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Encarcerados – Aquele sci-fi que apenas diverte!

Encarcerados é um divertido livro sci-fi, mas totalmente despretensioso

Quando terminei a leitura de Encarcerados, livro de John Scalzi publicado recentemente pela Aleph aqui no Brasil, minha opinião sobre ele foi pedida pelo nosso editor Daniel Fontana, com o seguinte comentário: “é realmente bom ou é só mais uma ideia de roteiro para série da Netflix”? E visto que o tema do nosso recente podcast foi exatamente esse, é uma pergunta justa. Minha impressão inicial foi a de um livro não necessariamente genial, mas com alguns insights interessantes – e certamente divertido, uma marca pessoal do autor, já demonstrada também em outro livro resenhado aqui, A Guerra do Velho.

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Eu não sou o tipo de leitor que faz a crítica durante a história – que eu considero um erro primário de interpretação. Portanto, foi só quando me debrucei realmente sobre a narrativa que os problemas começaram a aparecer. Por alguns motivos. O primeiro deles, é que uma narrativa de ficção científica nunca pode ser “apenas” uma narrativa. O propósito da ficção científica é outro que não apenas narrar, mas propor ideias e reflexões acercas de inúmeros tópicos, embasando-se em princípios filosóficos e científicos – em alguma medida – racionais. Se não for assim, ficção científica torna-se apenas uma muleta, um cosmético para outros gêneros do qual a história realmente se trata; infelizmente, esse é o caso de Encarcerados.

Segundo, ele não foge de um estigma que assola a ficção científica recente: no fundo, trata-se apenas de uma reciclagem de velhas ideias e reflexões, propostas e realizadas por autores melhores e mais inteligentes que Scalzi. Não é que se trate de um livro ruim – como talvez possamos estar dando a entender – muito pelo contrário; é só que você já leu esse livro. Algumas vezes, na verdade. Com exceção de um ou outro autor – e não é o caso de Scalzi, existe uma profunda dificuldade por parte dos escritores em atividade de ficção científica de usar o gênero para realizar – como fizeram Wells, Huxley, Asimov, Clarke, Le Guin e tantos outros – um exercício de futurismo e tentar propor uma visão inovadora e em certa medida concreta do futuro; e não apenas uma extrapolação do presente para desenvolver uma narrativa de gênero.

A premissa é até interessante: o mundo foi afetado por uma doença altamente contagiosa, que tornou-se rapidamente uma epidemia. Essa doença matou cerca de 400 milhões de pessoas ao redor do mundo. Aqueles que sobreviveram a ela desenvolveram uma condição conhecida como Síndrome de Haden. Só nos Estados Unidos, cenário da narrativa, cerca de 4,5 milhões de pessoas são afetadas – mas a maioria da pessoas não apresenta qualquer sintoma da síndrome.

A exceção é o cerca de 1% desse número, que apresenta algum tipo de sequela; a principal delas é incapacidade de se moverem. Estão conscientes, com as suas mentes plenamente ativas, mas estando aprisionadas em seus corpos. Essas pessoas paralisadas ficaram conhecidas como Hadens, nome dado em homenagem ao então presidente dos Estados Unidos, uma das vítimas dessa síndrome. Com suas mentes presas, encarceradas em seus corpos e sem conseguir nem executar as funções biológicas mais básicas, diversas pesquisas surgem com o intuito de ajudar e proporcionar uma vida além do estado vegetal para essas vítimas.

Eis que por meio das pesquisas surgem os C3, robôs extremamente avançados que, por meio de uma interface neural, possibilitam aos encarcerados levarem uma vida praticamente normal, onde podem trabalhar, estudar e deslocar para onde bem quiserem. Além dos encarcerados, existem também os Integradores, pessoas que foram acometidas pela Síndrome de Haden, mas que não chegaram ao estágio final dela. Essas pessoas tiveram seus cérebros modificados com a instalação de um mecanismo tecnológico que permite receber a consciência das vítimas do encarceramento o mesmo princípio dos robôs, mas usando corpos reais.

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Nesse cenário pós-epidemia temos Chris Shane. A família de Shane possui uma condição financeira privilegiada, e ele sempre dispôs de um C3 de última geração – o que o torna um tipo de “especialista” no seu funcionamento. Quando o FBI cria uma pioneira divisão voltadas aos Hadens, Shane torna-se um agente. Em seu primeiro dia de trabalho, uma bucha daquelas: com a promulgação de uma lei que retira subsídios públicos voltados aos Hadens, segue-se revolta e protestos caóticos. Nesse ínterim, Shane e sua parceira, Leslie Vann, são convocados para analisarem uma cena de crime, e logo se deparam com uma complicada situação: o Integrador capturado no local alega não ter qualquer lembrança sobre o que ocorreu na cena do crime e, protegido por lei, não é obrigado a revelar a identidade do seu cliente, que estava controlava o seu corpo no momento do crime.

Mais robôs do mesmo

Dessa forma, cria-se um clima conspiracionista e de urgência, com a iminente revolta dos Hadens ganhando contornos violentos. Como dissemos, a premissa, em si, é interessante. O problema é que nós já vimos tudo isso antes. Seja no Eu, Robô de Asimov, no Neuromancer de Gibson – mesmo em X-Men de Claremont, para fugir à literatura – todos os elementos utilizados por Scalzi para compor sua história são absolutamente previsíveis. A questão dos direitos dos Hadens são explícita e não muito inteligentemente uma crítica às dificuldades de inclusão social – o que é um tema importantíssimo de ser debatido, mas ao qual Encarcerados nada acrescenta.

Pior: apesar das referências que usamos acima serem clássicos absolutos, não seria difícil para leitores mais jovens e rodados fazerem analogias com outras obras recentes menos inteligentes: a Ágora, local virtual onde os Hadens comungam e reclamam para si o direito de existir uma existência distinta do “mundo real” – também uma reflexão rasteira sobre redes sociais – quase que imediatamente remonta às demandas adolescentes de Jogador Nº 1; assim como ambos não passam de uma sombra perto do trabalho de questionamento realizado nesse sentido por cânones como o supracitado Neuromancer. No fim do dia, Encarcerados acaba sendo aquilo mencionamos nos primeiros parágrafos: uma aventura policial procedural produzida com um belo cosmético de ficção científica.

É claro que isso é – admito abertamente – um problema de expectativa. Como leitor velha guarda de clássicos da ficção científica, minha barra para esse gênero é sempre mais alta. Digo isso até como uma forma de deixar algo claro: o livro é extremamente divertido. Scalzi compensa sua falta de capacidade preemptiva e filosófica com um domínio pouco comum de timing de aventura. Com pouco mais de 300 páginas, a leitura é lépida e bastante agradável; o autor sabe como criar personagens cativantes e usar uma linguagem, no geral, bastante envolvente. Mesmo que seja um calhamaço de clichês, são clichês bem usados em prol da diversão.

Que, no final das contas, é o que demanda o público em geral hoje. Scalzi não é um Asimov só porque não consegue, mas também porque provavelmente não quer. Sua missão dentro da ficção científica não é deitar olhos consistentes sobre o futuro; é apenas entreter. É só que, infelizmente, com exceção dos raros Miéville por aí, as pretensões da maioria dos atuais autores de ficção científica é apenas essa.

Tomara que a futura série da Netflix, que o Daniel provavelmente não vai assistir, ao menos seja divertida.

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