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A Gangue da Margem Esquerda – O absurdo irresistível!

Narrativa de assalto com outra roupagem em A Gangue da Margem Esquerda

Se você já conhece o trabalho do quadrinista norueguês Jason, de Eu Matei Adolf Hitler, já sabe mais ou menos o que esperar em A Gangue da Margem Esquerda. Pelo menos na parte visual, é claro. Quem nunca ouviu falar do cara, pense em um ambiente de animais antropomorfizados, com quatro artistas de quadrinhos dando duro para viver de sua arte na belle époque parisiense. Dinheiro acabando e um deles propõe realizar um assalto e acabar com o problema. Até aí é simples, mas imagine que esses quatro personagens são Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound e James Joyce.

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A Gangue da Margem Esquerda - Mino

Parece até um tanto inútil procurar algum tipo de mensagem ou significado que o autor poderia aspirar, não importando de qual espécie supostamente seria, pois é algo muito surreal ver os icônicos escritores transformados em quadrinistas e representados com os mesmos tipos de animais que Jason sempre utiliza em suas histórias. Se ele tinha alguma intenção no sentido de construir qualquer discurso, ela se perdeu nesta configuração, o que não é um problema de verdade, já que a HQ se sustenta bem neste apelo nonsense.

Não apenas isso, a expressividade intencionalmente limitada destes personagens os colocam em uma esfera bem particular de comédia, mesmo que o texto não tenha momentos deliberadamente engraçados. Existe uma ponte entre esta representação e a icônica figura de Buster Keaton, residindo aí um possível ponto de partida para desdobrar a discussão, mas são detalhes muito mais próximos da especulação e interessam pouco aqui.

O álbum da Mino, com suas 48 páginas, evidentemente, tem mais elementos a oferecer do que o que já foi exposto. Conforme já foi dado a entender, tirando essa embalagem, A Gangue da Margem Esquerda não foi escrito como comédia. São problemas comuns da vida real que levam essa história para a típica narrativa de assalto, com direito, inclusive, ao mesmo evento revisto várias vezes por personagens diferentes para explicar o conjunto inteiro.

Narrativa que se repete, mas funciona

Com a referência do outro álbum citado no primeiro parágrafo, não há surpresas. A repetição dos moldes de personagens traz mais uma incomum relação com o cinema, quando colocamos essa e outras obras do mesmo autor lado a lado. É como se fossem filmes do mesmo diretor e com o mesmo elenco, variando os temas.

A Gangue da Margem Esquerda - Mino

O que também reforça essa sensação é a estrutura absolutamente tradicional nos grids de diagramação das páginas, sempre religiosamente simétricos e sem variação ao longo do álbum. A narrativa de A Gangue da Margem Esquerda segue rígida com nove quadros por página. Parece chato, mas não é.

Mesmo os atos mais prosaicos acabam gerando sequências interessantes pela variação do movimento, mesmo que sem explorar muito a mudança de ângulos. É interessante que essas limitações do estilo escolhido por Jason, com bonecos de cores chapadas e sem muita profundidade, não o impeçam de criar uma HQ com bom ritmo e agradável de ler. Talvez por conta da consciência da duração, que não haveria como ir muito além sem correr riscos de entediar leitores.

Como estudo de caso, A Gangue da Margem Esquerda talvez tenha mais valor do que se fôssemos simplesmente julgar seus méritos textuais. A própria curiosidade em torno das escolhas de seu artista/roteirista também pode ser maior que o fator entretenimento, apesar da cadência narrativa bem elaborada. Ainda assim, é inegável que o estranhamento de sua proposta não é algo esquecível, o que pode ser levado como qualidade facilmente.

Não vai mudar a vida de ninguém, é um fato, mas se destaca e está bem longe de um lugar comum. Conforme já apontado, também tem um ritmo bacana. Claro que muitas obras vão bem além, mas aqui já temos tudo que poderíamos querer de uma HQ. No mínimo.

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