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ALAN MOORE anuncia: “É hora de uma reavaliação de LOVECRAFT!”

Alan Moore

Os fãs de Alan Moore estão ansiosos por mais uma incursão do barbudo ao universo de H. P. Lovecraft. Providence é a nova série inspirada nos trabalhos do ícone da literatura de horror, escrita por Alan Moore e desenhada por Jacen Burrows, publicada pela Avatar Press. A nova iniciativa vem na esteira do outro trabalho da dupla, a HQ vencedora  do Bram Stoker Award, Neonomicon, assim como The Courtyard, uma adaptação em quadrinhos de um conto do próprio Moore, ambas também da Avatar. Recentemente, foi anunciado que Providence terá 12 números mensais, começando em maio. Falta pouco para começar, mas que tal saber o que Alan Moore tem para falar sobre isso?

Eu acho que com isso, pelo menos para os meus propósitos, eu criei o que é a “minha” história de Lovecraft definitiva.

De acordo com o roteirista, para aqueles que já conhecem as histórias de Lovecraft, Providence será um prazer raro e vai dialogar com esse conhecimento prévio sobre esse universo e seu criador, enquanto que os outros leitores encontrarão um mundo tão novo e chocante quanto pareceu ao público da década de 1920. Moore ainda descreve sua HQ como “a história definitiva de Lovecraft”, advertindo que essa viagem à Nova Inglaterra da década de 20 não será confortável ou nostálgica.

O que eles fizeram foi organizar uma lista das aparições de Lovecraft nos quadrinhos, que eu acredito que começa com a canônica estreia da Liga da Justiça da América.

A entrevista foi concedida a Hannah Means-Shannon, publicada originalmente no Bleeding Cool!

Providence

Por que esse foi o momento certo da sua vida para trabalhar em uma história como Providence, e o que o faz achar que é oportuno para os leitores?

Bem, essa é uma completa coincidência e não é como seu eu houvesse planejado, mas acho que Providence está vindo na hora certa, em relação ao incrível florescimento da reputação de H.P. Lovecraft e sua popularidade na cultura Americana, que parece alcançar proporções de uma enorme bola de neve negra, provavelmente, com pedaços de frutos do mar saindo dela. (Risos)

E também, coincidentemente, este ano marca o 125º aniversário de nascimento de Lovecraft. Mas principalmente, é a incrível quantidade de insights  e a nova compreensão dele que foi se avolumando desde por volta da década de 1980. O volume de material crítico que está disponível agora é substancial, e o fato de que ele foi, tardiamente, aceito no cânone literário americano como um dos melhores autores do estranho e do macabro que a America já produziu, logo ao lado de Edgar Allan Poe, certamente é distintivo.

Tudo isso começa a vir à tona neste momento, e coincide comigo com um novo interesse em Lovecraft, um escritor que me tem sido, pelo menos, familiar desde quando eu tinha 11 ou 12 anos de idade. Posteriormente, eu me conscientizei dos aspectos de Lovecraft que eu não percebia antes. Vi possibilidades em Lovecraft  que eu não havia vislumbrado antes. Uma vez que planejei por cerca de quatro anos, é uma convergência muito fortuita, se preferir, para o meu interesse em Lovecraft e meu desejo de contar  um tipo diferente de história de Lovecraft, uma adequada ao século XXI e como nós vemos e entendemos seu trabalho agora. Então, esse meu desejo aconteceu de coincidir com uma súbita e meteórica ascensão da popularidade de Lovecraft. Isso parece algo como uma espera involuntária. Parece vir tudo junto exatamente ao mesmo tempo.

Providence

Eu acho, é possível, que o fato de Providence ainda não haver saído, um ano atrás por exemplo, apenas eleva o nível que ele vai chegar em termos de popularidade entre os leitores. Mesmo comparando com o ano passado, as coisas tem se aquecido substancialmente em termos de interesse por Lovecraft e suas criações.

Com certeza. Eu estive trabalhando em Providence por três ou quatro anos e é o trabalho culminante de um processo que, provavelmente, começou  quando iniciei minhas infelizes histórias em prosa das Culturas Yuggoth, todos aqueles anos durante a década de 90. O fato é que tudo que vem à mente agora é tão ao acaso que quase chega a arrepiar. Estou muito satisfeito com isso. E como você diz, se tivesse saído um ano atrás, não teria chegado neste momento que sinto agora, no instante em que o público, mesmo que ele não saiba disso, está faminto por uma reavaliação de Lovecraft. Eu acho que estão, mas veremos.

Providence

Você falou sobre suas razões pessoais para trabalhar neste projeto agora, mas você poderia nos dizer qual é o seu objetivo criando isto, e como gostaria que fosse o resultado? O que você quer para esta série?

O que eu quero para esta série? Eu quero criar uma visão de H. P. Lovecraft que eu ache adequada para nosso extraordinário século atual, para o que nós entendemos agora a respeito de Lovecraft e sua obra. Eu acho que a forma como percebemos Lovecraft foi, por tempo demais, uma visão provavelmente antiquada, de 40, 50 ou 60 anos atrás. Eu acho que é hora de uma reavaliação de Lovecraft. Na verdade, eu li uma resenha muito inteligente sobre Neonomicon em um dos livros críticos sobre Lovecraft que eu adquiri. Fiquei surpreso de encontra-la ali. O que eles fizeram foi organizar uma lista das aparições de Lovecraft nos quadrinhos, que eu acredito que começa com a canônica estreia da Liga da Justiça da América. O que você talvez não tenha percebido como uma história muito Lovecraftiana.

Nem em um milhão de anos.

Foi escrita por Gardner Fox, um grande fã de Lovecraft, que tinha, creio eu, feito antes vagas referências Lovecraftianas nas histórias da Sociedade da Justiça da América, na década de 1940. Mas no primeiro número de Liga da Justiça, ele tem essa estrela do mar muito grande se manifestando na cidade de Happy Harbor, Rhode Island. Logo, esse foi outro aceno de Gardner Fox para H. P. Lovecraft. E também o editor desta HQ foi Julie Schwartz, que havia sido agente de Lovecraft e vendeu Nas Montanhas da Loucura para a Astounding.

Uau! Fantástico.

Providence

Então, sim, tem existido uma história dos contos de Lovecraft nos quadrinhos. Eu estava lendo essa crítica em particular que com Neonomicon, estaríamos nos movendo até uma áera onde a ficção de Lovecraft se tornou capaz de criticar Lovecraft.

Interessante! Ficção como crítica.

Sim, eu achei que isso era interessante. Porque tenho certeza que, sim, é provavelmente uma avaliação justa do que estávamos tentando fazer em Neonomicon, embora eu não tenha sido inteligente o bastante para colocar isso em termos enquanto eu o fazia. Mas sim, eu acho que é um resumo justo. Estamos tentando trazer uma forma de ficção que pode ser remetida aos escritos de Lovecraft, sua filosofia, e todos os outros aspectos do homem e seu mundo. Ao mesmo tempo, eu espero, pode ser uma visão de Lovecraft mais poderosa, mais chocante e mais intensa que qualquer um dos leitores tenha visto antes. Agora, isso é uma afirmação bastante ousada, mas se não for verdade, que eu seja tragado, balbuciando e gritando, por algum abismo transdimensional, ainda escrevendo freneticamente em meu diário.

(Risos)

Providence

Eu acho que com isso, pelo menos para os meus propósitos, eu criei o que é a “minha” história de Lovecraft definitiva. É um redirecionamento do pastiche de Lovecraft para servir como um veículo que diz mais sobre Lovecraft e seu mundo do que simplemente aumentar o chamado de deuses impronunciáveis. E ao invés de regurgitar uma linguagem que era nova e excitante na década de 1920, eu quis criar histórias que tivessem a verdadeira essência de Lovecraft, mas chocantes e sem precedentes como eram as histórias de Lovecraft quando apareceram pela primeira vez, em fanzines de pequena circulação e nas páginas de Weird Tales.


Muita audácia de Alan Moore? Vamos ver… Providence #1 chega às lojas dos EUA em 27 de maio próximo, e o mundo poderá conferir se ele cumpriu sua promessa. Pelo peso do nome e da proposta, acho que podemos contar com a publicação da série por aqui, ainda que venha encadernado só no ano que vem.

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