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Pequena Grande Vida – A sustentável leveza do ser!

Pequena Grande Vida é o filme mais ousado de Alexander Payne

É irônico que Pequena Grande Vida (Downsizing) seja o filme mais radical de Alexander Payne. Lendo a sinopse ou assistindo ao trailer, não dá para acreditar que a história de Paul Safranek (Matt Damon, de A Grande Muralha e Jason Bourne), um homem de meia-idade comum que decide diminuir a um nível celular, contenha ousadias narrativas. Em essência, parece ser mais uma daquelas produções hollywoodianas em que os realizadores partem de um argumento curioso para entregar uma obra ordinária e idêntica a tantas outras. O fato de ser uma comédia tampouco ajuda para que essa sensação se dissipe (a qualidade do gênero nos dias atuais é muito baixa).

Crítica de Pequena Grande Vida

Pequena Grande Vida

Até a comparação automática com As Viagens de Gulliver, clássico da literatura de língua inglesa, não contribui em quase nada para uma melhor impressão (basta conferir a terrível adaptação feita recentemente para o cinema). No entanto, Alexander Payne é um sujeito inteligente e, sozinho, colaborando com outros ou ao lado do seu parceiro de trabalho de longa data, Jim Taylor (com quem escreveu Ruth em Questão, Eleição, Sideways – Entre Umas e Outras, As Confissões de Schmidt e o longa atual), quase sempre entregou bons roteiros, até mesmo nas obras em que resultado final ficou aquém.

Felizmente, Pequena Grande Vida possui um bom guião e uma realização condizente com o potencial presente no texto. O filme começa simples, apresentando os personagens, os seus dilemas, a realidade modesta na qual vivem e o mundo paralelo das miniaturas, constituído de uma enorme instalação científica na qual uma cidade foi construída para todas as pessoas que desejam fugir da própria realidade para serem ricos e importantes num universo diminuído. Nessa fase inicial, tudo é introduzido de uma maneira leve, divertida e com fusões de montagem que, aos poucos, criam uma sensação de imersão e sonho.

É só quando o protagonista e Audrey, a sua esposa (interpretada por Kristen Wiig, de Mãe!), iniciam o processo de miniaturização que surge uma atmosfera inquietante, a qual se manterá presente, juntamente com outra mais despretensiosa, por toda a narrativa. Desse momento em diante, ao passo que Payne e Taylor criam situações que fogem completamente do esperado e estabelecem uma complexa rede de críticas e comentários ácidos, a percepção de que veremos um filme genérico se afasta cada vez mais. Torna-se claro que a comédia é o ponto de partida de um desdobramento narrativo muito mais complexo e que esse mundo criado pelos homens não é tão perfeito quanto parece.

A cena em que Paul e Audrey têm os seus cabelos raspados e são levados posteriormente a uma sala, por exemplo, gera um paralelo imediato com os campos de concentração nazistas e as câmaras de gás. Na verdade, há até um extrapolamento disso, uma vez que, em ambos os casos — ou seja, tanto na época da Segunda Guerra Mundial quanto nos anos em que o filme se desenrola — a ciência avança sem se importar com a moralidade de suas conquistas ou com os seus efeitos práticos. São conquistas técnicas desconectadas de valores e noções de humanidade.

Crítica de Pequena Grande Vida

Logo depois, quando se descobre que a cidade miniatura possui os mesmo problemas do nosso mundo — como fortes disparidades econômicas, sentimentos ruins, solidão etc. — , nota-se uma constatação precisa sobre a inevitabilidade da dor e imperfeição humanas. Um dos erros mais repetidos nos últimos séculos (e que dá as caras novamente no filme) é a insistência do Homem em criar paraíso terrestres, os quais sempre se transformam em lugares nos quais a injustiça, a pobreza e o sofrimento são ainda maiores. Inevitavelmente, as pessoas buscam formas de escapar dessa triste realidade.

Por um lado, os responsáveis tentam manter a calma dos mais pobres dando-lhes entretenimento barato (a imensa televisão no meio do conjunto habitacional é um símbolo da antiga política do pão e circo), por outro, os mais abastados fogem da tristeza abraçando um comportamento hedonista. No mundo diminuído, há inúmeras festas e consumo de drogas. Esse escapismo é muito bem representado na cena em que, caminhando cabisbaixo pelo apartamento do libertino Dusan Mirkovic (Christoph Waltz), Paul ingere drogas que lhe foram dadas por uma desconhecida e, num certo momento, através de efeitos digitais, a imagem do que estava lhe causando dor é rapidamente englobada por cores fortes e vivas. Uma fuga lisérgica, em outras palavras.

Por fim, esse desenvolvimento leva a duas outras críticas: uma direcionada à materialização do homem e outra ao fatalismo da climatologia. A primeira se encontra no próprio procedimento científico, já que reduzir o homem ao seu nível celular é, simbolicamente, tomá-lo somente pelo que existe de corpóreo nele, equívoco que é perfeitamente criticado no terceiro ato filme. Já a segunda repete a amoralidade científica ao introduzi-la numa comunidade rural que acredita ser necessário construir uma nova arca de Noé para evitar o fim dos tempos. A seleção das pessoas, claramente, é feita de acordo com um princípio arbitrário.

Crítica de Pequena Grande Vida

Um homem atrás do seu sonho

No meio disso tudo, funcionando como o elo de ligação entre o espectador e a história, é onde se encontra Paul, sujeito pacato que, mesmo diante de todas essas imperfeições sociais, econômicas e culturais, ao encontrar uma garota peculiar, abandona os princípios que o tornaram infeliz e caminha em direção da realização do seu sonho: ser um médico, ou melhor, curar as pessoas. Dessa maneira, há um retorno aos fundamentos do protagonista, àquilo que o define, mas não enquanto ser social, mas como humano e indivíduo.

Numa realidade que é quase idêntica à nossa, Paul precisa se deparar com o que de horrível existe no que mais prezava para descobrir as únicas coisas que realmente importam: o amor (a Bíblia entre Paul e Ngoc, o seu interesse romântico, é um símbolo poderoso disso) e a sinceridade interior. Quando se chega ao centro, tudo o que é periférico perde a importância. E é exatamente esse o caminho percorrido por Pequena Grande Vida, de uma maneira estranha, é verdade, porém genuína e simples (no melhor sentido da palavra).

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