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Melhores histórias do Superman fora da continuidade!

Nós escolhemos as melhores histórias do Superman – fora da continuidade, para seu maior conforto

Muita gente acha que ele está fora de moda e que seus valores não servem mais para esse mundo. Ainda assim, existem alguns corajosos – como nós aqui do Formiga – sem medo no coração de declarar seu amor pelo velho Azulão. Porque nós sabemos muito bem que o Último Filho de Krypton parece que só melhora com o tempo – quanto mais avançamos nos seus gloriosos 80 anos de história, melhores suas histórias ficam. Alimentado pela luz da imaginação de seus roteiristas, o Homem de Aço está mais vigoroso do que nunca, e fica fácil escolher as melhores histórias do Superman!

Tomemos esse artigo, por exemplo. O que começou como uma lista de boas histórias do Superman acabou como uma prova de que nunca houve época melhor para acompanhar as aventuras do super-herói quintessencial como hoje: salvo um par de exceções, o que podemos perceber aí embaixo é que os últimos 25 anos concentram algumas das melhores histórias do eterno escoteiro. Por isso, fazemos questão de compartilhá-la com vocês. Sabemos que ele é o herói mais conhecido do mundo, mas vai que o amigo leitor deixou passar algumas dessas, não é mesmo? Assim como nosso herói em questão, uma listinha nunca faz mal para ninguém.

O critério dela é bastante simples: escolhemos apenas histórias não-canônicas, ou, se preferirem, fora da continuidade. O motivo para isso também é simples: você poder curtir o bom e velho Superman em ação sem se preocupar em entender as rocambolescas tramas prévias – nada das pavorosas “mega-sagas” ou “crises”, nem nada disso. A ordem é irrelevante – foram escolhidas apenas porque todas elas oferecem um precioso acréscimo ou reflexão ao mito do Homem do Amanhã. Apenas a capa vermelha e a cueca por cima das calças defendendo a verdade e a justiça – mas mostradas de uma forma que talvez sejam bastante necessárias hoje em dia. E todas são invariavelmente divertidas.

Sem mais delongas, nossa lista das melhores histórias não-canônicas do Superman! Para baixo e avante!

Superman: O Filme (1978)

Dirigido por Richard Donner

Ei, onde nós dissemos “dos quadrinhos” aí em cima? São as melhores histórias do Super fora da continuidade, e essa com certeza é uma delas. De 1938 para cá, o Superman se tornou mais do que um personagem transmídia, mas objetivamente um estudo de caso para o conceito, já que parte do seu mito foi imediatamente estabelecido após sua criação em outras mídias que não os quadrinhos. Caso, por exemplo, de um dos elementos mais conhecidos do personagem: a kryptonita, mineral que apareceu pela primeira vez em The Adventures of Superman, programa de rádio do personagem, em 1943.

Dessa forma, a visão cinematográfica de Richard Donner para nosso herói merece seu lugar nessa lista. O filme prometia com seu slogan: “Você vai acreditar que o homem pode voar”; e que diabos, ele estava certo. O filme foi um sucesso por inúmeros motivos: primeiro, foi um sucesso comercial. Segundo, porque ninguém acreditava que ele seria um sucesso comercial: em 1978, o personagem andava bastante desgastado nos quadrinhos, dando seus últimos suspiros na Era de Prata de forma meio agonizante. O sucesso da película ajudou a manter o interesse no herói vivo, antes que Alan Moore desse a ele epitáfio definitivo com O Que Aconteceu com o Homem do Amanhã, de 86  – que só não figura nessa lista porque, na prática, é canônica.

Fora isso, o filme tem tudo o que você pode esperar: a origem – espetacularmente realizada ao ponto de influenciar quase toda versão futura dos quadrinhos – ação, aventura, romance e versões de Lois e Luthor que, assim como o Super, reúnem as melhores características de suas muitas representações dos quadrinhos. A trilha sonora bombástica de John Williams, que se tornou um sinônimo musical para atos heróicos no geral. E, claro, o saudoso Christopher Reeve e todo seu carisma ensinando ao mundo como um herói deve se portar.

Se você tem um amigo que viveu a vida toda em coma – como você fez amizade com essa pessoa não é problema nosso – e quer apresentar o Super de forma resumida para ele, Superman: O Filme é, de longe, a melhor maneira!

(Breve adendo: ele não girou a Terra ao contrário. Isso seria estúpido e ele sabia disso. Ele está claramente voltando no tempo ultrapassando a velocidade da luz. Eu preciso explicar tudo, caramba?)

Ele está claramente voltando no tempo.

Superman: A Série Animada 

A Herança (Episódios 53-54)

Mais uma menção fora dos quadrinhos. Nós já babamos ovo – merecidamente, diga-se de passagem – para os trabalhos de Bruce Timm com os heróis da DC aqui no Formiga, e a Série Animada do Azulão não ficaria de fora; embora nossa escolha seja, no geral, algo que contraditória. Contraditória porque, no geral, o tom da animação era bastante leve e divertido, mostrando uma mistura peculiar de alguns elementos interessantes do mito do personagem.

O traço retrô do desenho aproximava o personagem das suas origens em 38; assim como a escolha por manter os seus poderes bastante limitados. De fato, essa última característica dava para a animação, no geral, uma fisicalidade que era rara de se ver em outras mídias, distanciando-o principalmente da sua versão “super-herói-deus” da Era de Prata, quando ele arrastava planetas como quem levava o cachorro para passear.

O Superman da animação realmente apanhava, e não raramente precisava de ajuda para lidar com os desafios e inimigos que surgiam, criando uma inocente, mas sensível aura de expectativa para saber se o herói realmente iria vencer no fim do dia. Mas, para que essa expectativa pudesse se sustentar, às vezes era preciso fazê-lo sofrer de verdade. E o episódio duplo A Herança realmente mostra um Superman indefeso e prostrado, no fim do dia, sob o poder de seu maior inimigo – Darkseid.

A narrativa tem inúmeras camadas, e apresenta algumas das maiores fraquezas do personagem: seu medo do fracasso; sua consciência da incapacidade de ajudar e salvar a todos como gostaria; e, principalmente, seu medo de se tornar uma ameaça para as pessoas maior do que as que ele mesmo enfrenta. A Herança termina com um embate entre herói e vilão que não se pode dizer que ofereceu uma vitória para qualquer lado.

Expôr todas essas características em escala global e fragilizar não o Superman em si, mas o que ele representa, faz com que esse episódio seja aquele que nos faz duvidar se ele realmente pode vencer no fim do dia; e fazer o próprio personagem entender que, não importa o quão poderoso ele seja, existem forças maiores que ele no universo. Entre elas, a própria fé cega em poderes absolutos. Oferecer uma crítica à religião e a regimes totalitários fascistas em uma animação infanto-juvenil não é para qualquer um.

Ainda bem que Paul Dini e Bruce Timm sempre estiveram à altura.

It’s a Bird (2004) (Sem tradução em português)

Steven T. Seagle: roteiro / Teddy Kristiansen: arte

É um fato que o Superman se tornou muito mais que um personagem no decorrer de sua trajetória – é um símbolo, um signo, que pode ser interpretado de muitas formas, ou oferecer reflexões diversas. Nesta sensível HQ semi-autobiográfica de 2004, Superman não é o protagonista, mas o escopo pelo qual a narrativa se desenvolve.

O roteirista Steven Seagle trabalhou brevemente com o kryptoniano na vida real, entre 2003 e 2004, e aparentemente sua experiência com o personagem lhe serviu como fundamento para algumas reflexões acerca da condição humana. Essa reflexão é feita, principalmente, por contraste: Seagle se utiliza da invulnerabilidade desse ser invencível para ponderar sobre a presença da doença de Huntington na sua própria família – e que pode acometê-lo um dia. Superman, aqui, é um imenso holofote que destaca a extensão da nossa fragilidade, tornando-o alguém objetivamente difícil de se compreender e se relacionar em uma primeira instância.

Até por isso, o autor também trabalha alguns traços que nos parecem fascistas do Superman – ele se apresenta como um protetor do mundo e das pessoas, mas sua própria presença induz um certo tipo de comportamento moral absoluto que muitas vezes vai contra a vontade das pessoas. As meditações de Seagle, nesse sentido, transitam na aproximação geral de características negativas do personagem, como poder e justiça absolutos, alienação e escapismo.

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Por outro lado, ao transcender as características que o tornam tão alienígenas, Seagle começa uma aproximação daquilo que o torna tão cativante. A HQ traça um paralelo entre a natureza alienígena do personagem – suas origens e impacto no mundo – e a maneira como a doença de sua família a aliena para a realidade da vida e do mundo: assim como sua doença, reconhecer a presença do Superman no mundo significa reconhecer que muitas coisas estão além do nosso controle. Como um doença incurável.

Dessa forma, existe uma transformação da percepção de Seagle sobre o personagem nesta HQ: antes alienígena e opressor, Superman torna-se uma imagem de conforto, de alguém que foi além das suas próprias dificuldades – perdeu seu mundo e é destacadamente único no que o acolheu – para fazer as escolhas certas, e persistir sendo uma força positiva em sua vida e em seu mundo. Ou ao menos tentando, pois, como reflete Seagle, ser “Super” é tentar fazer o melhor que podemos.

Superman vs. Muhammad Ali (1978)

Dennis O’Neil – roteiro / Neil Adams – arte

Vocês não estão falando sério de colocar essa história nessa lista, né?” Ah, mas estamos sim, amigo leitor. Porque, independente do contexto geral, é uma grande e divertidíssima história. Na verdade, é justamente por causa de uma premissa tão frouxa que o fato de esta ser uma grande HQ tem que ser ainda mais celebrada.

A narrativa, de fato, não poderia ser mais boba: um alienígena resolve pipocar na Terra e desafiar seu maior lutador – porque, pelo jeito, ele não tinha nada melhor para fazer. E, por um série de razões que são inacreditavelmente coerentes, os terráqueos decidem colocar seus maiores lutadores, Muhammad Ali e Superman, para sair no braço e decidir que é o melhor. A luta acontece num planeta com um sol vermelho – por motivos óbvios – e Ali leva a melhor, numa luta assistida por celebridades da Terra no período. Os doces anos 70. Uma época mais inocente…

Mas é claro que tal história não poderia ter sido escrita por qualquer um. A dupla responsável por pegar esse arremedo de ideia e transformar em algo incrível não poderia ser menos do que O’Neil e Adams, que, ao escrever Lanterna Verde e Arqueiro Verde, revolucionaram as HQ’s de super-herói, trazendo para elas uma maturidade e consciência quase inauditas.

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A composição da HQ tem algumas curiosidades – Ali havia perdido brevemente seu título mundial justamente na época em que ela foi lançada para Leon Spinks. Ele recuperaria alguns meses mais tarde, mas já demonstrava não estar mais em seu auge. Isso também ocorreu porque a HQ demorou para sair – era para ter sido lançada em 77, mas acabou bastante atrasada. De fato, a ideia da história é de O’Neil, mas quem de fato adaptou para as páginas foi Adams.

Ali faleceu em 2016, ainda celebrado como o maior boxeador de todos os tempos. E ainda é  um pecado sua vitória contra o Superman não constar oficialmente em seu cartel…

Uma última curiosidade: o Formiga Elétrica vem, por meio desta, garantir a premiação de 1 (um) pirulito para o amigo leitor que achar Pelé na plateia!

Superman: As Quatros Estações (1998)

Jeph Loeb – roteiro / Tim Sale – arte

Criada na esteira do seu grande sucesso Batman: O Longo Dia das Bruxas, a dupla Loeb/Sale atinge seu auge com essa magnífica trajetória de amadurecimento e auto-conhecimento do Homem de Aço. Loeb deixa de lado sua típica verborragia – um dos motivos do sucesso deste texto – em detrimento de uma narrativa mais contemplativa, que se foca nos momentos fundamentais que permitiram Clark Kent se tornar Superman, não apenas em corpo, mas também em mente e espírito.

A história traz muitas semelhanças com a reformulação do herói realizada por John Byrne pós-Crise nas Infinitas Terras, mas é absolutamente independente em si. Brilhantemente utilizando as estações do ano como metáfora para esse processo de amadurecimento, vemos uma relação mais aproximada e aprofundada de Clark e Superman com os coadjuvantes de sua vida; suas vitórias e derrotas nas mãos de seus inimigos, mas também das circunstâncias. As Quatro Estações é uma HQ ideal para tentar deixar de lado o ícone inatingível do Superman, mas ao mesmo tempo celebrá-lo, nos fazendo compreender – com a devida sensibilidade – que, para existir um símbolo, é preciso existir uma pessoa para envergá-lo.

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Colabora imensamente com o processo a magnífica arte de Tim Sale, que consegue transmitir uma atmosfera perene de contemplação, transitando com perfeição entre os ambientes bucólicos de Smallville e a arquitetura retrô sci-fi de Metrópolis. O artista sabe incubar uma certa expectativa em seu traço – um desejo crescente e duvidoso oriundo da maneira precisa como ele retrata a vida no interior do Kansas, e que parece ser absolutamente incompatível com a representação da cidade grande. Mas quando o momento finalmente chega e os desenhos de Sale se alocam perfeitamente, somos surpreendidos, e percebemos que aquela aura icônica sempre esteve ali.

As Quatro Estações é um verdadeiro estudo de caso do Superman. Para ler e reler sem nunca perder seu brilho.

Superman: Para o Homem que tem Tudo (Superman Annual #11) (1985) 

Alan Moore – roteiro / Dave Gibbons – arte

Ok, sabemos que estamos dando um migué aqui, porque muita gente conta essa como canônica. Mas edições anuais normalmente contavam com histórias independentes, que se fechavam em si mesmas – como é o caso aqui – então estamos colocando Para o Homem que Tem Tudo na lista.

Até porque, estamos falando do time que escreveu Watchmen realizando seu tributo para o Homem de Aço – e como era de se esperar, não apenas estiveram à altura, como na prática criaram um clássico absoluto do personagem. Na trama, Batman, Robin (Jason Todd) e Mulher-Maravilha vão visitar o Azulão. Ali, encontram o Superman surpreendido pelo alienígena Mongul, um de seus grandes inimigos, que lançou sobre ele Clemência Negra, um organismo que se alimenta do estado alucinógeno de suas vítimas. Enquanto lutam para libertar o herói, Super se vê preso em seu sonho.

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E seu sonho é exatamente isso: um sonho. Superman se vê em uma Krypton que nunca desapareceu, onde cresceu e desenvolveu uma família e uma vida. A grande crueldade de Mongul, como ele mesmo diz, foi “criar uma prisão da qual você não poderia escapar sem abrir mão do seu maior desejo”. Que Moore é um sujeito cruel com super-heróis é um fato conhecido, mas isso foi golpe baixo.

O escritor expõe, de forma visceral, um traço latente e frequentemente ignorado do personagem – independente de com quem ou com o que se compare, Superman é definido por uma tragédia com a qual ele mesmo não consegue lidar, a despeito de todo o seu poder. Superman está inexoravelmente sozinho no universo, privado da vida que poderia ter tido por uma tragédia sem vilões, e com seu mundo adotivo para carregar nas costas. Ninguém perguntou para Kal-El se ele desejava ter a vida que tem, e, em seu âmago, Clemência Negra nos revela a verdade – ninguém quer o peso de ser um deus entre os homens. Isso apenas destaca o tamanho da abnegação de Kal-El ao escolher proteger o mundo sem interferir nas nossas escolhas. Seu verdadeiro heroísmo vem das suas escolhas diante das circunstâncias, e não de seu poderes.

Ele é o homem que tem tudo. Porque não tem nada.

O Reino do Amanhã (1996) 

Mark Waid – roteiro / Alex Ross – arte

Super-heróis e super-vilões são uma metáfora, uma extrapolação sobre a relação entre a condição humana e a posse e aplicabilidade do poder. No geral, se estabelece um princípio básico: quanto maior o poder, mais ele deve ser orientado por uma ética sólida e sensibilidade condizente. Pois quando isso não acontece, o poder, obviamente, irá gerar grande destruição. Isso é razoável e aceitável. Entretanto, a ética não é uma ciência exata. No pior dos casos, há a perversa argumentação de que possuir um poder e não utilizá-lo ao seu máximo para erradicar “o mal”, independente das consequências, se qualifica como negligência e omissão. É neste nebuloso terreno em que O Reino do Amanhã se encontra.

Obviamente, não é uma história especificamente sobre o Superman, mas quem ele é e o que ele significa para o mundo ocupa uma posição central na trama – principalmente em vista do fato de que, na prática, todos os super-heróis são, de alguma forma, decorrentes da sua proposta inicial. O que é curioso porque, argutamente, Waid não exime o personagem de ser, por um determinado ponto de vista, responsável pela tragédia que dá início à trama. A arte hiperrealista de Ross só torna tudo mais contundente e perturbadoramente real em um escala épica.

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Nessa trama, os super-heróis da Era de Ouro e de Prata envelheceram. Sua ética se tornou obsoleta em um mundo cada vez mais avesso à reflexão e cada vez mais sedento por ação. Uma nova onda de super-heróis – violentos e não dispostos a seguir qualquer tipo de ética que não seja “destruir o mal a qualquer custo” – toma o lugar da velha guarda. Waid argutamente trabalha as consequências óbvias desse tipo de postura: em um determinado momento, um herói da nova geração, Magog perde o controle sobre seu poder, e uma catástrofe devasta e torna inabitável todo o meio-oeste dos EUA.

O que se segue é uma reflexão de Waid sobre o que significa ser um super-herói; sobre o oportunismo político que se prolifera em ambientes de desespero; sobre como poder sem ser orientado por um sensibilidade ética pode ser extremamente perigoso mesmo com as melhores das intenções. O Reino do Amanhã observa o Superman como alguém que escolheu se tornar obsoleto, porque se sentiu incapaz, a despeito de todo o seu poder, de simbolizar o que esse novo mundo – que ele ajudou a criar – havia se tornado. Waid demonstra que ser o Superman – ser aquilo que a humanidade possui de melhor – exige ser ressignificado de tempos em tempos, sob o risco de cedermos ao desespero e a megalomania que se segue.

Nós precisamos do Superman. Mas cada época precisa do seu.

Superman: Identidade Secreta (2004)

Kurt Busiek – roteiro / Stuart Immonen – arte

Normalmente, as grandes reflexões que utilizam o Superman como fundamento vão no sentido de interpretá-lo como uma metáfora da relação dialética do ser humano com seu mundo exterior; um símbolo do que nós somos em relação ao que queremos e/ou poderíamos ser. Uma persona, que é usada no peito ao invés do rosto. Daí, muitas vezes, a necessidade que pensadores menores têm de relacioná-lo a figuras messiânicas – um grande equívoco, por sinal. Equívoco pois o personagem não comporta essa comparação – ele é muito mais uma tentativa de fazer o que é humano ascender do que o que é divino descender. Para o alto e avante, lembram-se?

Em 2004, o gênio chamado Kurt Busiek ofereceu sua interpretação para essa condição metafórica dialética do personagem. Ele desenvolve uma trama metalinguística onde um sujeito chamado Clark Kent vive indignado pelas constantes brincadeiras em relação ao seu nome e o personagem homônimo dos quadrinhos. Entretanto, esse Clark um dia descobre ter poderes análogos ao seu xará das HQ’s, sem qualquer tipo de aviso ou explicação, e precisa tomar uma decisão do que fazer em relação a essas habilidades. Em uma trama que se retroalimenta através do simbolismo do herói, o Superman “real” passa a se orientar cada vez mais pelo Superman “fictício”, e Busiek usa essa estrutura dramática única para destacar o fato de que Superman é muito mais uma ideia do que um personagem.

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Essa proposta é brilhantemente exaltada quando, próximo do fim da HQ, algumas surpresas se revelam, e aquele Clark Kent, mesmo com seus poderes, passa a ser apenas mais um na multidão. Entretanto, o símbolo Superman continua significando algo relevante, pois Clark – em uma metáfora que se aplica a qualquer outra pessoa – era apenas mais um, sim, mas um que praticava os ideais benignos do personagem para o mundo. E seus atos, mais do que seus poderes, pavimentam o caminho para um futuro melhor. Mais claro do que isso, impossível.

Grandes Astros: Superman (2005-2008)

Grant Morrison – roteiro / Frank Quitely – arte

Se Superman: O Filme é a história do Homem de Aço que você usa para apresentar o personagem para o seu amigo comatoso, Grandes Astros é a HQ que você usa para fazê-lo entender o que ele significa. Aqui, o autor britânico Morrison mirou na kryptonita, mas acertou o sol amarelo: o que era uma mera tentativa de resgatar as principais características de um saudoso Superman da Era de Prata se tornou uma magnum opus que sintetiza tudo o que o personagem tem de melhor; o que é, para todos os efeitos, uma tarefa hercúlea.

No decorrer de suas 12 edições, Morrison coloca o escoteiro contra a parede: ele está em seus últimos dias de vida. E como qualquer moribundo, isso coloca as coisas em perspectiva. O tom geral da narrativa, então, se torna quase becketiano – nós vemos, através dos olhos do próprio Superman, o quão magnífico e insubstituível ele é para o mundo; o quão maior-do-que-a-vida sua égide em cores primárias significa. Sim, na superfície, Grandes Astros parece apenas um pout pourri do absurdo que cerca a existência desse Super que quer ser Homem.

A nota de exaltação de Grandes Astros vai justamente nesse sentido – Morrison consegue tornar relacionável, compreensível e identificável uma das versões mais extremas do personagem, que é justamente o “super-herói-deus” que mencionamos anteriormente. E ele consegue fazer isso porque entende que suas aparentes idiossincrasias são, em grande parte, um reflexo da aceleração e fragmentação do mundo contemporâneo, e nossa necessidade de reencontrarmos muitas coisas que ficaram pelo caminho quando aceleramos e nos fragmentamos.

O símbolo perfeito disso está nesse quadro abaixo – entre os muitos momentos magistrais, está esta que pode ser, sem nenhum exagero, considerada uma das mais belas páginas de HQ’s de super-heróis já realizadas:

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Nesta cena, uma menina depressiva tenta falar desesperadamente com seu psicólgo, que se atrasou para a consulta pois ficou preso no meio de uma confusão em Metrópolis. Mesmo no meio de uma dezena de ações, Superman percebe as intenções da menina. Mesmo sabendo que está em seus últimos dias de vida e que seu tempo é escasso e precioso. E consegue salvá-la da única maneira que era possível.

Ser Super não significa apenas parar erupções vulcânicas ou seres do espaço. Mas sim, poder fazer tudo isso, sem perder a sensibilidade de entender que todas as vidas tem seu valor, e que nós devemos lutar para preservá-las. De todas as histórias do Superman aqui listadas, de todas as histórias do Superman já escritas, essa consegue resumir tudo o que ele representa: em meio ao caos, encontrar uma bolha, um momento perdido no tempo, onde um simples gesto de bondade pôde fazer o que nem todos os super-poderes conseguiriam. Onde a compaixão prevaleceu sobre o desespero.

Isso é ser Super.

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Este é um trabalho para… bem, vocês!

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