Home > Quadrinhos > A Cor Que Caiu do Espaço – Bom Lovecraft!

A Cor Que Caiu do Espaço – Bom Lovecraft!

Breve volume da Skript respeita a obra do clássico autor

Lovecraft está de volta à moda, e proliferam bons trabalhos baseados nos seus conceitos ou diretamente nas suas obras. A editora Skript não faz a menor questão de esconder que ama os trabalhos do obscuro autor estadunidense. Ainda bem. Porque assim temos a oportunidade de nos divertirmos com obras como A Cor Que Caiu do Espaço, HQ baseada no conto homônimo. O trabalho, encabeçado pelos artistas Romeu Martins, Val Oliveira e Sandro Zambi, assume o desafio de adaptar esse trabalho bastante particular na bibliografia de Lovecraft.

Desafio, pois, como sabemos, muito do senso estético de horror de Lovecraft era construído através da insinuação, na perversão dos sentidos através da leitura que pudesse manifestar uma ideia – uma voltada ao horror. O desconhecido, o inefável, o indescritível. Essas são as armas de escolha de Lovecraft para desafiar o leitor.

É uma ferramenta que sempre foi semioticamente interessante, pois envolve uma subversão do ato de leitura: Quando lemos construímos imagens e evocamos sensações para manifestar em nossas mentes o que está escrito ali. O movimento de Lovecraft é evocar as sensações e arremessa-las no vazio de uma imagem: Quando o medo não possui face, corpo ou sequer é compreendido como algo inteligível, esse sentimento se torna ainda mais pungente e incômodo.

No caso de A Cor Que Caiu do Espaço, o elemento criativo mais interessante – e que torna esse um conto tão popular do autor – é utilizar uma manifestação física que é intrínseca e exclusivamente sensorial para veicular o sentimento de horror: Uma cor. É um exercício interessante, que fazemos desde criança e que continua válido depois de adultos: Como se descreve uma cor?

Era algo indescritível

Há quem apele para o lúdico ou para o teleológico. É provável que alguém mais esclarecido apele para a física ou a neurociência. Entre fótons e neurotransmissores, uma coisa é certa: É virtualmente impossível descrever uma sensação, como aquele provocada por um cor. Lovecraft, em seu conto, cria esse interessante caminho narrativo, e esse elemento semanticamente inefável passa a servir como veículo e associação com as verdadeiras intenções do autor: As limitações da cognição e compreensão humanas e o horror que nossa frágil posição diante dos postulados cósmicos nos provoca – o literal pessimismo cósmico.

É por isso que adaptar uma obra como essa é essencialmente um desafio, pois envolve transpor visualmente mental – ou seja, utilizar um signo visual e racionalmente mais cognoscível – para elaborar a narrativa de horror que envolve sutileza e ilusionismo. Incutir na cor sua visibilidade a tira de seu campo descritivo inefável e abre caminho para uma conexão e compreensão direta do que ela é e o que ela faz, o que, necessariamente, diminui vastamente seu potencial de horror.

Os autores da HQ parecem conscientes disso, e preferem não buscar alternativas exageradas ou demasiadamente ousadas. Quando a cor – representada explicitamente, embora não necessariamente mostrada – surge na trama, o único efeito estético de destaque é usar de fato a cor, quando o resto da HQ toda é em preto e branco. Uma escolha acertada e interessante, fazendo com que, nos momentos em que “a cor” e suas consequências surjam na trama, exista uma certa expectativa por ação ou por um momento mais chamativo. Se não provoca o mesmo sentimento de horror do conto, ao menos prende o leitor visualmente – o que se espera de um trabalho em HQ.

O volume também não se estende mais do que deve e, em termos de trama, é bastante fiel ao conto original, o que é algo que podemos considerar bom. O imenso volume de tranqueiras genéricas baseadas na obra do autor não é pouco, produzidos a partir da capitalização, ou pior, “reinterpretação” dos textos – palavra usada por autores menores quando não entendem o que Lovecraft está fazendo e só querem pegar carona na moda.

A Cor Que Caiu do Espaço, mais um oferecimento da editora que mais ama Lovecraft no Brasil, a Skript, é uma abordagem divertida e interessante do conto do mestre do horror. Curtinha, vale o tempo e atenção do leitor.

E, principalmente, a cor que vem do seu bolso.

Já leu essas?
Rodolfo Zalla - THTRU
Rodolfo Zalla e o álbum THTRU na pauta do Formiga na Tela!
Last and First Men - Olaf Stapledon
Last and First Men, a FC que influenciou gerações, no Formiga na Tela!
Wally Wood, vida e obra, no Formiga na Tela!
FormigaCast - Já deu
Temas explorados demais na pauta do FormigaCast!