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Venom – Um filme dentro de outro!

Há duas propostas conflitantes em Venom

É curioso, mas Venom (Idem) reflete, de certa maneira, o drama de seu protagonista, o jornalista Eddie Brock (Tom Hardy, de Max Max: Estrada da Fúria, O Regresso , Dunkirk): enquanto o personagem principal se vê repentinamente habitado por um simbionte alienígena, tendo de enfrentá-lo para que os seus valores se imponham, o longa do diretor Ruben Fleischer (Zumbilândia, Caça aos Gânsteres) é genérico e constantemente sabotado por escolhas ruins, mas tem bons momentos cômicos e uma performance inspiradíssima de Hardy. É como um filme dentro de outro, em que a anarquia de uma proposta é sufocada pelas exigências narrativas de uma fórmula específica.

Crítica de Venom

Explico melhor: quando houve o anúncio de que Fleischer comandaria o filme solo de Venom, a notícia causou estranhamento. Conhecido pelo seu estilo e humor cartunescos, ele não parecia ser o sujeito mais apto para levar às telas a história de origem do famoso vilão. No entanto, é justamente por ser uma opção inusitada que o cineasta areja o longa, lhe dá um pouco de personalidade e produz as cenas que, dispersas num amontoado de lugares comuns e desdobramentos óbvios, gera a seguinte conclusão: sim, Venom tinha potencial para ser um bom filme.

Elementos como o flerte com os filmes de zumbis (a cena inicial e os instantes em que o vírus é transmitido de pessoa para pessoa), a sutil homenagem a O Enigma de Outro Mundo (o cachorro que está infectado), momentos divertidamente ingênuos (as interações entre Eddie e o alienígena), o desavergonhamento escancarado de certas cenas (é uma obra que, às vezes, não se desculpa por ser estúpida) e a falta de preocupação em recriar os discursos inspiradores dos filmes de heróis atuais indicam que existia um longa melhor parasitando o corpo narrativo de Venom.

Um outro elemento que reforça essa impressão é a atuação de Hardy. À vontade no papel e claramente se divertindo na composição do personagem, ele mostra ter timing cômico (um ator menos talentoso deixaria as caretas e gags visuais muito caricatas) e aproveita a chance para se entregar completamente, usando todo o seu corpo e transformando os aspectos invisíveis (como a presença do alienígena em determinados momentos) em algo palpável e articulado. Hardy sempre foi físico em cena, mas, em Venom, ele tem uma oportunidade rara de potencializar o conflito Jekyll Hyde de Eddie através de suas principais características como ator.

Crítica de Venom

Esqueceram da embalagem!

Entretanto, todos esses aspectos apontados estão jogados dentro de um roteiro formulaico, no qual a jornada do sujeito que descobre ter poderes especiais e precisa fazer algo para impedir a realização de algum plano maquiavélico é mais uma vez recontada. Até há uma certa subversão na manutenção da personalidade debochada do alienígena, mas a subtrama romântica (Michelle Williams, de Manchester À Beira-Mar, está totalmente desperdiçada no papel da ex-namorada) e o vilão com intenções diabólicas e complexo de Deus (como quase todos os vilões de filmes de super-heróis) comprovam que, em sua estrutura e objetivos comerciais, Venom queria ser mais do mesmo.

Com isso em mente, não restava muita coisa senão preencher o restante da história com cenas de ação corriqueiras (há poluição visual e excesso de cortes) e um clímax em que todas as etapas são facilmente previstas. Certa vez, o cineasta John Landis disse que os trinta minutos finais dos filmes de super-heróis são sempre iguais. Ele estava certo, mas, para completar, devia ter dito que essas similaridades não estavam presentes apenas no terceiro ato. Embora, às vezes, tente ser diferente, Venom confirma essa característica da pior maneira possível.

 

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