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O Paraíso Deve Ser Aqui – A graça do mundo!

Diretor palestino Elia Suleiman faz comédia com a tragicomédia que é viver em O Paraíso Deve Ser Aqui

Não é indicado começar uma crítica falando sobre si e não sobre o filme a ser analisado, mas esta que vos escreve pede permissão para se usar como exemplos neste primeiro parágrafo. Nasci no Rio Grande do Sul, um estado conhecido pelo seu bairrismo e suas doses extras de arrogância diante dos outros estados do Brasil. Sentir orgulho do lugar onde começamos a vida não é um pecado, mas diante de tantas possibilidades que o mundo nos oferece, cogitamos ser mais cidadãos do planeta e menos gaúchos ou paulistanos. O cineasta palestino Elia Suleiman, um dos homenageados da última edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, transformou esse desejo intrínseco aos seres humanos em filme, o agridoce O Paraíso Deve Ser Aqui (It Must Be Heaven).

Crítica de O Paraíso Deve Ser Aqui

Interpretando a si mesmo, Suleiman sai pelo mundo, de Paris à Nova York, na ânsia de experimentar novas sensações, conhecer novos olhares e sentir-se parte dos locais que visita. No entanto, os planos do viajante não saem como as agências de turismo gostam de vender seu peixe. O semblante neutro, diríamos até misterioso, do diretor/protagonista faz lembrar o saudoso Buster Keaton e seu jeito tristonho mesmo no meio de situações bizarras. Suleiman tenta passar despercebido para poder usufruir dos passeios, mas o título de cidadão palestino parece estar piscando em sua testa. Não importa se está na porta do Louvre ou na varanda de um hotel “discutindo” com um passarinho, as novidades são sempre as mesmas.

Falar sobre os problemas do mundo é a página dois do roteiro de O Paraíso Deve Ser aqui. Não é um filme-denúncia sobre a condição dos imigrantes e o preconceito com o diferente, mas contem em suas cenas, algumas beirando os esquetes, todos esses elementos. Diante da surpresa enfadonha presente no olhar de Suleiman, o espectador é convidado a pensar que, mesmo que tentemos transformar em lar um local, nossas origens sempre vão estar agarradas à nossa pele, não importa a maquiagem que usarmos.

Há paraíso?

Com uma fotografia composta, em sua maioria, por planos abertos onde o protagonista é quase um pontinho, pequenino diante das grandezas das cidades por onde passa, O Paraíso Deve Ser Aqui está interessado mais na condição, ora castradora, ora orgulhosa, de estar sempre com nossa nacionalidade visível do que em fazer uma crítica específica a maneira como franceses e americanos tratam quem chega de fora. Numa das cenas mais engraçadas e insólitas do longa, o ator Gael García Bernal (de Wasp Network) tenta apresentar Suleiman para uma produtora, afim de bancar o lançamento do filme do diretor. Dois estrangeiros, cada um na sua, mas dividindo os mesmos problemas. E regalias, acreditem.

Crítica de O Paraíso Deve Ser Aqui

Para os mais sérios, a produção pode passar longe da comédia, já que contem temáticas bem sérias em suas entrelinhas. Mas a eterna surpresa melancólica no rosto de Suleiman não deixa de provocar sorrisos e até algumas gargalhadas. Claro que você não pode esperar sair da sessão inebriado pelo humor, proeza que Jerry Lewis e outros mestres do gênero conseguiam com louvor. Mas fica em quem assiste à O Paraíso Deve Ser Aqui, a sensação que até os percalços da auto-descoberta e da busca por um lugar para chamar de seu possuem a sua graça. Óbvio que a construção da trama proposta pelo diretor inclui momentos certeiros para impactar o espectador, mas mais que cenas memoráveis, estamos diante de uma obra que quer plantar pequenas reações, que irão acompanhar quem as vivenciou por alguns dias. Sabe quando estamos no banho e, do nada, lembramos de um trecho de um livro ou o final de um filme e ele ganha novos significados? Suleiman parece ter escrito cada linha do roteiro pensando nisso.

Em tempos de festas de final de ano, onde as salas de exibição são infestadas por “histórias de natal”, escolher O Paraíso Deve Ser Aqui para encerrar o ano cinéfilo pode ser uma ótima estratégia. Quem precisa de um velhinho voando num trenó quando as pessoas já são cheias de boas histórias?

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