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O Mundo Resplandecente – Um prenúncio da Ficção Científica moderna!

Uma obra basilar da FC, O Mundo Resplandecente tem edição digital em português

Nada incomum atribuir a Frankenstein o posto de obra que inaugurou a Ficção Científica como gênero definido. Lançado em 1818, o livro de Mary Shelley se mantém não apenas como um registro de sua época, mas passou no teste inexorável do tempo, a única prova que realmente conta, em se tratando de conceitos e inquietações que permanecem atuais. Antes dela, existem trabalhos que prenunciaram essa vertente de escrita de alguma forma (História Verdadeira, de Luciano de Samósata, por exemplo), mas outros ainda precisam ser descobertos por um público bem maior. O Mundo Resplandecente (The Blazing World) é um deles.

Compre sua edição digital clicando na imagem!Resenha de O Mundo Resplandecente, de Margaret Cavendish

Obra seminal do sci fi, identificado como romance de utopia, o livro de Margaret Lucas Cavendish, Duquesa de Newcastle-upon-Tyne, está cronologicamente situado entre A Utopia, de Thomas More e o conflito criador X criatura criado por Shelley, com um espaço de cerca de um século e meio de ambos os lados. Publicado em 1666, O Mundo Resplandecente é finalmente traduzido para o nosso idioma em mais uma edição digital bem cuidada da editora Plutão, que também nos brindou recentemente com Sobre a Imortalidade de Rui de Leão. Para fãs e pesquisadores, uma ótima oportunidade de entrar em contato com um texto tão importante quanto, injustamente, desconhecido.

Influenciada pelo romance de aventura, a autora nos mostra uma protagonista que acessa um mundo mágico e alegórico, através de um portal localizado no Polo Norte. O local, povoado por criaturas meio humanas, meio animais, é uma sociedade pacífica e perfeita em sua organização, dentro de um governo centralizado na figura de um imperador. A partir desta premissa, Margaret Cavendish explorou diversos aspectos e questionamentos comuns à sua época, mas também imprimiu ali muito de sua própria peculiar visão de mundo.

Além de romancista, filósofa, poeta, cientista, e dramaturga, também foi a primeira mulher admitida na Royal Society of London. Um currículo notável, mais ainda em se tratando do século XVII. As investigações e proposições encontradas em O Mundo Resplandecente envolvem indagações intrínsecas às especializações de sua autora, proporcionando aos leitores conferir as impressões de alguém que viveu a revolução científica como contemporânea de Newton, Descartes e Hobbes. Notas explicativas muito convenientes nos orientam nos trechos mais nebulosos do texto.

Questões de gênero e poder provocando mais discussão

É mais do que evidente que ninguém deve ler este livro esperando arcos dramáticos de personagens, ou quaisquer tipos de catarse. Muito mais indicada aos afeitos a pensar e refletir sobre a formação e posteriores orientações da Literatura Fantástica, a obra ainda vai além e contempla os interessados em entender a percepção do mundo em geral naquele momento e os caminhos trilhados até aqui. Neste sentido, cabe comentar a protagonista que Margaret Cavendish criou para o romance.

A personagem principal se torna soberana do local, casando-se com o imperador, este encantado com tamanha beleza. A investigação e reestruturação do que ela passa a denominar como Mundo Resplandecente indica como a protagonista é calcada na própria autora, que aproveita para explicitar suas cismas reais com aspectos do experimentalismo científico da época. A Metafísica também se faz presente nesta estrutura conceitual alegórica, quando entra em cena outra personagem alter-ego, não por acaso, referida como Duquesa de Newcastle.

Resenha de O Mundo Resplandecente, de Margaret Cavendish

Margaret Cavendish (1623-1673) por Abraham van Diepenbeeck.

O reencontro com o antigo lar da protagonista ainda evidencia inclinações políticas que hoje soam anacrônicas, portanto, nunca é demais lembrar que é preciso ter em mente o contexto no qual cada obra foi escrita. Aliás, cabe também a consideração sobre os riscos de cruzar a biografia de qualquer artista com sua obra, exceção que precisa ser feita aqui. Chega a ser fora de propósito desconsiderar ou ignorar a pessoa real da autora neste exercício de leitura e reflexão, mas a edição traz todos esses dados pertinentes para os interessados.  Só é preciso que os leitores tenham consciência prévia desta natureza peculiar.

Pelo seu caráter de retrato de um zeitgeist e pioneirismo literário, O Mundo Resplandecente é obrigatório para todos os amantes do Fantástico e arqueólogos da Ficção Científica. Na via inversa do conteúdo e potencial para discussões que carrega, é uma leitura curta, que não tomará muito mais do que um par de horas no total. Já as reflexões que – inevitavelmente – virão depois, essas tomarão muito mais tempo, com certeza.

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