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Encontro com Rama – Uma visita passageira!

Encontro com Rama

Encontro com Rama

Estamos sozinhos no Universo? Essa é uma das perguntas mais repetidas pelo ser humano ao contemplar as estrelas no céu noturno. Será que, mesmo com incontáveis galáxias e suas inúmeras estrelas, não há uma única civilização para nos fazer companhia neste inóspito cosmos? Arthur C. Clarke adoraria que a resposta fosse positiva.

Grande parte das obras do autor britânico, como O Fim da Infância e As Fontes do Paraíso, tratam do avanço da espécie humana e encontros imaginativos com seres extraterrestres. Em Encontro com Rama (Rendezvous with Rama), publicado originalmente em 1973, Clarke coloca os seres humanos no papel de exploradores que se aventuram em um novo mundo alienígena.

Arthur Charles Clarke (1917-2008)

Arthur Charles Clarke (1917-2008)

A história se passa no século XXII, período em que a humanidade já colonizou grande parte do sistema solar. Planetas como Mercúrio, Marte e alguns satélites naturais já possuem seres humanos nativos, o que acaba gerando até mesmo diferenças nas características psicológicas e físicas de acordo com o planeta natal.

Dentro deste cenário de avanço e domínio do homem, um novo objeto de dimensões titânicas adentra em nossa vizinhança celeste e segue rumo ao Sol. Passando pelos planetas de nosso sistema estelar, o estranho visitante é nomeado como Rama (um dos avatares do deus Vishnu da mitologia hindu) e desperta perplexidade, curiosidade e medo ao revelar ser uma complexa e sofisticada construção feita por uma inteligência não humana. Uma nave, que estava em outra missão, é enviada às pressas para explorar o recém chegado, antes que conclua sua trajetória em direção ao Sol.

Arte conceitual mostrando o exterior de Rama

Arte conceitual mostrando o exterior de Rama

No melhor estilo da literatura de exploração, o leitor se torna parte da tripulação, mesmo que como um simples voyeur, que recebe a missão de última hora. A cada momento em Rama, sentimos as dúvidas e receios de cada metro avançado na estranha nave alienígena. O mistério em torno de como a construção funciona, quem a construiu e seus objetivos nos seguem e nos instigam a cada página.

Para o leitor mais xiita, ligado na ciência real que Clarke emprega em seus escritos, ficam as divertidas variações atmosféricas e gravitacionais que ocorrem em Rama. Devido o seu formato cilíndrico e gravidade gerada pela força centrífuga de sua rotação, temos um ambiente muito diferente de nosso planeta, mas que ainda assim respeita as leis da física. Com um mar que cerca todo o campo de visão, construções gigantes que se assemelham a cidades e uma gravidade diferenciada em cada ponto, Rama torna-se um verdadeiro playground laboratorial.

Arte conceitual mostrando o interior de Rama

Arte conceitual mostrando o interior de Rama

Com relação aos personagens, sabemos que desenvolvê-los nunca foi o forte de Clark. O autor sempre se interessou muito mais na cadeia de eventos de suas histórias do que com os sentimentos e dilemas dos protagonistas. Afinal, seus escritos são sobre a relação da humanidade – e não uma pessoa – perante o desconhecido, mesmo que representada por um indivíduo. No caso de Encontro com Rama, essa característica atrapalha um pouco a estrutura da obra por se tratar, a grosso modo, de um livro de exploração. Em diversos momentos, determinados personagens se veem à frente de desafios que se alongam mais que o necessário. Com a falta de profundidade dos protagonistas, a força dramática exigida desses momentos simplesmente não existe.

Outro fator que pode incomodar os fãs da ficção científica mais conceitual é que Encontro com Rama não oferece uma grande quantidade de questionamentos e nem muito material para reflexão – diferente da maior parte das obras de Clarke.

Encontro com Rama

Encontro com Rama é uma leitura rápida e instigante. Poderia ter mais questionamentos, mais conceitos e mais provocações. Mesmo que seu final passe uma ideia muito interessante, contrapondo parte da perspectiva que temos da humanidade no início da história, ainda fica aquela sensação de que falta um pouco mais de substância. Tal sentimento deixa um gosto mais amargo, pois sabemos da capacidade do autor que já nos levou à uma incrível odisséia espacial.

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