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Criaturas Flamejantes- O Rock’n’Roll mete o pé na porta!

Nick Tosches e seu recorte da História do Rock em Criaturas Flamejantes

Para os minimamente próximos da música, é de conhecimento amplo que aquilo que convencionou-se chamar de Rock’n’Roll surgiu de uma mistura de estilos populares no sul dos EUA, lá pelo início da década de 1950. Na verdade, isso em termos de nomenclatura, pois já havia uma batida diferente rolando em locais “pouco respeitáveis”, que demorou um pouco para estourar. Em Criaturas Flamejantes, Nick Tosches nos apresenta um pequeno e fascinante recorte deste momento.

Compre clicando na imagem!Resenha de Criaturas Flamejantes - Nick Tosches

A edição da Conrad, lançada em 2006, tem apenas 136 páginas. Parece pouco para satisfazer os fãs mais enciclopédicos do assunto e cobrir algo significativo, mas existe uma explicação. Na verdade, a editora optou por publicar apenas um trecho isolado do livro Country: The Twisted Roots Of Rock ‘n’ Roll, de 1985, colocando o foco em artistas mais conhecidos do público brasileiro. Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Chuck Berry, principalmente, por razões já justificadas pela escolha da música Country como guia da pesquisa, afinal, apesar das sonoridades particulares, os três tiveram essa vertente muito presente em suas formações.

Para o leitor brasileiro, pode parecer estranha a escolha de publicar um livro incompleto. Mesmo assim, um bom atenuante para isso é que estamos falando de um trabalho de Nick Tosches. Este jornalista, biógrafo, poeta e apaixonado por música, falecido recentemente, deixou como legado livros de assuntos variados, mas examinar sua bibliografia deixa clara a queda pela gênese do Rock. Inclusive, é bem provável que muitos leitores de Norman Mailer (de A Luta) e Hunter S. Thompson enxerguem ali uma pegada em comum, mesmo que seja em pequenos detalhes.

Uma dúvida pertinente, para qualquer leitor potencial de Criaturas Flamejantes, diz respeito ao teor do texto. Já ficou evidente a questão do Country, mas existe algo além? Com toda certeza, já que Tosches sabe muito bem para onde direcionar sua pesquisa. Conforme o título da obra original, a coisa gira em torno da loucura que dominou essa revolução cultural, para o bem e para o mal, manifestando os anseios de uma juventude reprimida. A citação em sua capa já nos dá uma ideia: “…não era uma mera canção de festa, e sim um convite para um holocausto”.

Sem pormenores inúteis para tirar a obra dos trilhos, o autor vai fundo na sua proposta. Além dos artistas de maior destaque, ele não poderia deixar de citar a enorme influência que um certo radialista exerceu neste cenário. Alan Freed desafiou os protocolos do conservadorismo racista estadunidense, sendo um dos poucos a tocar músicas de artistas negros, tornando-se uma espécie de porta-voz da nova ordem. Uma consequência natural, já que foi ele mesmo quem criou o termo Rock’n’Roll, em 1951.

Bill Haley & His Comets, entre as primeiras estrelas a sumir depois do grande estouro, também tem um papel fundamental nesta pesquisa. Hoje em dia, é um exercício interessante imaginar como uma canção como Rock Around The Clock, com um conteúdo tão inocente, pode ter provocado tanta comoção. Sua inclusão na trilha de Sementes da Violência (Blackboard Jungle, 1955), filme referencial no tema da rebeldia juvenil, contribuiu bastante para a preocupação dos pais daquela garotada.

Resenha de Criaturas Flamejantes - Nick Tosches

A verdadeira loucura personificada

Seria muito maniqueísta da parte de Nick Tosches ocupar-se apenas da histeria do Sistema contra a cultura roqueira emergente. Também é necessário apontar os excessos do outro lado deste cabo de guerra, algo que não é muito difícil, tendo Jerry Lee Lewis como uma das figuras principais. Isso, claro, em uma época de plena disposição física e apetite pelo desastre. Perto dele, Elvis, Chuck Berry e Buddy Holly, citado mais de passagem, eram verdadeiros santos.

Todos os eventos que os envolvem direta ou indiretamente são abordados de uma forma não tão linear, o que ajuda bastante na fluidez da leitura e não prejudica em nada o entendimento do leitor. São vários relatos surpreendentes, tamanha a ousadia e inconsequência envolvida. Se as letras da época soam absolutamente ingênuas nos dias de hoje, o comportamento dos artistas e as situações geradas neste contexto não devem nada para o que acontece atualmente no cenário musical.

O único porém de Criaturas Flamejantes é parecer mesmo incompleto, um problema que incomoda mais a quem não sabe tratar-se de parte de um texto maior. Ainda que não fiquem pontas soltas, é compreensível que qualquer desavisado ache que foi finalizado às pressas. Mesmo com esse esclarecimento, não deixa de ser uma falha geral, apesar de creditada exclusivamente à edição nacional, pesando na avaliação.

Apesar da reclamação, os prós superam em muito os contras, como já foi possível perceber até aqui. Apaixonados pela História do Rock e demais curiosos vão deliciar-se por essas páginas, divertindo-se muito enquanto aumentam seu conhecimento. Pena que acaba rápido…

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