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Zamyatin – A revolução em Nós que nunca acabou!

Nós, de Yevgeny Ivanovich Zamyatin, é a antítese do otimismo

As distopias são a antítese da utopia. Desde o século XVI, com as grandes descobertas decorrentes das navegações ultramarinas, o imaginário europeu foi fomentado pela invenção do desconhecido. Em 1516, Thomas More apresenta Utopia, romance onde é idealizada uma sociedade sem propriedade privada, livre de imposições religiosas ou estatais. Tal literatura permaneceu ao longo da história e vive até hoje; um dos mais notáveis exemplos é Ecotopia, de Ernest Callenbach, publicada em 1975. É uma das primeiras utopias ecológicas, que serviu de influência para diversos movimentos verdes, fortemente influenciada pelas discussões acerca do aquecimento global, efeito estufa e outras preocupações ligadas ao planeta.

Em contraponto, especialmente no início do século XX, surgem as distopias. Num cenário mundial posterior a Primeira Guerra Mundial, onde governos totalitários ascendem embebidos por sentimentos de vingança, e com a Europa lançando seus tentáculos imperialistas sobre a África e a Ásia, as esperanças não são tão otimistas quanto as que outrora motivaram as utopias. Uma nova Grande Guerra é possível. Até onde pode chegar o poderio estatal do totalitarismo vigente? Como a cultura respiraria neste meio essencialmente bélico, industrial e científico? Um pessimismo ácido em relação ao futuro é palpável na insegurança e na angústia destes questionamentos.

Desse ensejo surge Nós, ficção distópica escrita por Yevgeny Ivanovich Zamyatin. Produto de seu tempo e lugar, escrito em 1923, o livro aborda temas que fervilhavam na União Soviética de Vladimir Lenin, edificada sobre as ruínas da Rússia czarista após a Revolução de Outubro de 1917. Zamyatin fala sobre liberdade, felicidade, privacidade, coletivismo, sexo, identidade, mídia e propaganda, arte (e sua produção enaltecedora do Estado), entre outros temas.  Dentre a vasta gama, escolhi um assunto bastante extenso e que engloba involuntariamente um pouco de cada elemento presente em Nós e suas influências históricas, bem como suas possíveis reflexões no cenário atual: o autoritarismo.

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Capa da primeira edição de Nós, de 1924.

O soviético herético

Como já mencionado, as obras de ficção, ainda que tratem de futuros longínquos e imaginados por seus criadores, intrinsecamente refletem seu contexto histórico de invenção e seus múltiplos aspectos humanos. Portanto, entendamos o contexto da obra aqui analisada: enquanto estudava em São Petersburgo, de 1902 a 1908, Zamyatin tornou-se adepto dos ideais bolcheviques.

Em decorrência disto, na presente instabilidade russa, o autor contribuiu para diversos jornais socialistas; em contraponto, passou por dificuldades e exílios, tendo de concluir os estudos como engenheiro naval na Finlândia e trabalhar em estaleiros britânicos. Não obstante, o inabalável escritor apoiou a Revolução de Outubro em 1917, quando finalmente, liderado por Lenin, o Partido Comunista da União Soviética tomou o poder.

Logo após a revolução houve certa estabilidade em sua vida. Dedicou-se a jornais e palestras, bem como traduziu obras clássicas de H.G. Wells e Jack London. Entretanto, com o tempo, Zamyatin transformava-se em um soviético herético – termo cunhado por ele mesmo no ensaio autobiográfico “A Soviet heretic”; passou, então, a ser um forte crítico do regime comunista e as suas censuras, voltando a costumeira sátira de seus escritos contra a foice e o martelo, e mais do que isso: contra qualquer forma de autoritarismo e censura.

Em 1923, o autor concebe Nós. Todavia, o romance é publicado somente em 1924, e em solo americano, pois fora censurado na União Soviética. Somente em 1927 a sátira distópica foi impressa em solo russo, numa revista de emigrados. Naquela época, a U.R.S.S. era comandada por Josef Stalin, e sob as mãos de ferro deste, a censura mostrou-se ainda mais rigorosa. Nós foi novamente censurado. Então, Zamyatin, em sua famosa carta a Stalin, finalmente pede permissão para deixar seu país. Instala-se em Paris, na França, onde viveu com a esposa até morrer em 1937, na pobreza, aos cinquenta e três anos, sem produzir escritos de maior destaque.

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O famoso discurso de Lenin, ratificando o sucesso da Revolução.

Nós. Quem?

Em Nós, a sociedade é regida pelo Estado Único, um governo autoritário moldado pela matemática. O mundo, depois da Guerra dos Duzentos Anos, está na mais perfeita ordem. As pessoas são supostamente felizes, vivendo sob as ordens do Benfeitor, aquele que comanda o Estado; o mesmo determina a hora de comer, de dormir, de trabalhar e até de fazer sexo. Tudo é previamente estabelecido pela rigidez matemática que consolida as rédeas curtas com que o Estado Único mantém a ordem.

O que temos em mãos durante nossa leitura são as anotações de D-503, um engenheiro e matemático que trabalha na Integral, uma nave espacial que levará a ideologia do Estado Único para outros povos em distantes planetas. Este diário de anotações, de início, compila informações, opiniões e descrições sobre a Terra. As anotações do personagem, narradas em primeira pessoa, ora transmitem momentos de relato (do dia-a-dia das personagens, como funciona o trabalho, o lazer e a rotina), ora momentos de reflexão (acerca da arte, da liberdade e da moral), todos moldados pela visão de D-503 e sua profunda convicção no Estado Único e sua natureza inabalável.

A ordem e o progresso caminham de mãos atadas; as paredes são de vidro, para que todos vejam o que os demais estão fazendo; os Guardiões do Estado Único patrulham e mantêm a ordem. Agir ou pensar contra o sistema é crime punido com morte, e a imaginação, o amor, os sonhos e a cumplicidades são doenças. Porém, alguns números – como se identificam os seres humanos – ainda não se tornaram parte completa do sistema; alguns deles ainda possuíam uma chama que, mesmo tímida, ainda não fora apagada: eles ousavam imaginar.

O indivíduo, obviamente, era proibido de imaginar, ainda mais se fosse imaginar um mundo sem o Estado Único. D-503, nosso protagonista, é um dos que não pensam em nada além do que o governo determina: ele é racional, metódico e segue exatamente o que é mandado, isso até conhecer I-330. Ela é uma mulher que deseja mais do que um sistema opressor, mais do que o Benfeitor pode prover – a mesma é, acima de tudo, uma revolucionária. Ela quer liberdade e contamina D-503 com este sentimento. Então, a mente de nosso protagonista entre em confusão. Ele deveria mesmo lutar contra as bençãos do Estado Único e buscar a nefasta liberdade? Eis o dilema de D-503. A dúvida abala suas certezas, a emoção rasga o frágil véu da razão e D-503 torna-se um herético naquele meio estatal, repreensivo e autoritário; ele se torna um “anjo caído”.

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O soviético “herético” Zamyatin!

Como já dito, o Estado Único é um governo regido pela perfeição matemática. Isso é evidente na obra de diversas maneiras: claramente, através das descrições de D-503 temos o panorama desta visão; os horários são definidos previamente pela Tábua das Horas, a música considerada perfeita é apenas aquela moldada dentro das regras matemáticas mais ferrenhas, a poesia segue sua utilidade estatal sob uma métrica exata e afins. Ademais, uma das características da prosa de Zamyatin em Nós é justamente deixar intrínseco o ideal matemático no romance; a prosa constrói uma atmosfera regular e matemática nela mesma, utilizando metáforas e alusões sempre relacionadas à matéria como “silêncio assimétrico” ou “nós somos a média aritmética mais feliz”.

Noções de liberdade e felicidade

O autoritarismo se desdobra em diversas características, e as formas de dominação são muitas. Em Nós, o domínio do Estado sob os indivíduos vem com a total falta de liberdade destes – só pode haver felicidade sem liberdade, pois são coisas completamente divergentes, segundo a visão do Estado Único.

“[…] é como a antiga lenda sobre o Paraíso… É sobre nós, sobre o agora. Sim! Pense bem. Aqueles dois no Paraíso estavam diante de uma escolha: ou a felicidade sem liberdade, ou a liberdade sem felicidade; não havia terceira opção. Eles, imbecis, escolheram a liberdade, é compreensível, depois de séculos sentindo falta dos grilhões. Os grilhões, compreende, são a causa da dor do mundo. Séculos! E apenas nós redescobrimos como voltar à felicidade… Não, continue, continue ouvindo! Nós e o antigo Deus estamos lado a lado, na mesma mesa. Sim! Nós ajudamos Deus a vencer definitivamente o diabo, foi ele que incitou as pessoas a violar a proibição e provar a nefasta liberdade, ele é uma cobra escarnecedora. E nós pisamos na cabeça dele, zás! E pronto: o Paraíso retorna. E de novo nós seremos puros e inocentes como Adão e Eva. Nenhuma confusão sobre o bem e o mal: tudo é muito simples e paradisíaco, infantilmente simples. O Benfeitor, a Máquina, o Cubo, o Sino de Gás, os Guardiões, tudo isso é bom, tudo isso é majestoso, perfeito, nobre, elevado, de uma pureza cristalina. Porque isso protege a nossa falta de liberdade, isto é, a nossa felicidade.”

Sob a mão de ferro do Benfeitor, os números do Estado Único estão todos presos pelas correntes das funções e cargos, jamais alcançando a liberdade. Essa última, portanto, é vista como algo ruim para o Estado Único, como observamos e as limitações são prezadas e enaltecidas.

Imperialismo ideológico e etnocentrismo

Outra característica do autoritarismo é o imperialismo e o etnocentrismo: potências autoritaristas como a Alemanha nazista e a União Soviética realizaram empreitadas militares com o objetivo de anexar territórios e subjugá-los com sua ideologia (anexação da Ucrânia à U.R.S.S. em 1922; da Polônia à Alemanha em 1939). Em Nós, a possibilidade de viagens interplanetárias reforça este espírito expansionista ao máximo. A Integral é uma nave de alta tecnologia que tem como finalidade espalhar a ideologia do Estado Único para outros planetas. Notemos, de início, a visão imperialista e etnocêntrica daqueles que fazem parte do Estado – sim, fazem parte, como um gigante corpo biológico interdependente de seu próprio coletivismo matemático e perfeito:

“Um grande momento histórico está próximo, quando a primeira INTEGRAL alçará voo para o espaço. Há mil anos, vossos heroicos antepassados submeteram todo o globo terrestre ao poder do Estado Único. Uma façanha ainda mais gloriosa está pela frente: integrar a infinita equação do universo com a INTEGRAL […] Espera-se submeter ao jugo benéfico da razão os seres desconhecidos, habitantes de outros planetas, que possivelmente ainda se encontram em estado selvagem de liberdade. Se não compreenderem que levamos a eles a felicidade matematicamente infalível, o nosso dever é obrigá-los a serem felizes.”

Mídia e propaganda estatal

O trecho de Zamyatin citado acima pertence ao jornal estatal fictício de Nós, a Gazeta do Estado. A mídia e a propaganda têm um papel importantíssimo no domínio autoritário. Como exemplo, voltemos a 1939, quando o presidente Getúlio Vargas criou o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), em um dos decretos do Estado Novo.

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Nossa própria versão de distopia se manifestou no fascismo populista de Vargas!

A partir da criação do departamento, todos os serviços de propaganda e publicidade passaram a ser executados com exclusividade pelo órgão, que também organizava e dirigia as homenagens a Vargas, passando a se constituir no grande instrumento de promoção pessoal do chefe do governo, de sua família e das autoridades em geral. De forma semelhante, na Alemanha, em 1933, Hitler estabeleceu um ministério da propaganda dirigido por Joseph Goebbels. Em Berlim, Goebbels tornou-se editor do jornal Der Angriff (“O Ataque”), um dos principais veículos para a disseminação do ideal antissemita nazista. Para Hitler, toda propaganda devia ser popular e estabelecer o seu nível espiritual de acordo com a capacidade de compreensão do mais ignorante dentre aqueles a quem ela pretende se dirigir.

 Cultura e arte

O domínio social através da cultura é, também, um ponto crucial. Zamyatin nos mostra uma sociedade onde a arte é estritamente uma utilidade. Seguindo as palavras de Tolstói, “A arte é uma atividade humana que consiste em alguém transmitir de forma consciente aos outros, por certos sinais exteriores, os sentimentos que experimenta, de modo a outras pessoas serem contagiadas pelos mesmos sentimentos, vivendo-os também”.

Constatamos que a arte é subjetiva e inerente aos sentimentos humanos, e aí entra a contradição: em Nós, os números não são indivíduos, logo, não possuem subjetividade; o coletivo não sente. Por isso, a arte não passa de um instrumento nas mãos do Estado Único. A arte é uma ferramenta. Para isso, no livro há o chamado Instituto Estatal de Poetas e Escritores, do qual faz parte R-13, um poeta amigo do nosso narrador. Em certo ponto, D-503 faz algumas reflexões acerca da poesia:

“Esse era meu caminho, da parte ao todo; a parte era R-13, e o majestoso todo era o nosso Instituto Estatal de Poetas e Escritores. Pensei em como não saltou aos olhos dos antigos todo o absurdo da sua literatura e poesia. A enorme e esplêndida força da palavra artística foi desperdiçada totalmente em vão. Simplesmente ridículo: qualquer um poderia escrever sobre o que lhe viesse à cabeça. […] domesticamos e dominamos os elementos poéticos selvagens de outrora. Atualmente, a poesia já não é o desregrado silvo do rouxinol: a poesia é um serviço estatal, a poesia é utilidade.”

Observa-se no romance que quaisquer manifestações artísticas, mais especificamente a poesia e a música, estão moldadas pelo coletivismo e funcionam estritamente a favor do Estado Único.

O Benfeitor como líder

Os reflexos do autoritarismo soviético são mais presentes em Nós do que quaisquer outras formas de governo autoritário. Um dos aspectos do stalinismo na Rússia foi o culto à personalidade dos líderes Lenin e posteriormente Stalin. A palavra destes líderes era indiscutível e indubitável. Para muitos soviéticos, Stalin era conhecido como “o camarada secretário geral”, a quem só cabia obedecer.

Voltando o olhar para Nós, a aproximação que há no termo “Camarada Secretário Geral” é tão sedutora quanto o autoexplicativo “Benfeitor” de Zamyatin. Assemelha-se, também, do conhecido termo alemão Führer (líder, guia), que deriva do verbo führen (conduzir). Por mais autoritários que sejam os líderes, seu populismo assegura uma visão idealizada para aqueles que são comandados. Em Nós, o Benfeitor é isto: um guia, um líder, um camarada. É aquele que faz o bem.

Nós foi um marco na literatura mundial e influenciou uma gama gigantesca de autores que idealizaram futuros distópicos a partir dos medos e angústias de seu tempo presente. Na sátira de Zamyatin, o autoritarismo se desdobra em facetas extraordinárias e inimagináveis para quem lê. Entretanto, a rigidez matemática na ideologia do Estado Único é edificada sobre os mesmos moldes de qualquer autoritarismo que já existiu em nossa História: noções limitadas de liberdade; ideal de felicidade possível apenas dentro dos muros do Estado; cultura e arte formuladas para fins estatais; entre outros.

“O mundo vive somente por causa dos heréticos: Cristo o herético, Copérnico o herético, Tolstói o herético. Nosso credo (ou crença) é a heresia: o amanhã é infalivelmente uma heresia do hoje que se tornou um pilar de sal, e do ontem que foi esfarelado na poeira”.

E, graças ao herético soviético, Huxley abordou temas de liberdade sexual em seu Admirável Mundo Novo, Bradbury trabalhou a liberdade intelectual e o direito ao conhecimento nas páginas de Fahrenheit 451 – pois estes são, como Nós, uma rebelião do espírito humano contra o mundo massificado e autoritarista – entre outros diversos exemplos de tão grande importância para a literatura mundial.

Grande parte do autoritarismo comentado aqui surgiu depois da obra em questão, entretanto, Zamyatin ainda viveu tanto na Rússia czarista quanto na União Soviética de Lenin. Podemos entender que autor tinha suas razões para criticar o Estado; caso contrário, sua obra não teria sido censurada no próprio país. Nós deve ser visto como uma revolta às ideologias utópicas e ao estadismo exacerbado. Foi certamente uma revolução na literatura. E não a última delas, pois, como dizia seu autor, as revoluções são infinitas!

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