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Rafiki – Amor e resistência!

Primeiro filme queniano exibido no Festival de Cannes, Rafiki não tem apenas valor cinematográfico

Motivos para um filme chamar atenção existem muitos, mas nem todos são de origem cinematográfica. No caso de Rafiki, segundo longa-metragem da diretora queniana Wanuri Kahiu, a curiosidade do público e da crítica surgiu por conta de sua temática: o amor entre duas adolescentes. Onde está a novidade, muitos leitores devem estar se perguntando. No país em que o filme foi rodado é a resposta.

Crítica Rafiki

O Quênia tem uma legislação extremamente conservadora em relação aos direitos da comunidade LGBTQ. Para se ter uma ideia, as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo são penalizadas com prisão pelas leis quenianas. Logo, num lugar como esse, narrar a história de um relacionamento entre mulheres é mais que uma proposta, mas um ato de resistência. Ao ser exibido no Festival de Cannes, algo que o cinema queniano jamais havia experimentado, Rafiki causou comentários dos mais variados, mas todos tiveram uma passagem sobre a ousadia de sua equipe.

Protagonizado por duas jovens e talentosas atrizes, a história se passa quase toda na periferia de Nairóbi, onde Kena (Samantha Mugatsia) precisa lidar com a relação conflituosa entre seus pais recém-separados. Paralelo à isso, ela se vê atraída por Ziki (Sheila Munyiva), uma garota do centro da cidade, filha do principal rival político de seu pai. Em pleno período eleitoral, a amizade das duas se acentua e ambas já não podem disfarçar seus sentimentos. Mas se amar alguém já não é uma tarefa fácil, amar alguém do mesmo sexo no Quênia é uma verdadeira odisseia.

(Quer fugir das produções americanas? Confira a crítica de O Mistério do Gato Chinês !)

Inspirado no conto Jambula Tree, da escritora ugandense Monica Arac de Nyeko, Rafiki investe na linguagem de videoclipe e nos tons de neon nos cenários e nos figurinos para contrastar com o drama de suas personagens centrais. Para os olhos (e também os ouvidos, pois a trilha sonora é pop e surge sempre no momento certo), é um deleite, em especial as cenas de amor entre Kena e Ziki. Porém, o encanto causado pelas escolhas visuais da diretora ocupam um espaço exagerado e acabam encobrindo a crítica social ao qual se propõe o roteiro. Roteiro esse que sofre com a pouca densidade dramática dos coadjuvantes. Os pais das protagonistas, que poderiam ter um peso importante no desenrolar da história, surgem na tela para soltar frases feitas e um que outro gesto de afeto.

Crítica Rafiki

Cores do amor

A também uma preocupação grande em apresentar a cidade de Nairóbi como um lugar colorido, talvez para traçar um contraste com as leis severas e o preconceito da população. Não que seja função do cinema levantar bandeiras e discursar a todo momento, mas a situação de suas personagens pedia uma dedicação maior para os momentos de violência causados pela homofobia. Eles existem na trama, mas são mostrados com pressa, não permitindo que as interpretações do elenco sejam aproveitadas na sua totalidade.

O ponto positivo na história de Rafiki fica por conta da abordagem nada fetichista da relação de Kena e Ziki. Há delicadeza nos planos e uma preocupação em mostras mais a atmosfera de amor do que o sexo em si, resultando em cenas que poderiam servir de exemplo de abordagem de relacionamentos lésbicos para alguns diretores por aí. É justamente essa atmosfera envolvente que prende o espectador e faz com que ele simpatize com as duas garotas. O problema é que nadamos no raso dessa relação. Ao abrirmos a embalagem bonita, pouco conteúdo forte e bem construído nos é oferecido.

Ao final de Rafiki, fica a sensação que estivemos diante de um filme belo, do trabalho de uma diretora promissora, mas que algo ficou faltando. Ousar ao ponto de bater de frente com a legislação pesada de um país e oferecer pouco da complexidade que é viver certos amores dentro dele é o grande pecado do longa. O que não diminui sua importância para a história do cinema do Quênia, mas coloca uma ansiedade extra sobre as próximas produções que irão se aventurar por temas proibidos naquele cenário.

Todos as falhas, por menores que sejam, não desmerecem a conquista de Rafiki por essas terras brasileiras. Após ser exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e ter sessões extras lotadas no Festival de Cinemas Africanos em Porto Alegre, o filme chega ao circuito comercial como uma pérola em meio a tantos lançamentos comerciais que mal oferecem diversão.

 

 

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