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O Terror – Arthur Machen e seu legado para a Literatura Fantástica!

O Horror Cósmico de Lovecraft deve muito a Arthur Machen

Com a obra de H. P. Lovecraft desfrutando hoje de uma popularidade considerável, é natural que alguns fãs mais dedicados busquem outros autores que, de alguma forma, moldaram o escritor. Neste sentido, se costuma citar Algernon Blackwood, do visceral Os Salgueiros (The Willows, 1907), mas, na via inversa, o nome do galês Arthur Machen (1863 -1947) é bem pouco comentado. Mesmo tendo sido elogiosamente citado no famoso artigo de Lovecraft, O Horror Sobrenatural na Literatura.

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Curiosamente para um escritor que beira a obscuridade no Brasil, Machen tem uma coletânea publicada pela Iluminuras, em circulação desde a década passada. Para quem nunca ouviu falar até agora, ou nunca havia lido qualquer trabalho de sua autoria, é a oportunidade de descobrir um escritor interessantíssimo, além dos caminhos que ele apontou – ainda no século XIX – para o Horror Cósmico e a Weird Fiction dos pulps nas décadas seguintes. Sendo assim, Clark Ashton-Smith e Robert E. Howard também devem a ele.

O Terror tem quase duzentas páginas. Além da novela The Terror, que dá nome à edição, há um ciclo de pequenas histórias chamado Ornamentos de Jade (Ornaments in Jade). No entanto, os trabalhos que mais vão chamar atenção dos iniciados na literatura de Horror são O Grande Deus Pã (The Great God Pan) e A Novela da Chancela Negra (The Novel of The Black Seal). O livro ainda conta com um posfácio, trazendo uma breve biografia do autor, com detalhes que enriquecem e contextualizam os textos prévios. Por exemplo, o envolvimento de Machen, cujo verdadeiro nome era Arthur Llewellyn Jones, com a Ordem Hermética da Aurora Dourada, como colega de Aleister Crowley e de outros escritores, como o já citado Blackwood.

Descrevendo o indescritível

O Terror, de 1917, ainda parece assustadoramente atual. Com sua inspiração justificada pelo pânico e o pessimismo niilista decorrente da Primeira Guerra, ainda em curso naquele momento, Machen se vale do fio narrativo de uma investigação jornalística, enredando o leitor no mistério de uma onda de mortes sem qualquer explicação em uma localidade afastada no País de Gales. A paranoia dos locais e suas teorias criam a sensação de tragédia iminente, até um desfecho sutilmente questionável como verdade e levemente absurdo. Caberá aos leitores interpretarem as intenções da história à luz de sua época, mas vale refletir sobre como essa mensagem ainda é válida para o cenário de hoje.

Ao ler os contos na ordem da edição, saindo do cenário mais relativamente realista de O Terror, as pequenas narrativas que compõem o segmento Ornamentos de Jade podem provocar dúvidas. Alguns podem ficar confusos ao procurar os traços da geração seguinte de escritores do Horror, já que encontrarão pouca coisa ali neste sentido, além de um clima geral de estranhamento, remetendo mais ao Realismo Mágico latino-americano. Os grandes destaques estão logo a seguir.

O Grande Deus Pã, cujos segmentos foram escritos entre 1890 e 94, já exibe uma temática mais familiar. Com uma premissa que parte de um procedimento científico, Machen, inclusive, antecipa em três décadas a criação da lobotomia, em um experimento que busca revelar outro nível de realidade através de uma incisão no cérebro. “Ver o Deus Pã” é dito como definição do encontro com este outro plano, associação que parece estranha no início, mas faz mais sentido à frente.

A pobre moça submetida ao tal experimento é apenas o início de uma trama que se desdobra por anos, arruinando vidas em nome de um culto, o qual só se supõe a existência. Divindade misteriosa, sociedade secreta, símbolos indecifráveis e a busca pela verdade formam o arcabouço conceitual desta peça fundamentalmente influente da escrita fantástica. Esta concepção ambivalente de Pã, em um cenário vitoriano, costuma ser apontada também como inspiração para O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro.

Resenha de O Terror, de Arthur Machen

Arthur Machen (1863 – 1947)

A utilização da ciência como ponto de partida revela influência de Robert Louis Stevenson, mais precisamente com O Médico e o Monstro.  Já em A Novela da Chancela Negra, identificamos algo de Charles Dickens na trajetória de uma garota passando dificuldades em Londres, até receber uma oferta de trabalho como preceptora dos filhos de um professor. Este, por sua vez, encontra-se imerso em uma busca solitária por um mundo antigo, que acredita ser algo mais do que pura mitologia.

Com esta história fechando a coletânea, percebemos outro traço interessante de Arthur Machen. A ligação com sua própria terra natal, de onde assimilou um legado de folclore celta, devolvendo isso em sua obra com uma visão muito particular. Essa simbiose com o local de nascimento também nos lembra de outro britânico famoso das letras. Alan Moore, com seu A Voz do Fogo, certamente tem algo do colega galês, além, é claro, de outras excentricidades em comum.

Mas A Novela da Chancela Negra não é apenas uma declaração de amor a uma localidade. É uma narrativa que também lida com a procura pelo oculto. Revelar aquilo que parece tão distante, mas o que nos separa dele é tão tênue quanto um simples véu. É claro que, em se tratando do gênero em questão, as consequências de levantar esse véu podem não ser tão agradáveis. Mais uma vez, Machen nos brinda com a loucura sem causas facilmente definíveis, a obsessão pelo conhecimento e as tentativas de encontrar sentido em acontecimentos insólitos.

Um autor que merece e precisa ser divulgado

Com tanto peso nas gerações seguintes de escritores, ler Arthur Machen chega a ser obrigatório para qualquer fã de Lovecraft que se preze ou interessados em Literatura Fantástica. Longe de ser apenas uma curiosidade obscura, o autor tem uma obra de envergadura considerável e a edição nacional de O Terror prova isso a qualquer um que se disponha a ler.

Leia, compare e entenda um pouco mais sobre várias preocupações que rondavam o inconsciente coletivo mundial no início de século XX. É o mínimo para se fazer um pouco de justiça a uma obra que poderia e deveria ser mais conhecida. O medo que ela provoca é apenas um bônus, no fim das contas.

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