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Angola Janga – Um recorte inalienável da história negra brasileira!

Angola Janga é um retrato sobre um dos eventos mais importantes – mas, ainda assim, ignorado – da história do país

Angola Janga, de Marcelo D´Salete, lançada recentemente pela Veneta, é uma HQ que deveria ser distribuída – para efeitos imediatos – em todas as escolas do Brasil. Esse recorte semi-ficcional feito pelo autor, de um dos maiores e mais trágicos eventos da história nacional, que retrata quase que perfeitamente um zeitgeist esquecido – e/ou ignorado – da vergonhosa trajetória da escravidão no país: a história do Quilombo de Palmares.

Compre a edição clicando na imagem abaixo!Resenha de Angola Janga

E peço perdão pelo apelo à autoridade e pela visão particular dessa resenha, mas sobre isso, falo com alguma propriedade. Por cerca de 12 anos, eu fui professor dos ensinos fundamental e médio. Minha formação específica é em filosofia, mas boa parte da minha carreira foi como professor de história também. No geral, isso nunca foi uma dificuldade; a base de conteúdo generalista permite que qualquer bom filósofo – que, por definição, precisa de um conhecimento aprofundado de história – se vire bem com a disciplina. Ou assim eu acreditava.

Fato é que, pela minha formação, a história eurocêntrica era um carro que andava sozinho. Transmitia quase todo conteúdo e formulava atividades e exercícios de cabeça. Por questões e estudos particulares, Ibn Sina e Rusho, Confúcio, Takuan e Sidarta me permitiram acesso e conhecimento sobre as culturas do médio e extremo oriente. Com o perdão da falta de modéstia, havia poucos períodos e culturas sobre as quais eu não me sentia confortável para falar sobre. O problema – para mim e para praticamente todos os outros educadores do país – é que história e cultura das civilizações africanas e afro-descendentes me fugiam quase que por completo.

O motivo não poderia ser outro que não o total eurocentrismo que ainda perdura nos centros de estudo brasileiros. Em que pese que, nas últimas duas décadas, a multiplicação de estudos, resgate e afirmação das culturas afro-descendentes esteja se consolidando em ambientes acadêmicos e, principalmente, artísticos, isso ainda está muito – muito – distante de ser uma realidade para a sociedade como um todo. E é aqui que reside a maior relevância de uma obra como Angola Janga – mais do que uma questão de representatividade, é uma questão de justiça.

Ficção mais real que a realidade

A trama acompanha as últimas décadas do conflito da coroa portuguesa e dos senhores de engenho contra as comunidades autóctones que ocuparam a região da Serra da Barriga, na antiga Capitania de Pernambuco, entre o final do século XVI e início do XVIII. Com destaque para a figura do lendário líder Zumbi, D´Salete constrói uma história que buscar mostrar os eventos principalmente pelo ponto de vista dos habitantes dos mocambos.

Ao contrário do que se poderia imaginar, o autor não incorre em nenhum tipo de maniqueísmo, e sua interpretação da trajetória de Palmares não é inocente. Apesar de ser uma história que valoriza a cultura e a resistência negra dos quilombos, estão ali presentes os brancos pobres e nativo-brasileiros que sabemos terem compartilhado espaço com os escravos fugitivos nos mocambos; assim como também estão presentes os conflitos de poder entre a própria liderança dos quilombos, assim como as idiossincráticas figuras de mulatos e negros que caçavam escravos, como os membros do grupo conhecido como Terço dos Henriques.

Fato é que Angola Janga, em que pese ser um épico histórico de drama, não escolhe lados – ao menos, não escolhe além do que o bom-senso e as evidências históricas nos diriam para escolher. É muito menos uma tentativa de “empoderamento” negro, e muito mais uma tentativa de colocar os pingos no is: a ocupação portuguesa do Brasil foi, em muitos sentidos, uma calamidade histórica e uma tentativa sistemática de genocídio na figura da escravidão.

angola janga

Pode-se questionar sim – como esse resenhista questiona – o conceito de dívida histórica. Mas o que não se pode fazer, por ser intelectual e moralmente desprezível – e que, incidentalmente, é uma das propostas de D´Salete em Angola Janga – é negar o nexo causal que existe entre o modelo de ocupação, exploração e escravização eurocêntrica pelo qual os territórios e civilizações ao redor do mundo passaram e o fato de que as populações brancas desses mesmos territórios, ainda hoje, possuem privilégios econômicos, sociais, políticos, culturais, etc.

O que D´Salete faz ao reconstruir as últimas décadas dos mocambos de Palmares é aquilo que deveria ser feito pelos materiais escolares do sistema educacional brasileiro – lançar luz sobre um micro-cosmo extremamente simbólico da história nacional. Uma das razões que sempre me amarguraram em relação ao ensino de história é dificuldade em trata-la como uma ciência – aqui, entendida como algo que se baseia, antes de tudo, em fatos e evidências. Não é preciso ser um grande sábio para saber que, no Brasil, história é, essencialmente, ideologia.

Como professor, novamente, isso sempre foi absolutamente claro para mim. Veja que situação perniciosa: eu trabalhei com alguns dos maiores sistemas particulares do país, como Objetivo e Anglo. O que significa que eles eram voltados para um público alvo mais abastado – incidentalmente, mais enbranquecido. E por favor, amigo leitor mais raivoso e intransigente, isso não está aberto para debate ou “opinião”. Nesses 12 anos de carreira, consigo contar nos dedos de uma mão a porcentagem de alunos negros que tive. O cisma de raças é o cisma de classes e vice-versa, confirmado por tantas estatísticas quanto se pode imaginar, e que eu vivi empiricamente.

O fato de ser um material voltado para um público branco e abastado implicava em material completamente alienado da história e civilizações africanas. Embora algumas correções pontuais tenham sido feitas da minha época de aluno para minha época de professor – como deixar claro e explícito que bandeirantes não eram heróis e a barbárie que era o tráfico negreiro – os materiais escolares ainda passa muito – muito – longe de oferecer o mesmo espaço físico e intelectual para a história das culturas e civilizações africanas.

Não ficaria nem um pouco surpreso se Angola Janga fosse recebido como um trabalho estritamente ficcional por uma grande parte do público leigo, dado o distanciamento desse público de qualquer informação e conhecimento aprofundados sobre as reais características e qualidades dessas civilizações que foram forçadamente trazidas para cá.

Embora a presença da cultura negra – em volumes quantitativos e qualitativos – torne objetivamente inalienável o fato de a cultura brasileira ser vastamente influenciada por ela, nossa própria ignorância em relação ao conteúdo de Angola Janga escancara uma verdade, para muitos, inconveniente: a cultura negra foi, sim, sistematicamente suprimida na nossa sociedade por quase quatro séculos.

Quadrinho de alta qualidade

Sobre o quadrinho enquanto obra de arte, D´Salete também apresenta algo surpreendente. Seu trabalho com nanquim é de uma qualidade absurda. Artista plástico de formação, o autor reconstitui um Brasil colonial com enorme precisão, ser abrir mão de seu estilo particular no momento da apresentação. O sombreamento pesado das matas contrasta com as linhas claras e mais precisas dos engenhos, dando a cada cenário e momento sua própria característica.

angola janga

Os desenhos dos corpos marcados dos escravos e protagonistas negros tem uma espécie de “relevo” dado pelo trabalho em nanquim que faz com que as cicatrizes pareçam até mais vívidas que as próprias expressões dos personagens – o que poderia ser uma deficiência na delimitação das expressões ou um foco específico naquilo que realmente expressa a realidade da vida escrava do período. Eu, particularmente, prefiro interpretar pela segunda hipótese.

A diagramação dos quadros é relativamente conservadora, e imprime um ritmo consideravelmente acelerado para a narrativa. Existe muitos quadros “silenciosos”, que valorizam a ambientação colonial, ou então a intensa dinâmica dos combates. O que é bastante apropriado pois, apesar de todo o cuidado de D´Salete e de se estender por mais de 420 páginas, Angola Janga não abrange todo o potencial que esse evento oferece.

Talvez por isso seu subtítulo seja “Uma História de Palmares” – por magnífica que seja, a HQ oferece apenas um vislumbre da realidade e da história que o lendário mocambo oferece. Sendo um épico, não existe muito espaço para a reflexão dos personagens – é uma trama quasi-shakespeareana, onde aquilo que os personagens representam, em sua sobrevivência, tramas políticas e mesmo aspectos místicos e míticos são mais importantes do que os personagens em si.

A única crítica que se pode fazer ao volume é o preço impeditivo. Embora o tratamento da Veneta dê ao volume um aspecto de luxo – capa dura, papel da melhor qualidade, e um glossário do autor que conta com imagens e contextualização de termos históricos – os quase 90 reais pedidos tornam a HQ praticamente inacessível para uma boa parte do público para quem ela seria extremamente importante e relevante; em que pese que ela seja para todos. Sabemos das dificuldades de se produzir quadrinhos no Brasil, e dos preços que isso implica, mas cabe aqui um pedido para que a editora e o autor se esforcem, de alguma forma, para fazer essa grande obra ir além do restrito público consumidor de graphic novels.

Porque Angola Janga, assim como a história africana e afro-descendente, não podem ser apenas uma nota de rodapé nos livros de história.

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