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O Sono da Morte – Adultos não sabem sonhar!

O Sono da Morte

Freud dizia que os sonhos são a satisfação disfarçada de algum tipo de desejo. Se por um lado os desejos fazem de nós uma espécie rumo à evolução, por outro são armadilhas que podem pôr a perder tanto a psique individual quanto a estrutura da civilização. Eis o mote central de O Sono da Morte (Before I Wake): desejos irracionais e ilimitados são uma ameaça capaz de destruir o próprio sentido daquilo que é desejado. Misture-os com um processo de luto inacabado e, então, está constituído não apenas um labirinto psíquico, mas uma obsessão autodestrutiva.

O Sono da Morte

A narrativa se inicia com um cliffhanger, uma situação limite em suspensão, em que Cody (Jacob Tremblay) se encontra dormindo, na hora em que Whelan (Dash Mihok) aparece suado e choroso no quarto, decidido a atirar no garoto, enquanto da escuridão há uma força sobrenatural para impedir o assassinato. Com um corte súbito, somos apresentados aos futuros pais adotivos de Cody, Jessie (Kate Bosworth) e Mark (Thomas Jane), que iniciam uma relação carinhosa com o menino até descobrirem o motivo dele não querer dormir, pois seus sonhos se transformam em realidade física para os que estão ao seu redor. Jessie, ainda não recuperada da morte de seu filho, Sean (Antonio Evan Romero), cria incentivos para que Cody sonhe com este a fim de revê-lo.

É aqui que aparece a habilidade do diretor Mike Flanagan de localizar o espectador dentro de uma trama entrelaçada com psicanálise, surrealismo e suspense. Esta, além de aparentar-se confusa, se configuraria também como inverossímil no próprio universo construído. Para que tal confusão não ocorra, Flanagan nos situa a partir do ponto de vista de Cody. Nada mais simplificador e estratégico do que um fator aterrorizante e complexo visto sob o olhar inocente de uma criança. Por mais que a angústia de Jessie nos traga certa compaixão, saber os motivos dos sonhos do garoto com borboletas e uma figura que nos remete a uma múmia é o que nos prende ao desenrolar do filme.

O Sono da Morte

Se a performance de Jacob Tremblay está longe da magnificência em O Quarto de Jack (The Room, 2015), o carisma fluido do ator mirim, potencialmente usado na construção de uma personagem inocente e frágil, se encaixa perfeitamente na proposta do roteiro e  O Sono da Morte se configura em muito mais do que um filme de terror. Na verdade, caracteriza-se como um drama ao demonstrar que Cody está dominado por um sentimento de culpa por não controlar os seus sonhos, desembocando num autoflagelo psíquico e físico, ora se utilizando de estimulantes contra o sono, ora se ferindo a fim de evitar usar do seu poder para uma vingança involuntária. Ao mesmo tempo, esta angústia se contrasta com a ternura material dos sonhos do menino, que, quando não invadidos pela inquietude dos adultos, ressaltam toda a pureza do personagem.

No entanto, o filme tem seus problemas, principalmente em dois aspectos. Kate Bosworth nos entrega uma personalidade constantemente impassível. Num primeiro momento, sua expressão de frieza, ao se utilizar de Cody para rever seu filho falecido, coaduna com uma obsessão que lhe tira qualquer empatia. Porém, durante a trama, o que se concretiza é uma personagem sem fundo emocional algum, mesmo diante de uma situação cujo clímax desesperaria qualquer outro indivíduo. Mesmo no desfecho, a esperança é substituída por uma resiliência capaz de envergonhar qualquer palestrante motivacional boçal.

O Sono da Morte

Somam-se a isto os efeitos especiais das imagens dos sonhos de Cody, onde muitas vezes há uma combinação de cores e luzes relacionadas com seu mundo infantil. Porém, em outras aparições, cuja intenção é criar uma atmosfera de terror, o que se vê são figuras mal construídas. Uma delas aparenta ser de massinha, formando mais uma caricatura do que algo que deveria causar horror. Se nos sonhos há o vislumbramento de imagens poéticas, nos pesadelos, momentos que deveriam ser o extremo oposto da ternura já mostrada, é falha a tentativa de compor um clima tenso pelas características dos objetos e seres macabros, dependendo muito mais da mixagem de som para provocar uma tensão real no espectador.

Contudo, O Sono da Morte se demonstra eficaz naquilo que propõe: uma narrativa dramática com uma boa carga de suspense. Apesar de alguns equívocos em seu desfecho, o filme garante alguns sustos, momentos tensos, planos poéticos e comoventes. Sua composição é um mosaico que proporciona ao espectador a sensação de uma experiência além da esperada, garantindo um lugar em um patamar acima da média da maioria dos filmes que se oferecem como terror.

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