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O Problema dos Três Corpos – Contatos Imediatos!

O contato com vida inteligente fora do planeta Terra sempre foi um tema interessante para a produção cultural. Filmes, livros, séries de televisão e músicas foram criados relatando esse momento, tão esperado por alguns e temido para outros. Do humor negro satírico de Tim Burton em Marte Ataca! aos Daleks de Doctor Who, o alienígena é uma figura controversa e, sobre esta figura, há sempre uma expectativa.

O Problema dos Três Corpos

Dentro desta perspectiva e, utilizando como pano de fundo as situações reais vividas por cientistas e estudiosos chineses durante a Revolução Cultural iniciada em 1966, O Problema dos Três Corpos é a primeira parte de uma trilogia do autor chinês Cixin Liu. Publicada recentemente no Brasil pela editora Suma de Letras, a obra se apropria da Teoria dos Três Corpos estudada em Astronomia (precisamente, no campo da Mecânica Celeste, que estuda a relação de corpos com a gravidade), para relatar os esforços do governo Chinês em contatar vida inteligente em outros planetas, ao mesmo tempo em que tentativas semelhantes eram feitas pelos russos e norte-americanos. O livro, porém, vai além da busca por vida inteligente para mostrar a mudança de pensamento em uma sociedade voltada para o combate de ideais capitalistas (grande problemática levantada pelos revolucionários de Mao Tsé-tung), a importância do estudo da Física em diversas outras áreas (focado nas pesquisas sobre ondas, que revolucionou tanto as comunicações quanto a alimentação – vide o microondas e seu amplo uso doméstico) e como, em pleno Século XXI, a busca por uma realidade virtual é maior do que a vivência interpessoal.

O Problema dos Três Corpos

Cixin Liu

Nosso herói é Wang Miao, pesquisador da área de nanotecnologia, que se vê envolvido pelo próprio governo chinês, a contragosto, em uma inacreditável trama de espionagem junto ao grupo Fronteiras da Ciência, formado por pesquisadores e intelectuais de várias partes do mundo e que parecem ter algo a esconder. Seu caminho se cruza com o de Ye Wenjie, protagonista da primeira parte do livro, onde se relata o impacto da atuação da Guarda Vermelha no início da Revolução e o início das pesquisas em rádio do governo chinês em sua busca por vida extraterrestre. Wang é um homem de família, trabalhador, focado em sua pesquisa. Porém, o mistério no qual se encontra vai deixando-o paranoico, parte do brilhantismo do autor em mostrar que o desconhecido é, muitas vezes, mais perturbador do que o conhecido.

Liu, primeiro vencedor asiático do Prêmio Hugo (principal prêmio dado às melhores publicações de Ficção Científica) faz uma excelente crítica social ao conflito de costumes ocidente x oriente e ao uso exagerado da tecnologia e vida virtual, com uma invasão alienígena hostil como grande cenário. Os alienígenas de Trissolares são inteligentes e tecnológicos. À beira do extermínio, buscam em seu jogo, O Jogo dos Três Corpos (que é online e em realidade virtual), respostas para perguntas antigas dos cientistas terráqueos e deles próprios. O ambiente de jogo é hostil ao ser humano, mas trabalha com uma interessante interação entre os participantes, de forma a climatizar tanto Wang quanto o leitor (com o uso, por exemplo, de nomes conhecidos da ciência internacional, como Giordano Bruno e Copérnico, ou da mitologia chinesa, como Fu Xi, um dos progenitores da raça humana, de acordo esta linha de pensamento).

O Problema dos Três Corpos

A trilogia publicada nos EUA!

A escrita de Liu não é fácil e um leitor pouco acostumado com ciência ou com ficção científica talvez fique perdido no começo, mas toda a ciência no livro é contextualizada, e, com o passar dos capítulos, muitos assuntos vão ficando mais familiares e interessantes, e a leitura, no segundo e terceiro atos, fica mais viciante.

O Problema dos Três Corpos é para os fãs de ficção científica, principalmente para os fãs do subgênero invasão alienígena. E, apesar de relatar fatos verídicos dos anos 1960 e se passar quase que integralmente no presente, poderia, muito bem, se enquadrar também no subgênero Futuro Distópico, pois em 2016 (ou 2008, época em que o livro foi publicado) temos uma realidade muito mais distorcida do que a realidade pensada para o futuro daqueles que viveram a Revolução, ou uma (ou as duas) Grandes Guerras. E, parafraseando uma famosa série de televisão, é muito interessante constatar que a verdade está, indubitavelmente, lá fora.

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