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O Quarto de Giovanni – Todos os amores são tristes!

James Baldwin vai muito além do óbvio em O Quarto de Giovanni

O Quarto de Giovanni (Giovanni’s Room) é o típico exemplo de história que se confunde com a de seu autor, James Baldwin. Sua sexualidade, conflitos e muitas nuances de si estão mescladas neste livro que é muito mais do que a retratação do desejo entre dois homens, mas sobre a negação do amor numa sociedade detentora de preconceitos.

Compre clicando na imagem!Resenha de O quarto de Giovanni, de James Baldwin

À sinopse: Nos anos 50, David, um americano radicado em Paris, aguarda o retorno de Hella, sua namorada, que viajou para a Espanha a fim de decidir sobre se deve ou não aceitar seu pedido de casamento. Na capital francesa, entre bares e poucos amigos, ele conhece Giovanni e ambos iniciam um romance intenso que faz David repensar suas certezas. Já nesta sinopse, algumas pessoas podem lembrar-se de Carol, livro de Patricia Highsmith, que teve uma elogiada adaptação cinematográfica em 2016.

Publicado em 1956, O Quarto de Giovanni é um romance narrado em primeira pessoa por David em variações temporais entre presente e passado. Paris é bem retratada, sendo facilmente visualizada pelo leitor, mesmo idealizada 70 anos atrás. Na boemia noturna da cidade, conhece-se um microcosmo onde bebida, sexo e dinheiro dão o tom, mas também onde as paixões brotam de maneira natural e bela. A narrativa diligente de Baldwin dá intensidade a cada momento, pois mostra, acertadamente, a urgência dos sentimentos nas palavras do autor.

Os conflitos de David levam o leitor a ver como o protagonista percebe todos à sua volta, com seus julgamentos, preconceitos e interesses. A tônica do livro é sobre pessoas que abraçam suas naturezas e seus devires (conceito filosófico sobre o ato de se tornar, transformar-se em algo). Curiosamente, o único que se presta a fugir destes “destinos” e autoaceitações é justamente David. Isso não o torna necessariamente condenável, mas  uma vítima das próprias expectativas e assim, propositadamente imperfeito. James Baldwin se utiliza de questões que até hoje permeiam os homens, como: Masculinidade e virilidade questionáveis, machismo, desejos sexuais, troca de posições hierárquicas numa relação, falta de dinheiro e perspectivas sociais de um casamento heterossexual. Tudo isso é feito nas entrelinhas mas, quando exigido, grita-se os temas sem pudor algum.

O tempo psicológico construído para David também merece elogios. As tensões são descritas longamente nas páginas, causando ao mesmo agonia, medo, raiva, e algumas vezes, infelicidade. Já as alegrias dele são vividas de maneira rápida em poucos parágrafos ou apenas um, dando dicas, nas entrelinhas, sobre como o personagem vivencia suas situações cotidianas e como elas o marcam. É interessante notar como o autor faz intercalar tudo isso de uma forma extremamente bem construída num crescendo forte e sem preocupações sobre o que o leitor pode achar de sua criação. Esse desapego moral com o protagonista por parte de Baldwin funciona em abrir os sentimentos de David causando uma empatia dúbia, o que enriquece a experiência da leitura.

Resenha de O quarto de Giovanni, de James Baldwin

James Baldwin (1924 – 1987)

Giovanni aquiesce com a situação de seu amado e se resigna ao seu papel e, ainda que contido, consegue passar muito do que sente. E essa transmissão dos sentimentos também é passada na relação com David, seja no carinho ou em seus embates. A proposta de Baldwin com Giovanni é da relacionamento expansivo e como ele pode se tornar reducionista e ressentido com o tempo. Quando necessário, é didático sem zombar da inteligência do leitor, mas ao sabor do momento sabe ser metalinguístico (o sentimento refletindo sentimento em si e dialogando entre situações) numa clara metáfora sobre analogias do que se torna o amor em sua casca externa mesmo condenável pelo desespero, mas que permanece, em essência, sendo amor. Essas variações são ricas se analisadas do ponto de vista da alteridade, onde, na falta de reconhecimento próprio, é a partir de Giovanni que David se compreende. Sempre tendo em vista que isso necessariamente não significa o fim dos conflitos do protagonista, mas eleva as dualidades que desenvolvem a trama.

As complicações são vivenciadas em pequenos momentos que se estendem uniformemente, nem paradas demais, nem frenéticas em excesso, mas sim agudas. James antecipa isso ao leitor e trabalha o ritmo de acordo com a necessidade de cada situação. Não há pressa, mesmo que sua escrita seja direta e sem floreios. Há alguns usos de anáforas (repetições sucessivas de palavras e/ou suas auto-referências nas frases para uma maior ênfase da mensagem) e sutis digressões (fuga do assunto principal para outro tema por um breve período) que encaixam muito bem na narração de David, auxiliando na compreensão de sua persona.

O clímax é dividido em núcleos. Os principais são os de David, Giovanni e Hella. O realismo impresso é bem empregado e o desfecho é intrínseco com o que se apresenta durante a obra: Seco, tenso e amargo. Sem apelar ao sentimentalismo, trazendo uma ode à tristeza, ao quase deboche e desprezo. O final traz uma reflexão instigante fortemente inspirada pelo Determinismo que rege o personagem principal, além de mostrar o domínio de Baldwin perante narrativa dos temas propostos.

A edição física

A Editora Companhia Das Letras fez uma edição protocolar e sem defeitos ortográficos ou de digitação. Mas há dois senões: O primeiro é a introdução de Colm Toibín, que, apesar de ser feliz em destrinchar a obra de forma profunda, entrega spoilers da trama sem o menor alerta ao leitor desavisado. Já o segundo é a ausência de tradução para os trechos em francês. Esse erro tira da imersão em diversos momentos pois fica claro que algumas dessas frases são importantes para o desenvolvimento das situações. Notas de rodapés resolveriam facilmente essa questão.

Após a história há dois ótimos artigos sobre James Baldwin. O primeiro é intitulado James Baldwin e os desafios da (des)classificação, sobre as vivências sociais do autor e coloca uma luz sobre sua figura mítica. É redigido por Hélio Menezes, um antropólogo e internacionalista com uma extensa carreira docente, pesquisas sociais e contribuições literárias. Já Um perfil de James Baldwin, é escrito pelo sociólogo Márcio Macedo e explana as referências pessoais que o literato teve em sua caminhada na escrita.

Assim, O Quarto de Giovanni é um livro que merece ser não meramente lido, como também refletido sobre as inflexões do amor, a desmedida opressão que causamos a nós mesmos e suas consequências a longo prazo. A obra nos ajuda a ver que James Baldwin era alguém além de seu tempo. Com uma visão complexa e realista de um mundo que demorou a lhe compreender, por ser gay e negro, lutou para ser reconhecido além dessas alcunhas, querendo ser somente um “escritor americano”. E é uma pena que esteja conseguindo isso tardiamente, mais de 30 anos depois da sua morte.

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