, numa tênue linha entre o real e a fantasia

Ao terminar a leitura de Aurora nas Sombras, publicada recentemente pela DarkSide Books, algumas referências saltam à vista. É impressionante como a obra de Fabien Vehlmann e Kerascoët (como é conhecido o casal Marie Pommepuy e Sébastien Cosset) traz referências estranhamente familiares. E o que garante seu brilhantismo reside no adjetivo “estranhamente”.

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Resenha HQ Aurora nas Sombras

Em seu livro seminal A Psicanálise dos Contos de Fada, o autor Bruno Bettelheim nos lembra de que os contos de fada nem sempre possuíram sua atual configuração, que é resultado de um processo de desenvolvimento da perspectiva pedagógica deles, associado ao potencial comercial de histórias diluídas conforme estabelecido e disseminado pelas indústrias Disney de entretenimento. 

Em verdade, Bettelheim apresentou as histórias como eram contadas em seus primeiros registros, com a presença da violência quase brutal e dos tabus, como o do incesto. Seguindo as ideias freudianas, afirmava que essa violência é inerente ao ser humano e, por isso, atrai tanto a atenção das crianças. O que, evidentemente, é um atentado à sensibilidade ocidental contemporânea. Entretanto, a questão aqui não é que Aurora nas Sombras seja um conto infantil e/ou direcionado às crianças. Não é. 

É uma história grotesca, que se utiliza de uma imageria que remete à memória infantil para narrar uma fábula brutal sobre o fim da inocência em suas muitas formas. Os traços limpos e caricatos, adornados por uma bela e vívida colorização em tons pastéis cria o impactante contraste com o bizarro da narrativa. É como se os contos originais dos irmãos Grimm fossem desenhados por animadores clássicos da Disney (apenas aprecie o sarcasmo, amigo leitor). Ou, para usar uma referência mais próxima dos leitores de quadrinhos, é algo bastante próximo da técnica usada por David Petersen em seu Mouse Guard, onde bichinhos fofinhos protagonizam cenas de ação viscerais. Em Aurora nas Sombras, troca-se o gênero ação pelo terror.

A trama, episódica, segue com maestria o cânone dos contos de fada conforme descrito por Wladimir Propp, estabelecendo uma estrutura básica onde reduzindo-os os personagens exercem funções específicas, em uma recombinação de agentes e situações que recebem diferentes roupagens em diferentes situações. Todas elas aterradoras e bizarras, mas que não deixam de ser – explicitamente, em alguns casos – alegorias que proporcionam reflexões em meio ao abuna kawaii (o “grotesco fofinho” dos japoneses) nos desenhos.

Resenha HQ Aurora nas Sombras

Espelho meu, existe algo mais assustador do que eu?

Entre essas reflexões está, mais evidentemente, o fim da infância. Na sequência de abertura, um inocente romance entre menina e menino tem cena, em um ambiente colorido e aconchegante de uma típica família-comercial-de-margarina. Quando a doçura do momento já começa a provocar diabetes no leitor, a perversão – ou revelação – de Vehlmann e Pommepuy começa. As paredes começam a derreter, o local transborda de um líquido de aparência viscosa e repulsiva toma conta do lugar e, lutando para se salvar, a menina consegue sair do local.

O que se segue é a exposição de que o tal lugar onde a menina estava era o corpo de uma criança morta, estirada no chão de uma floresta. A menina protagonista, que posteriormente assume o nome de Aurora, foi literalmente eclodida para fora de um corpo infante morto – uma imagem pura e feérica de felicidade foi expulsa pela escuridão da representação agora fria e vazia de uma infância que se encerrou abruptamente. Se, dali em diante, Aurora e seus futuros companheiros sofrem com o horror do que vêem, é salutar ressaltar: de muitas formas, a fantasia de Aurora nas Sombras se encerra na sequência de abertura, quando eles passam a habitar o mundo real. Se o que ali se encontra nos assusta, é porque os autores nos demonstram que nenhuma ficção de horror é tão chocante quanto a realidade do mundo.

De fato, esse grupo de personagens puros, cartunescamente felizes, vai aos poucos se corrompendo e cedendo à escuridão – novamente, da realidade – o que faz com que o leitor seja obrigado a questionar: é a realmente a realidade que os corrompeu? Ou, suspenso o véu da fantasia que os envolvia, sua verdadeira natureza se revelou – uma maldade que sempre foi inerente à eles? É claro que existe aqui uma comparação óbvia com O Senhor das Moscas de William Golding, que não é totalmente inapropriada.  Existe sim um contexto nessa HQ que permite diversas interpretações sócio-políticas. Mas todas elas parecem menores quando colocadas ao lado das questões ontológicas e existenciais acrescidas dessa moldura de terror fantástico.

Aurora nas Sombras é realmente um quadrinho perturbador. Poderia já o ser pela arte bela e grotesca. Mas porque nos lembra de que, a despeito do ensejo fantasioso, contos de fada são analogias e metáforas para a maneira como enxergamos – e vivemos – no mundo. E uma parte de nós vive flertando com a escuridão.

É como no final daquele álbum do Pink Floyd: “Não existe lado escuro da lua. Pra falar a verdade, está tudo escuro…”

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