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Personal Shopper – Sobrenatural, ma non troppo!

Mediunidade e Kristen Stewart em Personal Shopper 

Pois é. De vez em quando, a gente tem que pagar a língua. Não é porque alguns artistas tem capacidades limitadas, e/ou às vezes são insípidos, que não podem encontrar um nicho para aplicar seu talento. Pois Kristen Stewart, a berinjela que anda e fala – e só – que protagoniza a agonizante série Crespúsculo, parece que encontrou seu nicho na figura de Olivier Assayas, com quem reedita a irrepreensível parceria de Acima das Nuvens, na nova produção do diretor, o suspense sobrenatural – ou não – Personal Shopper (idem).

Personal Shopper, com Kristen Stewart

Personal Shopper

Esse “ou não” tem muito a ver com a proposta de Assayas para o filme – apresentar uma espécie de versão “realista” do espiritismo, na figura de uma médium relutante – Maureen, interpretada por Stewart. Essa médium acabou de perder seu irmão gêmeo, Lewis, de quem era muito próxima. Desolada pela dor da perda, ela se isola no casarão onde viviam, pois Lewis, sabendo da “habilidade” de sua irmã, promete retornar para informá-la se tudo está bem, podendo assim deixá-la em paz.

É preciso ressaltar que essas aspas em “habilidade” não tem a menor intenção de desprezar a crença da personagem. Novamente, tem a ver com o contexto do filme, que joga – junto com o espectador – entre esse limiar da crença e da loucura. Sabendo da condição de dor extrema da personagem, muitos dos rangidos e ruídos que ouvimos – ou mesmo as “provas” mais contundentes que vão surgindo – são colocadas em xeque, pois não sabemos até onde vai a realidade espiritual da trama, e/ou se ela é estritamente uma farsa auto-induzida.

Assim, o amigo leitor pode pensar tratar-se de um suspense com toques sobrenaturais, uma premissa um tanto preguiçosa e padrão. Mas esse sentimento de previsibilidade é quebrado pela extrema frivolidade que cerca a vida cotidiana de Maureen. Sendo uma pessoa introvertida, pouco dada a grandes demonstrações de afeto – perceba como a personagem cai como uma luva para Stewart – Maureen trabalha como uma personal shopper, uma pessoa encarregada de fazer compras para pessoas estupidamente ricas, que não tem o tempo ou a disposição para isso.

Esse contraste entre a extrema carga emocional particular da protagonista e a futilidade brutal de trabalhar como um manequim ambulante – experimentando e comprando roupas e acessórios caros que ela nunca poderia ter – para uma pseudo-celebridade, é o campo onde o jogo entre a busca de Maureen pela alma perdida de seu irmão, e a busca por uma identidade própria após sua partida, se desenvolve. É como se, de muitas formas, a ausência de seu irmão a redefinisse, tanto em seu micro-cosmo, quanto em seu macro.

Personal Shopper, com Kristen Stewart

E o texto de Assayas nos prende a atenção justamente por brincar com o pretenso glamour do dia-a-dia de Maureen, cuja frugalidade acaba potencializando os breves momentos de terror que o flerte com um mundo espiritual desconhecido – sempre um prato cheio para jump scares e cenários lúgubres e estáticos – provoca. É como se Assayas soubesse que mais aterrorizante que mergulhar de cabeça em um mundo de espíritos hostis e malignos, é a ideia de que isso possa ser “real”; novamente, na medida em que acreditamos nisso.

A crueldade de Assayas com seu espectador e com sua protagonista não para por aí. O que dissemos até agora é apenas a moldura principal de um quadro muito maior e mais complexo. Porque o nosso desconhecimento  – a despeito da crença – sobre como o sobrenatural “funciona” é que é o verdadeiro foco do diretor. Ele habilmente nos induz a questionar o nosso próprio senso narrativo, virando o jogo diversas vezes com pistas falsas, mas que não são artificiais – ele na verdade, está buscando emular em nós a confusão vivida pela protagonista.

Nesse aspecto, é de se louvar a cinematografia de Yorick Le Saux. Esse contraste entre o horror sobrenatural e o drama glamorizado da vida na Cidade-Luz não funcionaria tão bem se isso não fosse visualmente destacado. E, mais importante, se não houvesse fluidez na transição eles. Pois bem, há. Em certos momentos, quando se pensa nas cenas no casarão e nos takes em Paris e Londres, parece que pensamos em dois filmes diferentes. Mas quando se lembra da experiência em si, ela é tão natural que isso não incomoda. Ao contrário, enriquece.

Personal Shopper, com Kristen Stewart

Sobre a atuação da moça

Agora – finalmente – sobre a atuação de Stewart. Normalmente, este deprimente colunista se priva de falar especificamente sobre as atuações, a não ser quando elas merecem destaque. Pois é. Embora ainda esteja muito longe de ser uma artista de habilidade memorável, Kristen Stewart aos poucos parece encontrar personagens que conseguem refletir algum aspecto do que existe em seu semblante. Sua Maureen é envolvente à sua própria forma, pois a dor da perda parece faze-la agonizar a cada instante em cena, e a atriz transmite essa agonia. Notável.

Guardadas as devidas proporções, Personal Shopper parece uma mistura de elementos de Lars Von Trier (leia as críticas de Ninfomaníaca Vol. 1 e Vol. 2) – sem a encheção de saco que sua contínua necessidade de fazer terapia em escala global com seus filmes provoca – com toques de Alfred Hitchcock, na formatação do suspense de caráter quase estritamente narrativo. É um filme multifacetado, sem ser esquizofrênico, como muito se vê por aí. (Por favor, amigo leitor, eu não estou comparando esse filme com uma obra de Hitchcock. Na dúvida, volte para as quatro primeiras palavras desse parágrafo.)

Ademais, uma crítica é uma crítica, e o que não funciona também precisa ser apontado. E sua falha é justamente seu maior mérito – embora jogue com essa indecisão entre o sobrenatural e o comprometimento da sanidade provocado pela dor, Assayas se recusa até o fim a determinar o que realmente está acontecendo. E isso não seria problema algum, se fosse somente esse o escopo do filme. O problema é que, ao término da sessão, essa indecisão, diminui muito do potencial de surpresa da trama, dando a impressão de um certo excesso de cautela.

Personal Shopper, com Kristen Stewart

Longe deste ridículo colunista querer dizer ao diretor o que fazer, mas o fato é que Assayas dedica um bom tempo de filme a falar sobre a questão do espiritismo – sendo até bastante didático em muito momentos sobre o assunto – o que nos leva a crer que isso será relevante para a trama. No final, a indecisão do filme sobre a que ponto no seu caminho ele chegou não é uma quebra de expectativa que choca ou surpreende – é apenas uma quebra de narrativa, nos fazendo questionar, sem muito embasamento no próprio filme, o que realmente acabamos de ver.

Personal Shopper chamou bastante a atenção em Cannes, e com razão. É um novo esforço – no geral – bem sucedido de Oliver Assayas, é mais um passo adiante de Kristen Stewart na sua consolidação como uma artista de cinema relevante, e é um filme com muitos aspectos diferentes do habitual. Surpreendente até, mesmo que pudesse ter sido muito mais. Entretanto, como já dissemos, a falta de contundência que a trama de alguma forma promete, é compensada pela beleza da cinematografia e pela atuação consistente de sua protagonista.

É aquele velho ditado da vovó – os melhores perfumes vem nos menores frascos. Ou, ao menos, nos menos chamativos. Personal Shopper é um filme que pode facilmente passar batido, mas não deveria. Não tanto porque ele é excelente como filme, mas porque o conjunto de aspectos interessantes dele vale a pena aos menos uma verificada. Pela curiosidade de ver um bom filme que ao menos se esforça para nos surpreender.

Como Stewart está me surpreendendo. E eu realmente não acreditei que um dia fosse escrever isso.

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