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O Lamento – O Terror em sua forma clássica!

O Lamento

O Lamento

O público brasileiro está familiarizado com o terror que consiste em utilizar vários artifícios básicos para criar medo na plateia. Exemplos: os jump scares (os eventuais sustos); o uso de maquiagem pesada em monstros; utilização de efeitos sonoros; música aterrorizante; computação gráfica, etc… Não que seja ruim, desde que o diretor saiba utilizar esses elementos, como recentemente James Wan fez de maneira exemplar nos dois filmes da franquia Invocação do Mal (já leu a crítica do segundo?). Mas certos diretores utilizam isso de maneira excessiva, forçando o espectador a sentir medo do ambiente. O grande triunfo de O Lamento (Goksung) é o diretor Na Hong-jin (O Caçador) confiar em sua história e evitar ao máximo o uso dos truques comuns citados acima, fazendo, em minha opinião, o melhor filme de terror de 2016.

A trama se passa em uma pequena vila, localizada na região montanhosa da Coréia do Sul, onde ocorreram mortes de natureza misteriosa. Uma família é morta de maneira brutal pelo patriarca, que parece estar infectado com algum tipo de doença na pele e preso em algum transe. Pouco tempo depois, acontece um crime com natureza semelhante, só que a principal suspeita acaba se matando. Um dos policias da cidade, Joon-Go (Kwak Do-Won), suspeita que esses acontecimentos tenham ligação com a chegada de um misterioso japonês (Jun Kunimura), mas vai descobrir que não é algo tão simples quanto parece.

O Lamento

O roteiro, escrito pelo próprio diretor, se mostra muito eficiente por ser uma história envolvente e muito bem desenvolvida, ao mesmo tempo em que debate de maneira muito sutil algumas questões da Coréia do Sul, como o grande aumento do Catolicismo na região, além da figura suspeita ser um senhor japonês, já que o país foi ocupado pelo Japão entre 1910 a 1945, entre outros detalhes O roteiro traz essas discussões e cria uma história assustadora de maneira incrível. Outro ponto muito forte do texto são os personagens, em especial seu protagonista. Se estamos acostumados em vermos personagens principais heroicos em filmes de terror, Joon-Go se mostra um oposto dessa fórmula. O personagem é gordo, burro, desastrado e covarde. Essas características o tornam um personagem muito verossímil. Mais para o meio da projeção, o espectador ira começa a sentir o mesmo que Joon-Go sente perante a situação mostrada, o que se dá por essas idiossincrasias citadas, pois quanto mais o ele se mostra crível, melhor será a relação com o espectador.

Diria que o único ponto fraco da narrativa está em seu terceiro ato, onde tenta ser mais esperta do que realmente é. Explico: há um excesso de plot twists na trama. Se fosse apenas um, seria perfeito, pois prende o espectador sem enganá-lo. Todos os elementos que levarão o filme a uma conclusão estão lá. Infelizmente, há mais uma revelação que soa forçada e desnecessária, parecendo que Na Hong-jin estava tão impressionado com o filme que quis colocar algo a mais para agarrar o espectador, decisão que acaba deixando os furos mais perceptíveis. Chega a tirar a beleza desse roteiro? Não, mas é um detalhe que poderia ser evitado.

Se o diretor acerta fazendo no roteiro excepcional, na direção não é diferente. O primeiro ponto a se destacar no trabalho do cineasta já foi dito no começo do texto: há pouca utilização de artifícios que servem para dar medo, ele nos prende pela história contada. A direção é clássica e a fotografia muito naturalista e clara, evitando o clima mais escuros para dar medo e há a decisão corajosa de deixar a maioria dos acontecimentos durante o dia. Há cenas que acontecem à noite, mas não muito frequentes. O diretor também demonstra ter um excelente controle narrativo, pois sabe quando colocar um elemento a mais e como fazê-lo. Nada é gratuito em O Lamento e tudo que está lá e é desenvolvido com muito cuidado.

O Lamento

Na Hong-jin também conduz uma troca de gêneros de maneira natural. Há uma evolução muito orgânica entre o suspense e o terror e, em certos momentos, para o horror. Em outros momentos, há situações cômicas envolvendo o protagonista, mas não soa forçado. Em um filme de terror com uma duração de duas horas e meia, segurar o espectador e deixá-lo imerso e tenso apenas com a história demonstra uma grande segurança e virtuosismo no trabalho de direção, deixando o realizador como um dos grandes nomes do atual cinema sul-coreano, junto à Chan-Wook Park (Oldboy) e Bong Joon-Ho (Mother).

Não há mais o que dizer sobre O Lamento. É mais uma prova da força do cinema sul-coreano, que já demonstrou várias vezes que merece atenção e que se beneficia muito utilizando elementos localizados na própria cultura. Pode não parecer, mas falei pouco sobre a história do filme. Acredite, caro leitor, quanto menos souber, melhor será a experiência.

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