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Deuses Caídos – O tudo (tudo mesmo!) numa coisa só!

Gabriel Tennyson apresenta um Deuses Caídos de poucos acertos

Lançado em 2018 pela Editora Suma de Letras, Deuses Caídos é uma mistura de muitas coisas, mas Gabriel Tennyson, em 288 páginas, consegue apenas abraçar a necessidade de se apresentar como produto plástico e raso.

Resenha de Deuses Caídos

À sinopse, como de praxe: No Rio de Janeiro, o Padre Judas Cipriano trabalha secretamente para uma organização católica que busca expurgar o mal sobrenatural do nosso mundo. Com a ajuda da Inspetora Júlia Abdemi, eles embarcam numa luta contra um assassino de proporções e poderes bíblicos que mata charlatões religiosos enquanto usa a internet como júri.

A ideia original de Deuses Caídos tem um potencial enorme. Criar um pano de fundo onde a intolerância religiosa e a internet podem ser criticadas sem a menor parcimônia é minimamente genial. O horror, quando bem feito, consegue não apenas fazer isto com sagacidade, mas também abrir o leque de conceitos de seus admiradores com novas ideias e atrocidades reflexivas. Mas este livro, infelizmente passa longe de qualquer segunda camada. Preocupado em apresentar um universo fantástico sob o Rio de Janeiro real, as boas ideias vão dando um lugar a uma mistura de tantas coisas que não apenas torna a literatura ruim, mas também descerebrada. Mas é aí que o maior pecado do autor entra em cena: os excessos.

O fato de termos apenas dois protagonistas como Júlia e Judas aos moldes de Dana Scully e Fox Mulder, onde o choque da descrença entra em conflito com a crença pura do que pensa, se perde numa linha de investigação pouco interessante, destoada da ideia de transição entre fatos e que se reduz apenas a ser episódico. Apesar de Júlia Abdemi ser uma personagem ótima e a real carga de interesse do livro em sua metafórica descoberta do mundo carioca escondido, o livro erra ao colocar como destaque quase que exclusivamente Judas Cipriano que é recauchutado da matriz de John Constantine, com pegadas de Priest, e funcionando quase que como uma nacionalização de Hellboy II – O Exército Dourado em seu cerne, com a história de mundos desconhecidos nas frestas do que vemos. Assim, Júlia perde seu desenvolvimento que se torna grotescamente tímido perto de um protagonista narrativamente estático e esteticamente engessado como Cipriano. À título de curiosidade, Cipriano traz algumas boas características, mas que são tão diluídas dentro do macro que qualquer discussão sobre o micro padece. Ele é negro e gay, vesgo e fora de forma física. Há a vantagem da normatização (Inclusive, Júlia também é negra e isso é agradavelmente normatizado em Deuses Caídos), mas por exemplo, qualquer reflexão do que um gay assumido faria de batina debaixo da tutela da Igreja Católica inexiste. Não funciona nem como objeto de estudo, nem como sátira, nem como choque. É e pronto, sem camadas e sem uma importância cadenciada.

Fantasia Urbana

Tennyson também coloca traços de Fantasia Urbana, inclusive utilizando frequentemente de descrições do Rio de Janeiro como elementos de realidade ao excessivo fantástico que permeia a obra. Mais uma vez este potencial é desperdiçado diante de uma gama de seres fantásticos chineses, espanhóis, judaico-cristãos, gárgulas da Idade-Média, fadas do dente, entidades demoníacas sexuais, livros sobrenaturais árabes, além de citações à Ragnarok. Por isso, serei preciso ao afirmar que a Cidade Maravilhosa aqui não é o que se conhece na literatura como “cidade personagem”. O Rio é apenas e tão somente uma vaga referência que serve para lembrar ao leitor que aquele lugar serve de locação para incríveis seres fantásticos de outros países. Ah, sim. Também existem Sacis Pererês. Eles aparecem duas vezes de forma rápida e sem nenhuma importância para o andamento das histórias que acontecem, mostrando que estes são apenas sorridentes tapinhas nas costas de um rico folclore nacional. Com todas estas informações sobre o sobrenatural que atravessa a obra, o Gênero Gótico que deveria diluir, perde-se em tantas peças que torna-se um mosaico muito poluído visualmente. O que contrasta com a necessidade de Gabriel Tennyson de fazer da imagética e seus signos de forma clara. Seria um alento, se não estivesse ligado a outro problema que é sua despudorada tentativa de fazer da literatura um objeto de cosmético, e assim, fazê-la narrativamente problemática. O fator psicológico da carga emocional que o gênero trabalha consigo é trazido apenas nas últimas páginas de forma densa, o que seria um alívio se não fosse pontual.

Ao se render à necessidade de tornar tudo visualmente acessível e delineado como um seriado — pois o tempo do livro é dividido em quatro dias, 42 capítulos, um prólogo e um epílogo —, Tennyson faz o desmonte da escrita instigante que a temática promete em suas primeiras páginas e parte para o didatismo de forma mais empobrecida. Não há digressão, não há inferências e subcamadas são unidas num único escopo que nivela todas as suas diferenças na medida da irrelevância estrutural. Até mesmo a internet, que teria um peso inicial sobre qualquer avaliação estética possível na profundidade sobre o caos das redes sociais e suas moralidades elásticas em um tempo onde a vida vale tão pouco, é abandonada ao longo do caminho. O mesmo posso dizer sobre a hipocrisia do discurso de união religiosa usando como fundo a intolerância e violência extrema.

Resenha de Deuses Caídos

O autor Gabriel Tennyson

Então, resta a Deuses Caídos se tornar uma paródia de horror involuntária com fan-services seguidas de insistentes catarses gore que, ao menos nisto, o livro funciona. As cenas são sangrentas e é uma das raríssimas vezes que a imagética consegue causar a sensação proposta. Se o vilão é confuso e utiliza-se de uma lógica altamente questionável para se tornar maior que Deus, ele compensa na crueldade gráfica. Não é nada de novo visto em filmes de horror B, nem mesmo agrega sagacidade ao processo de tentativa de construção sócio-demiúrgica do mesmo. Utilizando do pensamento de Stephen King, o processo se inicia em aterrorizar o leitor. Caso ele não consiga, tentará horrorizar e se ainda assim ele falhar, aí sim, o choque e a repulsa serão elementos narrativos. Essa busca se tornará uma sanha em afastar o leitor de suas páginas. Tennyson se resigna a este papel cedo demais e de maneira recorrente. O que perde todo o apelo da hiper-violência e a desnivela em uma superestimação desnecessária.

Para terminar, os roteirismos também estão presentes. Personagens inteligentes à medida das necessidades, livros que respondem tudo de ocultismo, tratam de biotecnologia, mas são péssimos em decifrar uma simples pegadinha da língua portuguesa, poderes que surgem apenas na hora que convém à história, coisas que são ditas e desditas depois, enormes trechos que poderiam ser cortados mas que precisam estar lá para motivos superestimados da narrativa inchada e por aí vai. Prefiro ser generalista e permitir que o leitor descubra por si mesmo.

Isto posto, Deuses Caídos é um livro que ainda pode ser aproveitado como hipérbole descartável e sem uma experiência prévia do leitor com literaturas de gênero melhores. Escrito de maneira formulaica como carta de apresentação para futuros possíveis projetos de mídias alternativas (a quantidade de referências que a obra faz a filmes também deixa isso claro), é perdido quanto obra, pouco dizendo quanto pós-horror de qualidade. Não instiga, não provoca, mas em compensação choca tanto pelo sangue quanto pelas oportunidades desleixadas num sincretismo generalista, excessivo e pedante.

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