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A Estrada – A intensidade pós-apocalíptica!

A Estrada prova que, se existe Alta e Baixa Literatura,um dos melhores candidatos ao topo está aqui

Se há um livro capaz de transmutar páginas de ficção em genialidade é A Estrada, de Cormac McCarthy. Com apenas nove livros lançados até hoje, o autor conseguiu cravar seu nome como um dos grandes escritores da história. Agora, nos cabe entender o porquê disto e porque você deveria ler esta obra-prima da literatura.

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Resenha do livro A Estrada

Então, à sinopse: Em uma América pós-apocalíptica, um Pai e um Filho, que nunca conheceu o que havia antes desse caos, caminham pela estrada até o litoral, em busca de uma vida melhor. Alguma coisa aconteceu e retrocedeu o mundo como conhecemos à idade da pedra, sem eletricidade, sem casa pra morar, sem lugar para se esconder. Não há quase nada que funcione sem ser de forma manual e, se funciona, pode estar nas mãos dos vilões. Dos animais, só se veem carcaças antigas e secas. Florestas viraram uma legião estática de árvores mortas, a neve desce suja dos céus, existe uma constante fuligem que tomou conta da paisagem, tudo, mas rigorosamente tudo, é tomado por pó. Você não estaria errado se imaginasse o mundo de cor cinza.

E nesse cenário desolador, os personagens tentam sobreviver com material escasso, pouca ou nenhuma água e menos comida ainda, dependendo sempre do nomadismo (onde as pessoas não se fixam em um único lugar para sobreviver) para achar sustento ou fugir dos perigos. Longe de ser uma distopia à lá Mad Max com doses de excentricidade, o que existe aqui é uma absurda e referencial exacerbação pesada da pobreza. Os protagonistas, assim como a esmagadora maioria dos sobreviventes, são sujos, fedem, usam roupas que encontram pelo caminho e dormem ao relento. Muitos acabam recorrendo ao canibalismo, então, não existe gente confiável no mundo. Por isso, o Pai carrega uma arma com duas balas. Uma para ele e outra para o filho (sem idade definida na história, mas aparentemente entre 8 e 10 anos). Eles não querem morrer, mas a morte é realmente uma opção melhor do que ficar subjugado por pessoas desesperadas. E esse desejo por uma morte rápida fica evidenciado neste trecho:

Se te acharem vai ter que fazer isso. (…) você sabe como fazer. Coloca dentro da boca e aponta pra cima. Faça rápido e com força. Está entendendo? Pare de chorar. Está entendendo?
Acho que sim.
Não. Está entendendo?
Estou.
Diga estou entendendo Papai.
Estou entendendo Papai.
Baixou os olhos para ele. Tudo o que viu foi horror.

Cormac McCarthy usa este desespero como instrumento proposital para fazer a imersão da leitura ser mais intensa. Essa ferramenta causa no leitor a sensação de que viver nesse mundo é difícil, melancólico, triste, desafiador e muito, mas muito desanimador. E se existe alguma dúvida disso, na história apenas em UM momento existe alegria. E quem ri é o pai. O filho, como não conhece o que o progenitor viu, fica apático, sem entender o que acontece. Assim, o tédio aos poucos se torna resiliência e depois a busca de um destino.

Resenha do livro A Estrada

O escritor Cormac McCarthy

Personagens realistas e densos

O Pai é um personagem que dificilmente você não se apega. Protetor, rígido, de raciocínio rápido e sempre tossindo, provavelmente por causa dos anos de fuligem respirada. Já o Filho é a bondade do livro. Ele quer ajudar as pessoas que encontra, mesmo com pouco a dividir. Ele precisa dar a elas o nulo conforto que recebe de seu pai em forma de provimentos. Ele chora por não conseguir fazê-lo sempre que deseja, mas sabe porque não consegue. Sofre, mas entende. E segue em frente porque o pai segue também.

A dinâmica entre os dois é muito realista e densa, mesmo com poucas palavras trocadas. Você sente a proteção do pai e sua rigidez para que ambos perdurem nesse mundo, ao mesmo tempo que existe a relação niilista entre eles. É fácil absorção, mas não fácil digestão. Dói você saber que se um morrer outro irá junto, como no trecho abaixo:

O que você faria se eu morresse?
Se você morresse eu ia querer morrer também.
Para poder ficar comigo?
É. Pra poder ficar com você.
Tudo bem.

Assim, chegamos na parte principal que é a forma de linguagem, representada pelo discurso livre indireto, ou seja, sem parágrafos . Para McCarthy é mais fluído assim. Se em Onde Os Velhos Não Têm Vez ele abusava de longas frases com seus períodos compostos múltiplos e conjunções coordenativas casados com descrições minuciosas de armas e ferimentos, aqui o que existe é o contido com raras expansões gramaticais. O desenvolvimento não tem pressa, nem mesmo às necessidades mais básicas do personagens. As digressões excessivas também estão presentes, sempre certeiras.

Ao misturar alguns elementos de Realismo e Naturalismo, o livro permite alguns frescores e subversões. Tal qual um homem quebrado e dependente da existência de uma criança, a quase completa obliteração da moralidade, submetida à ética apenas, narrativa direta, mas algumas palavras chulas também. Comportamento humano e sua decomposição social também é retratada.

Ao terminar A Estrada, o leitor vai ter plena certeza que o livro não vai deixá-lo feliz. Ele não vai te dar momentos suaves a não ser os que eles buscam comida em casas abandonadas ou comem restos de neve no chão. A Estrada vai pisar em você e maltratar teu coração, vai te levar ao mais baixo do sentimento da incapacidade ao acompanhar como espectador as necessidades mais básicas suprimidas. Nisso espere uma enxurrada de repetições, mas que na trama existe uma riquíssima metodologia. A falta de assunto dos personagens é repetitiva de forma proposital e mostram que nos tornamos reféns de novidades sociais, ou de nosso próprio ócio. Não há mais prazer no “nós” e sim no o quê. Tire isso do homem e ele se torna menor tentando viver de forma repetitiva e exaustiva por pura teimosia.

Assim. Cormac McCarthy consegue tornar sua história mais do que literatura simples, mas em fragmentos de uma experiência artística que busca causar sensações genuínas e duradouras no leitor. E isso é para poucos.

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