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Caveiras: Toda Tropa Tem Seus Segredos – Violência policial com toque fantástico!

Ambientado no Rio de Janeiro, Caveiras dá tempero místico aos horrores cometidos pelo BOPE

A realidade da polícia no Brasil já é, em si, uma história de terror. Quando ajustamos o foco para o Rio de Janeiro e seu batalhão especial – um grupo que se orgulha de usar uma caveira, uma faca e duas pistolas como brasão – a coisa fica ainda mais feia. É como desenhar o significado de “truculência policial” com todas as letras, sem espaço para ambiguidade. Pois foi justamente esse o cenário escolhido por Vitor Abdala para seu primeiro romance, Caveiras: Toda Tropa Tem Seus Segredos, publicado pela Generale.

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(Confira as resenhas de outros livros da editora: Elric de Melniboné e sua continuação, Conan, Solomon Kane e Branca de Neve: Os Contos Clássicos)

Acostumado ao gênero do terror, que já permeava seus contos, Abdala agora explora a fundo a própria experiência como repórter policial para construir uma narrativa que mistura a rotina violenta dos morros e o horror sobrenatural. O protagonista é Ivo, um jornalista carioca que, quase sem querer, esbarra com o caso de uma criança assassinada no bairro do Caju. O menino de 12 anos fora perseguido e abatido por agentes do Bope dentro de casa, na frente da mãe, sem qualquer explicação, e Ivo é a única pessoa interessada em descobrir o porquê.

O livro acompanha sua jornada enquanto ele reúne provas e descobre as motivações por trás da morte não apenas dessa criança, mas de diversas outras que vinham sendo encontradas mortas na região. Entra em cena um ritual macabro envolvendo um general e uma crença indígena (fictícia, ao que tudo indica) e está armado o circo.

Narrativa insegura e sem surpresas

Caveiras ganha pontos pela escolha do tema e pela ousadia de abraçar o místico, mas perde muitos outros pela execução. Talvez por ser a primeira empreitada do autor numa narrativa de fôlego, o livro peca pela falta de fluidez, abusando de repetições (de palavras e ideias) e se preocupando demais em explicar todos os seus termos, siglas e jargões.

Esse didatismo briga com o formato do livro, já que toda a trama é narrada em primeira pessoa, como uma carta do repórter a seu editor. Ora, com um leitor tão familiarizado com o contexto, não faz sentido que se descreva cada elemento da cidade e/ou do ofício de jornalista como se o interlocutor fosse um completo estrangeiro.

Também não faz muito sentido que o redator inclua seus pensamentos íntimos e indignações no que se propõe a ser uma grande reportagem, mesmo que as circunstâncias da escrita justifiquem certa pressa e euforia. Esses pensamentos, além de deslocados, acabam atrapalhando a experiência do leitor, que tem pequenos spoilers como presentes de grego espalhados pelas páginas. É que tudo o que deveria vir como revelação – e, portanto, criar expectativa e medo – é antes especulado pelo protagonista ou por algum interlocutor, arruinando a surpresa.

Talvez para compensar, o autor exagera nas reações de Ivo, que protesta diante das atrocidades que ouve de suas fontes como se sua revolta ou sua ira, sozinhos, fossem capazes de arrebatar o leitor. Bem, não são… Sem o fator-surpresa, é difícil ter algum sentimento mais forte pela história, especialmente quando ela reflete uma realidade que já vemos diariamente dos jornais.

(Confira também o curta Ninjas, outro caso em que a realidade da polícia brasileira inspirou uma narrativa de terror)

Livro - Caveiras: Toda Tropa Tem Seus Segredos

Vitor Abdala

Demônios fantásticos, medos reais

O que falta aqui não é uma boa história para contar, que fique claro, mas sim a confiança para deixar que o leitor avance sem o conforto de saber todos os detalhes – vício de jornalista, tenho certeza, mas um vício que é preciso abandonar. Em defesa de Abdala, a conclusão do romance é, sim, bastante surpreendente, o que ajuda a encerrar a leitura com uma sensação positiva, mas é uma pena que ela reine isolada em meio a soluções tão pouco criativas.

Caveiras: Toda Tropa Tem Seus Segredos chega às prateleiras num momento importante, trazendo à tona o diálogo sobre o papel da polícia num tempo em que a violência e as armas de fogo têm ganhado popularidade. Porém, falta ao livro um mais pouco de pulso para assumir seu ponto de vista e sua mensagem: ele é uma denúncia contra a truculência policial? Contra a impunidade de certos grupos? É um grito de resistência pelo jornalismo, enquanto esse agoniza? Ou é apenas um longo conto de terror com um pé na realidade? Pois é difícil dizer. O texto se esquiva de julgamentos, como se pedisse desculpas pela própria visão, e foge das perguntas difíceis escolhendo no desconhecido, no místico, no surreal, a resposta mais fácil e menos assustadora. Bem menos assustadora.

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