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Torre das Donzelas – A sororidade e o cárcere!

Documentário Torre das Donzelas mostra o cotidiano da ala feminina de uma prisão durante a ditadura brasileira

Perder a liberdade é o medo de todos, até dos que se dizem livres. Isso porque poder sair e voltar para casa a hora que bem entender, ler e falar o que quiser e se mostrar para o mundo da forma que mais nos deixa confortáveis é uma dádiva que, mesmo quem está longe das grades, muitas vezes não consegue experimentar. Torre das Donzelas, documentário de Susanna Lira que já rodou vários festivais no Brasil e no mundo, chega aos cinemas dando voz às lembranças das mulheres que, há 40 anos, dividiram as celas da ala feminina do Presídio Tiradentes, em São Paulo.

Crítica de Torre das Donzelas

O local, que ficou conhecido pelo título do filme, abrigou presas políticas como a ex-presidente Dilma Rousseff e tornou-se um reduto de resistência e aprendizado para suas habitantes. Susanna Lira optou por mesclar o formato mais tradicional do documentário, com depoimentos intercalados de ex-presas de diferentes idades e realidades, com breves trechos de ficção que reproduzem alguns momentos narrados pelas entrevistadas. Apesar da ótima reconstituição de época, que resultou num estúdio transformado num apanhado de vários pontos do presídio, Torre das Donzelas cresce mesmo quando esquece a parte ficcional e leva suas personagens para este espaço.

(Confira também as críticas de Midsommar: O Mal não Espera a Noite e Era Uma Vez…Em Hollywood!)

A união das memórias intensas e, muitas vezes, violentas vividas na Torre transbordam quando essas mulheres retorna aquele que foi o teto sobre suas cabeças durante uma boa parte de suas juventudes. A sensibilidade da diretora, um ponto sempre presente em seus filmes, permite que nem só dos momentos de tortura e tristeza se faça a reconstrução das histórias. Óbvio que é impossível ficar imune ao se reencontrar um local onde a dor imperou, mesmo que não fosse na própria pele, mas há uma preocupação aqui em deixar sempre bem exposto que estamos tratando de mulheres. Menstruação, gravidez, prazer, machismo e vaidade estão por todo o lado, sob diferentes óticas. A imersão permite que o espectador também adentre naquela torre reconstruída, onde intelectuais aprenderam a cozinhar e códigos foram inventados para que, mesmo longe das ruas, a luta das “donzelas” não fosse interrompida.

Cada uma com a sua torre

Os primeiros momentos de Torre das Donzelas mostram cada uma das entrevistadas desenhando em um quadro como era o espaço que elas habitavam dentro do presídio. É incrível perceber que cada uma apresentou uma torre diferente, com mais ou menos detalhes, sublinhando diferentes aspectos da arquitetura de acordo com os momentos vividos naquele local. A memória é uma ilha de edição, já dizia o poeta Waly Salomão. Percebemos que os traços de cada uma retratam o que ficou dentro delas daquele período único de suas vidas.

Crítica de Torre das Donzelas

O retrato de um local cinza e sombrio que se pode ter de uma cadeia se rompe. Amparadas pelas raras, porém bem aproveitadas, visitas de familiares e amigos, as donzelas construíram um reino quase encantado dentro das quatro paredes que as impediam de batalhar pelo fim da ditadura no nosso país. Livros eram objetos de desejo que passavam de mão em mão com cuidado. Desde lá, era sabido que eles eram armas poderosas. Desfiles de moda, partos e até declarações de amor habitaram aquele lugar com beliches, mesas e cadeiras que, com pequenos ajustes, esse grupo de mulheres transformou numa espécie de lar.

Torre das Donzelas peca um pouco por dar atenção às reconstruções de algumas cenas que já tocam pelo simples fato de serem contadas com vozes fortes, porém embargadas. Mas isso não diminui a importância do documentário para registrar a importância das mulheres na luta contra a repressão do governo ditatorial que dominava aqueles anos. A resposta de Dilma Rousseff, ao ser perguntada sobre a suposta soberania dos militares por meio da tortura, resume o jogo: “eles perderam. Fomos nós que ganhamos a luta contra a ditadura.” Nem a farda, nem o ilusão de fragilidade do sexo feminino impediram que as donzelas fizessem a sua parte. Grades e cadeados não são suficientes para que uma mulher pare de lutar. Nem na arte e nem na vida.

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