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Papicha – A forte (e necessária) poesia argelina!

Bem recebido no Festival de Cannes, Papicha une delicadeza, denúncia e ótimas atuações

Quem foi adolescente por essas terras nos anos 90, quase sempre relembra esse período como repleto de rebeldia. O movimento grunge está aí para não nos deixar esquecer. Mas após uma sessão de Papicha, filme de estreia em longas-metragens da diretora Mounia Meddour, quem se achava revolucionário nessa nem tão distante década, vai repensar seus conceitos. Exibido na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes deste ano, a produção foi recebida de forma calorosa pelo público e atiçou a curiosidade de cinéfilos de várias partes do mundo.

Crítica de Papicha

Exibido na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e entrando no circuito comercial  a partir do dia 31, Papicha promete agradar o público jovem, em especial as espectadoras e não apenas pela identificação com o gênero da protagonista. Estamos um nível acima no quesito envolvimento. Nedjma (Lyna Khoudri), é uma estudante universitária que se equilibra entre o amor por seu país natal, a Argélia, e os prazeres vindos do Ocidente. A cena de abertura, com ela e a amiga Wassila (Shirine Boutella) trocando de roupa dentro de um táxi para ir à uma boate, é envolvente e, em poucos minutos, somos conquistados pela sede de viver daquelas garotas. É quando a diretora aperta pela primeira vez o botão de alerta em seu roteiro.

(Confira também as críticas de Wasp Network e Amazing Grace !)

Numa blitz, Nedjma e Wassila, antes animadas com a noite que está só começando, se cobrem com o véu islâmico, num instinto de sobrevivência. É a primeira das muitas vezes em que as roupas adentram na história e passam a fazer parte da narrativa. Nedjma e a irmã, Linda, costuram modelos de vestidos à moda ocidental e os vendem para as amigas nos banheiros das baladas, único local seguro para aproveitarem a liberdade de usarem o que quiserem, serem quem quiserem em um país que estava em plena Guerra Civil (que durou até 2002). Além dos frequentes ataques terroristas, o comportamento, em especial das mulheres, passou a ser controlado pelo estado islâmico. Jovens abandonaram as universidades e trocaram roupas comuns por véus cada vez maiores. E são eles que fazem de Papicha um exemplar único dentro de seu nicho.

Crítica de Papicha

Sem silêncio e sem véu

Após a morte da irmã, uma das cenas mais intensas do longa, Nedjma se percebe cercada, com sua liberdade de ir e vir sendo podada em casa esquina. Quando a repreensão passa a vir também de suas amigas, assustadas com as ameaças presentes em cartazes e no discurso de outros jovens como ela, é no véu que impede que a mulher seja vista que a garota de brilho nos olhos encontra um caminho para a liberdade. A sua e a das mulheres que a cercam. Decidida a organizar um desfile de modas em sua universidade só com roupas feitas com hijab, o tecido do qual são feitos os véus que cobrem um número cada vez maior de garotas na época em que o filme se passa.

Papicha tem atmosfera e cenas aparentemente simples, ganham um frescor dentro do contexto da trama. A simples tarefa de preparar bolinhos ou tingir tecidos é mostrada por uma câmera delicada, quase cúmplice. Até nas sequências violentas, onde o barulho dos tiros retumba e parece quebrar a magia que uma simples conversa honesta entre mulheres pode ter, Mounia Meddour mostra um controle de seu estilo, um conhecimento profundo sobre a história que está contando. Aliada a atuação maravilhosa de Lyna Khoudri, sempre segura, seja no humor ou nas tomadas de maior emoção, o resultado é pouco mais de uma hora e quarenta de imersão na vida de Nedjma e suas amigas, uma união simbólica e necessária para se continuar viva nas ruas da Argélia dos anos 90.

Crítica de Papicha

Não bastasse a intensidade e a beleza cênica a que somos apresentados em Papicha, sair da sala de exibição dá sequência à experiência. Sabemos que não estamos em um país em guerra (será?) e que, por mais que o patriarcado ainda esteja aí e algumas pessoas insistem em reprimir o outro pelo simples fato de ser diferente, sentimos Papicha pelas nossas ruas, ambientes de trabalho e estudo e até dentro de nossas casas.

Discreta ou assumida, a repreensão existe. Mas, como Nedjma bem diz em um dos melhores diálogos do filme, onde um garoto chama de “nuas” duas garotas usando jeans e camisetas, a melhor resposta para o preconceito é a indiferença, e não a provocação. Se a ignorância de alguns homens (e mulheres também) acredita que o que vestimos é uma porta de entrada para que sejamos assediadas, Papicha nos ensina que não devemos baixar os olhares e seguir em silêncio. É no grito, e na esperança cheia de cicatrizes, porém nunca diminuída, que devemos insistir.

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