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O Mestre dos Gênios – O universal necessário!

O Mestre dos Gênios

Dizem que o cinema é um retrato de seu contexto histórico, pois em cada época os filmes abordam temáticas momentâneas. Uma tentativa de representatividade ali, um apelo ao empoderamento aqui, a fragmentação do indivíduo acolá e cada um tem seu retrato individualizado nas obras deste momento histórico. Cada grupo social caminha para ter um filme chamado de seu e, cada vez menos, temas universais são explorados.

A amizade é o tema de O Mestre dos Gênios (Genius), que já pode ser situado ao lado de clássicos como Tomates Verdes Fritos, Toy Story e Um Sonho de Liberdade. Baseado na biografia escrita por A. Scott Berg, a obra do diretor Michael Grandage explora a formação do elo entre dois indivíduos de personalidades tão distintas que, pelo acaso, se tornam complementares: o editor Max Perkins (Colin Firth) recebe um calhamaço, cujo título, The Lost, traduz poeticamente seu encontro com o escritor Thomas Wolfe (Jude Law). A partir daí, acompanhamos a história de um homem racional e contido ensinando a outro a racionalização e aprimoramento de sua destreza com as palavras. Tarefa nada fácil, já que Wolfe demonstra ter uma personalidade tão latente quanto as palavras que arrebataram Perkins.

O Mestre dos Gênios

A narrativa demonstra que a grandeza humana não reside apenas em questões pontuais dos modismos momentâneos, mas naquilo que move a própria vida dos homens: a linguagem e as relações que se estabelecem entre estes. E a Literatura é o mote para o desenvolvimento de um enredo em que impasses se colocam ora de forma sutil, ora de forma angustiante.

É por meio do impasse da linguagem que o elo entre Perkins e Wolfe se forma. O primeiro precisa ensinar o segundo a ser menos prolixo. No entanto como conter aquilo que o indivíduo tem de essencial? Até que ponto a linguagem de um homem pode ser controlada sem que este se sinta coagido em sua própria natureza? Num diálogo entre os dois, Perkins afirma que mesmo nos tempos das cavernas, quando os homens se reuniam em volta da fogueira, havia alguém que contava histórias para aliviar o medo da escuridão da noite. Ou seja, Perkins sabe que homens como Wolfe são necessários em todas as eras, porém, como fazer com que o escritor perceba sua própria escuridão?

O Mestre dos Gênios

A beleza da trama reside no amor que os dois possuem pela Literatura e de como este sentimento, ao mesmo tempo que demonstra a luta incansável de levar aos leitores palavras que deem sentido à existência, também revela que se pode ignorar justamente aquilo que dá sentido a ela. Em um momento do filme, vemos como habilidosamente os conflitos entre Wolfe e sua esposa, Aline Bernstein (Nicole Kidman), formam, mesmo que não com a mesma intensidade, conflitos entre Perkins e sua esposa, vivida por Laura Linney. Isso mostra a lógica de os dramas da vida atingirem a todos, indubitavelmente.

Esteticamente, o filme não é um primor, mas muitos de seus elementos são bem trabalhados. É interessante como a fotografia coaduna-se com a construção da personagem de Perkins. Seu escritório é quase totalmente opaco, no entanto a luz da janela se direciona a ele, dando a entender como sua personalidade o capacita a ensinar um grande escritor a comunicar sua linguagem ao leitor. E momentos sutis, como Perkins andar entre dois trens, como se estes formassem duas estantes de livros, ou uma chuva na janela em um momento triste, dão o tom estético da película.

O Mestre dos Gênios

Contudo, O Mestre dos Gênios não seria um grande filme sem as atuações que Firth e Law constroem. O entrosamento entre os dois nos dá umas das relações mais divertidas e dramáticas do cinema. O desespero de Wolfe, que se sente mutilado por Perkins, vai do cômico ao trágico, todavia, no decorrer do filme vemos como Wolfe também influencia o editor a ponto deste até cometer desapegadamente uma infração boba, mas que para um homem contido seria grave demais. Já Wolfe vai da megalomania até o autoconhecimento. Tal evolução, influenciada por Perkins, denota uma relação de pai e filho. Este paralelo entre os dois personagens não ocorreria se não estivessem nas mãos de dois grandes atores. Destaque também para Nicole Kidman, que, mesmo em poucas aparições, deixa a marca de uma personagem desesperada, prestes a perder seu amor para as letras. Seria totalmente justo que os três fossem indicados ao Oscar.

Em um momento em que bandeiras pontuais exercem influência sobre a sétima arte, este será um filme subestimado por muitos. Justamente por conta daquilo que de melhor reside nele. Mesmo que sejam importantes os protestos por um cinema mais múltiplo étnica e sexualmente, uma grande história gira naquilo que os homens buscam: superarem a si próprios. E o Amor, a Amizade, a Literatura e, claro, o Cinema, são elementos históricos, universais e construtores da evolução humana, que O Mestre dos Gênios aborda de forma grandiosa.

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