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As Terras de Atlas – Afunda Logo!

A lendária Atlântida já foi objeto de inúmeras obras nos mais diversos segmentos. Jogos, filmes, livros, quadrinhos e até álbuns musicais já abordaram a ilha – ou continente, dependendo da versão – afundada das mais distintas maneiras. Será que Atlântida, que é mencionada desde Platão há mais de 24 séculos, ainda pode gerar histórias interessantes? A resposta é sim! Não é tão difícil achar exemplos dessas boas histórias. Pena que o livro As Terras de Atlas tem seus tropeços aqui e acolá.

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Publicado em junho desse ano pela Editora Baraúna, As Terras de Atlas se passa na lendária Posêida, uma das cidades do continente, em seu último ano de existência. Lá, o leitor se depara com uma civilização altamente avançada e mágica, porém cruel e inescrupulosa. Os atlantes são seres imorais que prezam a satisfação dos desejos e sentidos próprios sem se preocupar com os outros. Durante a narrativa, acompanhamos essa nefasta civilização nos trágicos eventos que culminaram na sua submersão.

Percebemos que o texto apresenta suas referências aos mitos de Atlântida que conhecemos, tais como a própria menção ao povo atlante na escrita de Platão sobre as viagens de Sólon pelo Egito, para se tornar uma possível origem dessas narrativas que contam o misterioso dilúvio atlante. Uma abordagem que instiga aquele leitor que sempre cavucou nessas inúmeras lendas e versões sobre o continente submerso. Nesse quesito, As Terras de Atlas acerta em cheio.

Bernardo Lynch de Gregorio

Bernardo Lynch de Gregorio

Além dessa proposta que – mesmo já batida, de certa forma – é instigante, o currículo do autor chama muito a atenção. Bernardo Lynch de Gregorio é médico psiquiatra, psicoterapeuta junguiano, homeopata com especialidade em antroposofia e é formado em Filosofia pela USP e em ilustração e técnicas artísticas pela Escola Panamericana de Arte. Além disso, Bernardo também é um estudioso de teosofia, taoismo, cabala e tarô. Independente se o leitor é mais ou menos adepto a esses estudos mais esotéricos, é um background que possui um potencial interessante para uma obra de ficção cujo tema é um mito revisitado inúmeras vezes e de diferentes maneiras.

Infelizmente, essa polivalência no currículo do autor não ajuda no desenvolvimento da história em si. Na verdade, ela acaba atrapalhando. A mistura de vários conceitos que vão desde astrologia até outros tipos de esoterismo deixam esse universo exageradamente carregado. Uma coisa é criar um mundo rico em detalhes e com uma mitologia própria, mas aqui há uma inundação de vários conceitos que deixam a mistura muito concentrada e difícil de engolir.

Uma das várias sugestões da localização de Atlântida

Uma das várias sugestões da localização de Atlântida

Indo para o desenvolvimento de seus personagens encontramos outro problema. O interesse por eles é mínimo, e o fato do pano de fundo ser conhecido – a submersão – faz com que o leitor queira chegar logo ao final do livro, mas não no sentido da curiosidade, e sim porque o miolo não segura a atenção. Na verdade, o pano de fundo ofusca os protagonistas.

Mesmo com esses problemas, a obra transparece uma pesquisa aprofundada sobre o tema mítico e um vasto domínio sobre toda questão simbólica inserida nos diversos elementos que compõe o mundo atlante. Se a narrativa e o excesso de algumas coisas podem atrapalhar a experiência da leitura, algo que vale a pena é perceber esse vasto conhecimento do autor sobre várias áreas de conhecimento mitológico. Se na dramaturgia As Terras de Atlas falha, ainda assim ela nos leva numa viagem para esse mundo novo que pode servir de inspiração para jovens escritores ou até mesmo mestres de RPG, graças à sua imensa gama de detalhes e personagens com poderes diferentes entre si. Mesmo que você não goste da obra como um todo, ainda assim ficaria curioso para um eventual novo trabalho de Gregorio.

O Reino de Atlântida nos quadrinhos da Marvel.

O Reino de Atlântida nos quadrinhos da Marvel.

As Terras de Atlas possui seus problemas, principalmente com relação ao desenvolvimento da trama e o excesso de elementos mágicos e simbólicos que sobrecarregam, e muito, a história. Independente disso, é visível o enorme empenho de pesquisa envolvido nessa obra. Felizmente, isso faz com que o leitor acompanhe a narrativa até o derradeiro momento do continente submerso. Mas, durante a leitura, você quer que afunde logo.

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