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As Sereias de Titã – O Universo não se importa com você!

As Sereias de Titã é o recado de Vonnegut para a humanidade: nós nos achamos mais importantes do que somos

Sabe quando você se propõe a realizar uma tarefa ingrata sabendo de antemão que ela é assim? Pois é. Maldita hora em que este colunista se ofereceu para escrever sobre Kurt Vonnegut. Não que não seja um deleite dissertar sobre as obras dele; é só que extremamente complicado tornar linear e planificado a escrita de um dos mais criativos e subversores escritores do século XX. Ainda mais se tratando de As Sereias de Titã, uma das viagens mais loucas – e mais brilhantes – do escritor estadunidense.

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No fundo, falar sobre As Sereias de Titã não é algo tão complexo, pois é um livro muito mais sobre seu significado do que a trama que o carrega. Mas aí reside essa trágica idiossincrasia para este colunista: mais do que uma resenha crítica, seria necessário um artigo. Ou, talvez, como se faz nos EUA, seminários universitários inteiros sobre o autor. Mas o amigo leitor não está aqui para isso. Então, vamos ao que interessa.

Em As Sereias, Vonnegut apresenta sua rendição ao existencialismo. O livro é basicamente um recorte de cenários que perpassam questionamentos e suas conclusões, sendo que esses podem ser bem resumidos como: “qual o propósito da vida?”, “não existe propósito para a vida, e todos somos tragicamente condenados ao caos e a liberdade”, “nada disso importa, porque nós nunca sequer estivemos no controle”. O autor trabalha a galhofa que é nossa consciência da existência sob um viés existencialista/absurdista, antecipando outros trabalhos de ficção proeminentes nesse tema, como O Guia do Mochileiro das Galáxias e Rick and Morty.

Na trama – se é que podemos chamá-la assim – que ocorre de maneira não-necessariamente linear – estamos sendo evasivos porque afirmar qualquer coisa categórica sobre esse livro é um tiro no pé – o astronauta Winston Niles Rumfoord que, durante uma viagem para Marte com seu cachorro, colidiu com um “indifíbulo cronosinclástico”, que acabou transformando-o em uma “Onda” abrangendo todo o contínuo espaço-temporal. Ainda conosco? Ótimo.

Com seu conhecimento do futuro imutável, Rumfoord se diverte brincando de Deus – porque, aparentemente, não é o caráter de um homem que se revela com o poder absoluto, mas a inteligência. Desnecessário dizer que a maior parte dos humanos tem bem pouca. Ele abduz milhares de pessoas incautas, as leva para Marte e as treina para uma invasão deliberada e totalmente fútil contra a Terra, pelo único propósito de unir a humanidade em uma vergonha coletiva por terem sido massacrados por um exército cujas fileiras incluem mulheres e crianças.

No meio dessa calamitosa demência, ele destaca um indivíduo, Malachi Constant, o homem mais rico do mundo, para ser particularmente abusado, mandando-o através do sistema solar em uma série de humilhações para que ele sirva como exemplo para humanidade dos nossos piores e mais degenerados impulsos. Deus é uma criança com uma fazenda de formigas? Sim, e não uma muito esperta.

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O autor Kurt Vonnegut!

Acidez cósmica

Porque Rumfoord é a encarnação da visão cínica e ácida que Vonnegut possui sobre a humanidade e seus defeitos. Rumfoord não é altruísta em suas ações de nenhuma forma. Ele não é nenhum exemplo intelectual ou ético a ser seguido. E isso pode nos fazer desprezá-lo, mas a armadilha do autor reside justamente nisso: seu Deus é feito a imagem e semelhança do homem, tal qual sabemos (desculpem-me os devotos) assim ser, então Deus pode ser extremamente mesquinho e ligeiramente alienado e abobalhado. A imagem e semelhança da nossa mediocridade, expondo uma verdade arguta: não existe controle ou propósito no universo porque, se existe um design inteligente para as criaturas no universo, quem fez esse desenho não era muito esperto. Como Rumfoord.

Ele provavelmente é, de fato, o mais amargurado personagem de toda a trama, conforme percebemos que ele não é motivado por nenhuma grande preocupação em relação à condição humana. Ele não quer muito mais do que punir sua ex-mulher por permanecer virgem durante seu casamento. Imagine que aquele seu tio do pavê, que só pontualmente aparece para fazer piadas ruins e reclamar da vida, ganhasse poderes divinos. É isso que Vonnegut está nos dizendo: a busca por propósito na nossa existência é um esforço frugal de consciência para nos elevar acima da mediocridade com a qual convivemos todos os dias.

Mas o autor vai além e, em determinado ponto, Rumfoord nos apresenta outra informação preciosa: todas as empreitadas humanas, desde a aurora dos tempos, foi manipulada por aliens distantes com um propósito prepóstero e trivial. Não existe fim para a colossal ironia de Vonnegut, que possui, por si só, também um propósito deveras frugal: apontar nossa inabilidade de vivermos em nós mesmos. No fim do dia, As Sereias de Titã não é exatamente uma grande empreitada inovadora em termos de conceito: é uma grande colcha de retalhos de ideias sartreanas e camusianas, mas com um tempero spinoziano, arremessando toda a humanidade dentro de uma perspectiva cósmica onde tudo relacionado a nós parece simplesmente mesquinho e bobo. E dessa bobeira, vem o toque particular e característico de Vonnegut: um humor mordaz, cáustico, muitas vezes sombrio, sobre a nossa percepção da (falta de) liberdade em nossas existências.

Kurt Vonnegut é um autor ainda por ser descoberto pelo grande público brasileiro, e vem em boa hora. Afinal, nada como suas obras para acalmar um pouco o senso de pretensa importância autoproclamado pelos abastados e poderosos como vemos recentemente…

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