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Sete Minutos Depois da Meia-Noite – Amadurecimento e aceitação!

Sete Minutos Depois da Meia-Noite

Sete Minutos Depois da Meia-Noite

Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls) pode soar como um filme infantil padrão, contando com uma criança solitária que cria um amigo fantástico, que a ajuda a esquecer dos problemas que enfrenta no mundo real. Sim, ele segue alguns padrões dessa fórmula, mas o novo filme do espanhol Juan Antonio Bayona (O Orfanato e O Impossível) se mostra muito maduro, não utilizando a fantasia para iludir o espectador, mas para levá-lo junto com o protagonista a uma jornada de amadurecimento.

Baseado no livro de Patrick Ness, que assina o roteiro, o protagonista é Conor (Lewis McDougall), um solitário menino de 13 anos que se vê em um momento duro da vida: sua amorosa mãe (Felicity Jones) está com câncer em fase terminal; é constantemente atacado por garotos da sua classe; seu pai (Toby Kebbel) é ausente e irresponsável e – para completar – tem um péssimo relacionamento com a sua rigorosa avó (Sigourney Weaver). Uma noite, o menino percebe que tem uma voz lhe chamando e descobre que ela pertence a um Monstro (Liam Neeson), que diz que vai contar três histórias a Conor e que o rapaz deve lhe contar uma última. Auxiliado pelo Monstro, Conor aprenderá sobre a dura realidade da vida.

Sete Minutos Depois da Meia-Noite

O primeiro ponto que merece destaque no roteiro de Sete Minutos Depois da Meia-Noite é a utilização de um ponto de partida comum para histórias infantis, mas evitaando fazer mais do mesmo com a fórmula. Como já foi dito, o filme não ilude os problemas de Conor com a fantasia, pois o objetivo da criatura não é confortar o menino, mas sim instruí-lo para que amadureça e entenda as dificuldades da vida. Só prestar atenção nas histórias contadas pelo Monstro: todas falam sobre como o mundo não é preto no branco e que as pessoas não são apenas boas ou más. Que há gente boa que faz coisas terríveis e vice-versa. Essa lógica pode ser vista através da vida do menino e seu relacionamento com a sua avó, pois, por mais que ela seja rigorosa, não significa que não há amor entre eles. O mesmo para o seu pai ausente e desregrado. E essas histórias não são contadas com morais óbvias, fortalecendo o texto.

Outro ponto forte na escrita de Ness está na verossimilhança de seus personagens. Todos são críveis, evitando a caricatura, principalmente Conor. Seria fácil mostrá-lo como uma caricatura de uma criança birrenta, mas o roteiro acaba criando um tipo que o público acaba compreendendo, como qualquer criança. O mesmo para os adultos que têm uma função muito específica no filme. Cada um deles representa uma característica que é importante para jornada de protagonista: amor (Mãe), responsabilidade (Pai) e disciplina (Avó).

Se o roteiro demonstra esse grau de amadurecimento, o mesmo pode ser dito da direção de J. A. Bayona. Acompanhando o acerto de Patrick Ness, o espanhol evita uma direção que vai para o óbvio. O tom se mantém pesado durante todo filme, com uma fotografia que parece que as cores estão sendo drenadas. Até mesmo quando o Monstro aparece para contar suas histórias, não há uma variação desse tom. Mesmo com essa ambientação, o trabalho de Bayona é sutil e muito delicado, evitando o melodrama excessivo. Outro ponto que mostra a inteligência do espanhol está nos planos onde deixa clara a solidão de Conor. Ao invés de deixar o menino no canto de baixo do quadro, o rapaz fica fora dele, o que faz sentido, já que seus colegas dizem que ele é invisível. A utilização do plano plongée – de cima para baixo – também merece destaque, mostrando Conor perdido ao meio das outras crianças na escola. É um trabalho de direção seguro e inteligente.

O elenco está ótimo. Como já dito, os papéis dos adultos têm sua razão de ser e os atores se entregam a essas funções, com atuações muito sinceras e profundas. Os destaques ficam por conta de Lewis MacDougall e a voz de Liam Neeson. O primeiro por ter um olhar expressivo que foge do clichê da criança fofa. Não é apenas o roteiro que deixa Conor como um personagem verossímil, já que muito disso se deve à atuação de MacDougall. Além do olhar expressivo, o menino demonstra presença de cena e carisma, conseguindo interagir com atores muito mais experientes que ele. Um ótimo trabalho que mostra que esse rapaz merece atenção. Já a poderosa voz do veterano Liam Neeson dá camadas ao Monstro. Além da imponência, ela consegue variar entre o ameaçador e o sábio, evitando que seja uma figura apenas amigável. Mesmo só com a voz, Neeson mostra que é um ator de respeito.

Sete Minutos Depois da Meia-Noite

Pode-se dizer que o único problema do Monstro está no efeito especial que dá vida a ele. Por mais que ele seja rico em detalhes, ficando na escuridão boa parte do tempo, o efeito acaba soando muito artificial em certos momentos, principalmente quando ele fica bravo e seus olhos e seus nervos ficam alaranjados. Isso acaba chamando atenção para o efeito pouco convincente e parece que Lewis MacDougall está contracenando com um espaço vazio. O espectador vai perceber esses momentos. Fora esses trechos, o resto é muito bem pensado, com destaque para as sequências de animação que acontecem enquanto as histórias são contadas. A mistura de 3D com aquarela rende um visual muito bonito.

Para completar, há uma excelente trilha composta por Fernando Velázquez. Complementando a história, consegue variar entre o emocional e o fantástico, tudo isso só utilizando instrumentos clássicos. É um trabalho magnífico e sensível do compositor, que funciona muito bem no filme.

Enfim, Sete Minutos Depois da Meia-Noite é um dos melhores filmes da safra recente. Maduro, simples e emocionante, ele revigora certas fórmulas já estabelecidas e nos entrega uma bela surpresa. Não sei se é muito otimismo, mas espero ser surpreendido mais vezes assim em um futuro próximo.

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