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O Apanhador no Campo de Centeio – O encanto da banalidade!

Clássico da literatura americana, O Apanhador no Campo de Centeio mantém sua força junto aos novos leitores

Numa época em que aplicativos de trocas de mensagens são parte do cotidiano, pode ser um exagero dizer que adolescentes adoram falar. Eles passam mais tempo digitando que falando, isso é verdade, mas estão, de alguma forma, se comunicando. Isso porque quando os hormônios entram em polvorosa, há uma necessidade extra de se expressar que vem de brinde. Precisamos que o mundo saiba o que pensamos, que música ouvimos e como quase ninguém nos entende. A aparente simplicidade do discurso adolescente é o que move as linhas escritas por J.D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye).

Clique na imagem para comprar!Resenha O Apanhador no Campo de Centeio

Lançado originalmente em 1951, o livro acompanha um final de semana da vida de Holden Caulfield que, aos 17 anos, deixa um famoso internato para rapazes rumo à casa dos pais. A surpresa vem na mochila: um boletim cheio de notas baixas e uma carta de expulsão.  Por saber que o encontro não será dos mais agradáveis, o garoto resolve percorrem um caminho diferente para adiar sua chegada e ter um tempo para pensar sobre como será o seu amanhã. Seus encontros com um antigo professor, uma ex-namorada e sua irmã mais nova são o cenário onde Holden destila o verbo sobre o modo como encara a vida. Um modo bem peculiar, como pede a adolescência.

Para quem ainda enfrenta as espinhas no rosto e a bronca dos pais, a sinopse de O Apanhador no Campo de Centeio pode parecer mais do mesmo. Mas antes de seu lançamento, a literatura não havia voltado com atenção o seu olhar para a juventude. Aliás, a própria ideia de juventude não era bem definida, sendo apenas o estágio chato entre a infância e a vida adulta. A prosa ritmada e pouco preocupada com uma ordem severa dos acontecimentos de Salinger retratava cada jovem mente inquieta daqueles tempos.

(Confira a resenha de outro clássico, O Lobo da Estepe!)

Resenha O Apanhador no Campo de Centeio

Filme Encontrando Forrester (2000), dirigido por Gus Van Sant: inspirado na vida de Salinger

No cinema, discretamente…

Os relatos das bebedeiras, dos encontros, das paixões e dos questionamentos podem ser os de um garoto americano dos anos 50, mas ainda conseguem a proeza de tocar o leitor que vive a adolescência com um smartphone nas mãos. O autor tem um poder de sedução que, a cada página, aumenta nossa vontade de dividir uma mesa de bar com Holden. Seus arroubos rebeldes e sua vontade de fazer revolução em todos os cantos de sua vida são poderosos ao ponto de nos colocar para pensar sobre nossas próprias escolhas. Uma leitura distante das frases ditas por Holden vai nos fazer chegar à conclusão de que seu verbo está à disposição da banalidade da vida. Descrições de acontecimentos comuns, uma vida até monótona, na verdade. Mas a fúria com que descreve cada situação faz o leitor embarcar na situação como se ela fosse única e insólita. E não é assim que encaramos a vida lá pelos 15 anos?!

Com todo esse apelo, o livro virou um sucesso de vendas e Salinger ganhou o status de celebridade, algo que não combinava com sua personalidade tímida. Isolado em uma casinha nas montanhas, ele passou a escrever cada vez menos e logo cortou relações com a mídia, o que incluía a proibição da adaptação de seus livros para o cinema, algo que seria aprovado por seu personagem mais famoso, que declara sem nenhum pudor seu ódio à Sétima Arte.

(Leia também a resenha de Sidarta!)

Mesmo sem nunca ter sido levado às telas, O Apanhador no Campo de Centeio já deu às caras em alguns filmes. Era de se esperar, já que uma geração de realizadores teve sua adolescência marcada pela obra e referenciá-la era uma questão de tempo. Essas homenagens cinematográficas são quase sempre discretas, como em Encontrando Forrester, do diretor Gus Van Sant. Lançado em 2000, o filme tem como protagonista um escritor, interpretado por Sean Connery, que se isola após lançar sua obra-prima. É uma clara alusão à vida de Salinger e também à sua obra, já que o personagem vira mentor de um jovem escritor que quer transformar seus anseios de adolescente em livros. Bom, não preciso nem dizer que Jim Stark e sua jaqueta vermelha, bebendo leite direto da garrafa no filme Juventude Transviada, de Nicholas Ray, é uma imagem que deixaria Holden orgulhoso.

Esta que vos escreve leu O Apanhador no Campo de Centeio pela primeira vez aos 15 anos, a idade perfeita para descobrir a mente inquieta Holden Caulfield. Hoje, passados mais de 15 anos desde o primeiro encontro, talvez seja a hora de reler este velho amigo. Talvez a aventura perca um pouco do sabor. Crescemos e muitas ilusões são perdidas, afinal. Mas também pode ser a descoberta de que, mesmo ostentando o título de adultos, ainda gostamos de correr risco pelo campo de centeio.

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