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Últimos Dias no Deserto – Demasiadamente Humano!

Últimos Dias no Deserto

No quarto capítulo do Evangelho de Mateus, a passagem dos quarenta dias de Jesus no deserto contém apenas onze versículos. Nela, vemos um homem que não hesita em nenhum momento frente às tentações que o Diabo lhe incita. Concisas, precisas e renitentes, as ações de Cristo confluem-se à forma rápida e objetiva da narrativa bíblica, não deixando qualquer espaço para ambiguidades de uma condição de provação.

Últimos Dias no Deserto (Last Days in The Desert) inicia-se com a apresentação de um cenário vasto e hostil, seguido da introdução da personagem de Jesus Cristo (Ewan McGregor) envolta numa condição de penúria. Frio, sede, cansaço, calor, dor, choro, riso, grito, desespero e solidão são elementos e ações que demonstram uma abordagem realista e desmitificadora que perpassará por todo o filme, criando, então, um Jesus demasiadamente humano.

A mesma humanidade atinge os que o rodeiam. Uma família, cujo patriarca dedica-se aos cuidados da esposa doente, da educação e do destino do filho único, encontra-se reclusa em circunstâncias que convencem o Messias a dedicar os seus últimos dias de jejum à ajudá-los na construção de uma casa. Ao mesmo tempo, o Diabo, também interpretado por McGregor, entre suas tiradas e reflexões, desafia Jesus a resolver os conflitos que ressoam da relação turbulenta entre o pai e o filho.

Últimos Dias no Deserto

O único equívoco do filme é deixar claro ao espectador a analogia entre a relação conflituosa do pai para com o filho e a angústia de Jesus diante dos desígnios do Pai. O diretor  e roteirista Rodrigo Garcia deveria ter sublimado alguns elementos do primeiro ato, para que assim descobríssemos por nós, no decorrer do enredo, este paralelo de um universo micro familiar, onde um filho anseia por liberdade, mas é incapaz de enfrentar o pai, com o macro universo da relação de Jesus com Deus, em que aquele, no preparo de seu destino fatal, se aflige com o silêncio e indiferença d’Este.

Se por um lado há esta subestimação, por outro o diretor deixa ao espectador a liberdade de refletir por que Jesus e o Diabo são interpretados pelo mesmo ator. Os diálogos entre os dois não se ferramentam do maniqueísmo encontrado na passagem do evangelho. Ao dizer a Jesus “Acha que é o único filho dele? Há outros”, há uma clara demonstração de uma mágoa de quem foi renegado. O Diabo é tão filho de Deus quanto Jesus e tenta convencê-lo de que o Pai “é uma rocha”, um ser raivoso, orgulhoso, prepotente e autoindulgente, que está levando o filho predileto para a cruz para salvar seres que “não precisam de nós para arruinarem suas vidas, fazem isto por conta própria”. Mesmo já tendo estado presente diante de Deus, a consciência do Diabo é tão deslocada quanto a do Messias, ironicamente se utilizando de uma moral implacável para colocar o criador na figura de bandido da história.

Últimos Dias no Deserto

Contudo, a película não faz proselitismo religioso. É um filme sobre nossa relação com o mistério. As sequências de planos abertos, em conjunto com um silêncio perturbador, dão o significado da solidão que enfrentamos diante de nossas agruras. Por mais que os diálogos soem como perguntas e enigmas, a narrativa afirma constantemente que Deus é inalcançável e incomunicável, estamos mais próximos do Diabo (e ele de nós) do que de Deus. Logo, as respostas estão dentro de nós mesmos. Tal reflexão fica evidente quando Jesus diz para si que está cansado de palavras, que é hora de atitude, ou quando o menino cria enigmas para sua própria diversão, como se refugiasse neles para se esquecer do pai opressor.

Últimos Dias no Deserto é um filme cuja poesia desemboca na espera e na busca dos humanos frente aos seus propósitos e destinos. Mesmo que os milênios passem no anseio de uma redenção prometida, o último plano do filme nos deixa a mensagem de que, em qualquer época, a humanidade sempre se defrontará com a espantosa e sublime vastidão que a cerca, ora se projetando nela como desígnio divino, ora se sentindo diminuída pelo enigma que atribui a si mesma.

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