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Desenterrando Sad Hill – Cemitério dos sonhos!

Desenterrando Sad Hill mostra a reconstrução de um dos cenários mais icônicos do spaghetti western

A frase “eu amo esse filme” é dita com uma freqüência um tanto alta para tempos em que ser cinéfilo, para muitos, se resume a devorar o catálogo da mais popular plataforma streaming do mundo. Daquelas curiosidades difíceis de explicar, foi justamente na Netflix que muitos (inclusive esta que vos escreve) pôde ter acesso a um documentário sobre o verdadeiro amor pelo cinema. Ou melhor, por um filme. Melhor ainda: um filmaço!

Desenterrando Sad Hill (Sad Hill Unearthed), dirigido por Guillermo de Oliveira, tem como ponto de partida o encontro de cinco amigos apaixonados pelo clássico Três Homens em Conflito, filme que fecha a chamada Trilogia dos Dólares do diretor italiano Sergio Leone. Em 2014, ao lado de outros interessados em valorizar a região da província de Burgos, na Espanha, em que parte do longa foi filmado, eles criam a Asociación Cultural Sad Hill. Mas é em 2016, ano que marcou os 50 anos de lançamento do filme de Leone, que surge a loucura que conduz todo o documentário.

Sergio García Hernández, Joseba Del Valle, David Alba Romero, Diego Montero e Eugenio Alabiso resolvem restaurar Sad Hill, cemitério fictício onde ocorre o icônico trielo protagonizado por Clint Eastwood (o bom), Lee Van Cleef (o mau) e Eli Wallach (o feio). Quem pensou que o quinteto estava planejando transformar o local em um parque temático para receber multidões sedentas por uma foto ao lado do túmulo do desconhecido mais famoso do spaghetti western, se enganou. A reconstrução do cenário é movida pela paixão e, desde o primeiro momento, fica claro que os “empreendedores” querem a preservação em primeiro lugar.

Desenterrando Sad Hill

Enterrando os fãs

A odisseia que começa entre amigos nas horas vagas, com a limpeza do terreno e a descoberta das pedras organizadas pelo diretor de arte Carlo Simi e sua equipe, logo torna-se algo muito maior e surge a necessidade de mais mãos para ajudar. E mais dinheiro também. Problema resolvido de uma forma um tanto insólita: por meio do site oficial da associação, os fãs poderiam comprar, por um valor simbólico, um túmulo com seu nome em Sad Hill. Mas quem iria querer algo assim? Com certeza, um fã de spaghetti western. Se o prezado leitor ainda não consegue entender o significado disso, as respostas estão nas milhares de lápides vendidas e nas falas dos entrevistados de Desenterrando Sad Hill. Em determinado momento, um deles diz que visitar os cenários dos filmes que amamos é uma espécie de peregrinação. Para uma religião tão mágica como o cinema, é uma bela definição.

Cada um desses homens, na faixa dos 40 anos, relembra com brilho nos olhos a descoberta de Três Homens em Conflito e a importância do filme não apenas na formação cinéfila, mas no relacionamento familiar e até na escolha da profissão. Intercalado com esses depoimentos, gravados entre uma enxadada e outra no solo sagrado de Sad Hill, temos a presença dos diretores Joe Dante e Álex de La Iglesia, do músico James Hetfield (o Metallica abre seus shows com a maravilhosa “The Ecstasy of Gold”, da trilha do filme), do diretor de fotografia Sergio Salvati, o pesquisador Christopher Frayling, além de dois símbolos do cinema de Sergio Leone, o ator Clint Eastwood e o maestro Ennio Morricone. Todos apaixonados por tudo que a imagem de Sad Hill significa.

O diretor do documentário, que já havia realizado curtas ambientados no velho oeste, consegue equilibrar informação e emoção, sem esquecer de localizar o espectador. Afinal, nem todos sabem a revolução que a Trilogia do Dólar teve não apenas para carreira de Sergio Leone, mas para a história do cinema. Com o Código Hays caindo em desuso, uma geração acostumada a cowboys heroicos tinha a oportunidade de experimentar a violência crua do faroeste vindo da Europa, que acabou influenciando vários filmes americanos, em especial na fase crepuscular do gênero, como Meu ódio Será Sua Herança, de Sam Peckinpah, e Quatro Confissões, de Martin Ritt.

Desenterrando Sad Hill

Cemitério lotado

O ponto alto de Desenterrando Sad Hill, assim como o da maioria dos faroestes, é o duelo final. Duelo esse protagonizado pelos fãs e sua obra de adoração. Para comemorar os 50 anos da estreia de Três Homens em Conflito, os cinco amigos organizaram um dia inteiro de comemorações no agora restaurado Cemitério de Sad Hill. A festa, que incluiu uma orquestra tocando a trilha do filme e reconstituição de cenas, reuniu pessoas de todas as idades, famílias inteiras até. Isso porque a admiração pelo faroeste costuma ser algo passado de geração em geração e isso pode ser comprovado pelos momentos finais do documentário. A noite vai caindo e todos procuram seus lugares na enorme arena que um dia foi percorrida pelos três protagonistas.

Após uma pequena surpresa para os cinco heróis que refizeram Sad Hill (assistam, aqui não tem spoiler!), começa uma sessão ao ar livre de Três Homens em Conflito. Assistir a um dos filmes mais incríveis do cinema e, num breve olhar, se perceber rodeado pelas pedras que um dia foram pisadas por atores e figurante e cuidadas com o perfeccionismo de Sergio Leone para que estivessem nos lugares certos deve ser uma emoção tremenda. Guillermo de Oliveira conseguiu transmitir um pouco dela ao focar nos olhos que brilham a cada nova sequência que surge na tela. E são múltiplos: do primeiro encontro de alguém que não era nem nascido quando o filme estreou até os que não se cansam de ter um encontro marcado com os três homens em busca de ouro e fortuna.

Desenterrando Sad Hill saiu premiado de festivais importantes como Sitges Film Festival e o tradicional Almería Western Film Festival, o sonho de todo fã de faroeste. Prêmios são mais valorizados do que deveriam, mas neste caso eles são importantes, pois trata-se de uma obra bancada por seu próprio realizador. Talvez por isso ela tenha de sobra algo que move os fãs e não os grandes estúdios, que é a paixão por uma história. E poucas coisas são tão apaixonantes em uma tela grande quanto a poeira do oeste.

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