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Pornopopéia – Pop e marginal!

Reinaldo Moraes explora o submundo paulistano em Pornopopéia

Em sua epopeia, intensificada por putaria e sandices, Pornopopéia (com acento mesmo, já que, a pedido do autor, algumas palavras não tiveram a revisão gramatical de acordo com o novo acordo ortográfico), publicado em 2009 pela editora Objetiva e escrito por Reinaldo Moraes, é algo que podemos ver como um verdadeiro espiral de tudo que pode ser extravasado por um ser humano, criando uma espécie de efeito catártico ao longo de sua jornada.

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Narrado em primeira pessoa, o livro tem como protagonista José Carlos Ribeiro, o Zeca, de 42 anos, um indivíduo que pode ser definido como desprezível e que se auto-intitula cineasta marginal.  Ele também é dono de uma produtora de fundo de quintal, na nobre região de Higienópolis, em São Paulo. O tal empreendimento é custeado pelo cunhado rico de Zeca, que não faz ideia de como andam as coisas por lá. Na parca filmografia do nosso anti-herói do cinema, consta um único filme “sério”: o emblemático (ou não tanto assim) Holisticofrenia, que ganhou um prêmio de cinema independente em um festival qualquer. Seus demais trabalhos limitam-se ao universo do pornô e vídeos institucionais.

O leitor é apresentado à Zeca em um momento de bloqueio criativo durante a criação de um roteiro de um vídeo institucional sobre embutidos de frango. Esse é o pontapé inicial da tal epopeia, que não tem nada de heroica ou desbravadora, sendo ambientada no universo sujo das noites da região central de São Paulo, onde Zeca frequenta recintos regados à sexo, bebidas e drogas. Um detalhe curioso – e até inacreditável – é que ele é casado e pai de uma criança. A vida desregrada de Zeca não condiz com a atmosfera familiar. Para se ter uma ideia, ele jamais conversa  frente a frente com a esposa. Os “diálogos”, quase sempre em tom de briga, acontecem apenas por telefone e e-mail.

A trama de Pornopopéia caminha de forma concomitante com o ímpeto por sexo e vida boa de Zeca, isso sem contar sua postura de metido a sabichão. Entre as aventuras nas quais ele se envolve, há espaço até para um ritual de origem hindu para lá de bizarro chamado Zebuh-Bhagadhagadhoga, que nada mais é do que uma desculpa esfarrapada para uma suruba, ou, como é chamado, surubrâmane.  Tudo isso sob o efeito de um ácido poderosíssimo. Também temos seu envolvimento com a travesti Lolla Bertoludzy, trazendo para o leitor uma das partes mais hilárias do livro.

Em um constante ciclo de cinismo e mentiras, Zeca cria desculpas esfarrapadas a todo momento, não só para fugir do seu trabalho, mas também de si próprio. Em meio a todo este existencialismo, acompanhamos sua busca por Miro, seu amigo traficante e principal fornecedor de cocaína, fato este, aliás, que é o gatilho para o início (pra valer) da trama.

Resenha de Pornopopéia

O autor Reinaldo Moraes

Hedonismo brutal e selvagem

A temática que abrange violência, drogas e sexo são os pilares de sustentação para a segunda parte da narrativa, onde ocorre uma mudança drástica de ambientação, mas sem perder o foco na decadência do personagem. Repleta de menções de cultura pop (David Lynch, Jim Morrison e Cesário Verde constam no pacote), haicais nonsenses e um contexto beatnik, à lá Bukowski, a história adquire uma linguagem própria em meio à atmosfera noturna paulistana. Zeca torna-se um imã de encrencas. Se há aquele ditado que diz que a pessoa colhe o que planta, por este prisma, Pornopopéia escancara muito bem o conceito de causa e efeito de atitudes e escolhas do indivíduo. Movido meramente pela cabeça do pau e pelo nariz, este Macunaíma moderno (dada as devidas proporções) vive algo extremamente intensificado, indo além dos limites, sempre desprovido de qualquer caráter.

Dotado de um humor bem singular e um coloquialismo em uma explanação totalmente dinâmica, o romance trata o conceito da linguagem de maneira bem caracterizada na fala, muitas vezes escatológica, praticamente embebido em um conceito naturalista. Não só pelas gírias e determinados neologismos, mas também pelos diálogos acentuados e degenerados. No ano de 2012, foi cogitada uma adaptação do livro para o cinema, que teria a direção de Arthur Fontes. No entanto – sabe-se lá por qual razão – o filme nunca aconteceu.

Para quem se interessa por literatura contemporânea e gosta de uma contextualização cotidiana, sem pudores e totalmente escrachada, com boas doses de humor, Pornopopéia é uma leitura excelente, que garantirá momentos de risadas e frustrações com as desventuras do protagonista.

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