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Área Cinzenta – O inferno é aqui mesmo!

Ficção científica com toques de outros gêneros em Área Cinzenta

Sabe aquele tipo de Ficção Científica que só tem tecnologia extrapolada para justificar seu rótulo? Que, em essência, é Aventura, Policial ou Terror, mas vendem para nós como FC? Felizmente, Área Cinzenta (Grey Area) não está nesse balaio, embora uma primeira olhada possa sugerir isso. É verdade que existe uma mistura conceitual, mas o peso do bom sci fi não é ofuscado pelo jeitão de seriado à la The Wire ou The Shield, ou vice-versa. De quebra, Dan Abnett, roteirista e criador da série, toca em um tópico muito pertinente para os dias de hoje.

Compre clicando na imagem abaixo!Resenha do primeiro volume da HQ Área Cinzenta

Nascida em 2012, na lendária revista britânica 2000 AD, Área Cinzenta tem como título a expressão informal que designa a Área Global de Exossegregação. Localizada em algum lugar da América do Norte em 2045, a edificação é utilizada para confinar alienígenas que chegam à Terra, enquanto em situação irregular em nosso planeta. O motivo da instalação é que já houve uma situação de Primeiro Contato que deu (muito) errado, obrigando nossas autoridades a tomar essa medida.

A polícia do local é a ETC (Exotransferência Controlada), contendo revoltas de todo tipo e garantindo que os cidadãos extraterrestres aguardem a burocracia comum. Evidente que, em se tratando de material inglês, o maniqueísmo passou longe e a Terra não é um paraíso para os que chegam, seja por turismo ou algo menos agradável. O trabalho da ETC tampouco é fácil, já que a Área Cinzenta é uma bomba que pode explodir a qualquer momento, tanto pela precariedade da instalação e burocracia quanto pelas dificuldades de comunicação e o choque cultural, entre outros problemas.

Facilmente, tudo isso nos lembra de situações da vida real, já que, quase todos os dias, nos deparamos com notícias de pessoas em condição de refugiados. Porém, Dan Abnett sabe que existe espaço para extrapolar, logo, ele aproveita o playground conceitual que tem nas mãos e apresenta todo tipo de espécie alienígena estranha, criando vários impasses para a equipe de protagonistas, Bulliet, Birdy, Feo e Kymn. Este último, aliás, é quem serve como tradutor universal, um efeito colateral da contaminação que seus pais sofreram naquele desastroso Primeiro Contato.

Além das bizarrices mais ou menos engraçadas, como revista de orifícios corporais em seres gigantes, a HQ usa sabiamente um recurso do cinema. A novata Birdy está ali como os olhos e ouvidos do público e aprendemos com ela as regras deste universo ficcional. Feitas as apresentações, Área Cinzenta segue no seu estilo de seriado de TV, algo reforçado pelo próprio formato dos Quadrinhos ingleses. Esse fator, aliás, é o que nos leva a uma crítica à edição nacional da Mythos.

Leitor desavisado sofre

Um dos deslizes é que este volume dos primeiros números não informa como funciona esse tipo de publicação na 2000 AD. Por serem histórias mais curtas dentro de um mix, quando encadernadas, as quebras entre um capítulo e outro podem soar bruscas demais quando a divisão não é muito clara. Detalhes básicos são repetidos várias vezes de um segmento a outro, pensando nas pessoas que pegam a história no meio. Para alguém que não faz a mínima ideia desse fato, parece inabilidade do roteirista quando tudo é lido em sequência.

O segundo ponto é que não existe a indicação de que o material não é inédito em mais de 90% da edição. Área Cinzenta já havia sido publicada na saudosa Juiz Dredd Megazine, cancelada pela mesma editora em 2015, o mesmo problema encontrado no encadernado Choques Futuristas. Como atenuante, vamos dizer que qualquer um que tenha gostado do que leu na outra revista vai querer essa edição. Até porque, o último arco vai um pouquinho mais à frente e a publicação da série vai continuar no Brasil.

Resenha do primeiro volume da HQ Área Cinzenta

Rodízio de artistas onde a estrela é o roteiro

Com quatro desenhistas compondo o volume, a arte oscila de uma história para outra. São estilos bem diferentes entre si, mas nenhum particularmente notável, seja no traço ou na narrativa visual. Na verdade, há até casos em que o trabalho acaba valorizado por uma ótima cor. De qualquer forma, nenhum deles chega a comprometer nossa experiência como leitores e o grande motivo pelo qual muitos serão fisgados é mesmo o roteiro.

Dan Abnett consegue dosar a ação, o humor e o ridículo de algumas situações, a seriedade do trabalho da ETC e a complexidade de se encarar seres cuja constituição e costumes nos parece inconcebíveis. Não apenas isso, se a descrição deu a entender uma colagem divertida de situações fantásticas, é preciso dizer que é bem mais do que isso. As pequenas tramas passam por atritos culturais envolvendo até crença em divindades, por exemplo, preparando o cenário para arcos maiores em que a escala do perigo é apocalíptica.

Enfim, este primeiro encadernado de Área Cinzenta vale o investimento de qualquer admirador de Ficção Científica de verdade. No mínimo, não se parece com nenhuma das reciclagens que nos acostumamos a ver nos Quadrinhos norte-americanos e não remete diretamente a nenhuma outra criação conhecida. Bem, talvez lembre um pouco, e de longe, o filme Distrito 9, mas tem uma personalidade muito particular e instiga o leitor para o próximo volume.

Em uma indústria cultural que parece acreditar cada vez mais que ação não pode vir embalada em conceitos inteligentes, a criação de Abnett é um alento.

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