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O Escândalo- Pesado com leveza!

O Escândalo tem atuações primorosas e uma narrativa sagaz e feroz sobre um assunto com complexidades sociais, culturais, financeiras e políticas

Produzido pela atriz Charlize Theron, O Escândalo (Bombshell) é dirigido por Jay Roach, que também comandou Virada no Jogo (2012), sobre a ascensão da Sarah Palin como candidata a vice-presidente durante a corrida presidencial de John Mcain, em 2008. Política e complexidade não são novidade para ele nem para o roteirista Charles Randolph, um dos autores de A Grande Aposta.

Crítica de O Escândalo

O filme conta como as ex-âncoras da Fox News Megyn Kelly (Charlize Theron) e Gretchen Carlson (Nicole Kidman) deram início aos processos de assédio sexual contra o CEO da emissora, Roger Ailes (John Lithgow). O Escândalo não é exatamente um filme biográfico, mas é baseado em fatos reais e tem imagens de arquivo suficientes para entregar, pelo menos, uma versão próxima do que provavelmente ocorreu.

Margot Robbie (de Era Uma Vez…em Hollywood) interpreta Kayla Pospisil, conservadora cristã lésbica que não saiu do armário, que é uma personagem ficcional. Isso dá um estranhamento quando ela é colocada na narrativa junto com as versões da vida real de Kelly e Carlson, mas ela serve como voz para as outras mulheres, que não tinham tanta fama quanto as âncoras, mas mereciam ter as suas histórias ouvidas, e também é usada para dar voz à hipocrisia de algumas ações de suas colegas de trabalho. 

O primeiro acerto de O Escândalo é mostrar mulheres que são competentes no que fazem, dinâmicas, que trabalham duro e pensam rápido, mas não apoiam umas às outras. O ambiente tóxico na emissora é uma amálgama de ambição e poder. Elas não conversam entre si, mas não tem medo de confessar segredos para a garota do tempo, “porque ela não vai tentar roubar o emprego delas”. Boa parte do filme é dedicado a mapear a dinâmica de poder e a influência da emissora, além de como ela cresceu para se tornar o que é e qual foi a responsabilidade de Ailes em construir isso.

Theron interpreta, ou melhor, se torna Megyn Kelly, âncora da Fox News (que depois trabalhou na NBC e agora tem seu próprio canal no Youtube). A atuação é tão perfeita que até o registro da voz e a velocidade de fala da âncora ficam naturais na boca da atriz. Kidman, Lithgow e Robbie tem todos atuações excelentes que é um prazer assistir. Malcom McDowell  também faz uma ponta ótima como Rupert Murdoch, dono da emissora.

Crítica de O Escândalo

Pesado, com leveza

A visão onipresente do roteiro é ambiciosa, mas consegue entregar uma narrativa coesa e fácil de acompanhar, ao mesmo tempo trazendo cenas perturbadoras e desconfortáveis de assédio que criam desconforto ou empatia no espectador. Ele não deixa nem de incluir a corrida presidencial de 2016, dando contexto para o tipo de assédio que as âncoras já estavam acostumadas a sofrer do público e do então candidato a presidente, Donald Trump.

Em uma cena genial, ouvimos os pensamentos internos de uma mulher se esquivando de um avanço de seu chefe em troca de uma promoção. Ela é cômica, mas logo somos lembrados que muitas mulheres tem de passar pela mesma linha de raciocínio. Outra cena, mostra um dos assédios, um dos pontos altos do filme, em que se cria uma tensão enorme com um simples jogo de poder, momento aumentado pela decisão acertada de deixar a cena sem trilha.

Alguns elementos de A Grande Aposta se repetem. Similaridades de estrutura, como quebras de quarta parede com explicações sobre o contexto e particularidades da emissora e outras saídas criativas para manter o tema fresco durante a projeção. Elas funcionam bem para transmitir informações, mas não ocorrem com frequência o suficiente para que não se estranhe quando são usadas.

Crítica de O Escândalo

Sem medo de complexidade

O grande trunfo de O Escândalo é que ele aborda de frente toda a complexidade presente no tema. As subalternas tem medo de perder o emprego, mas outras mulheres tem que ser protegidas. Quando Megyn ouve do processo inicial, percebe que fez errado porque demorou pra falar e não protegeu futuras mulheres, mas também sente que conquistou seu lugar. Ela é rica, não precisa mais do dinheiro ou do emprego e poderá ser recontratada. Mas, e sua equipe? E pior: se for noticiado que uma mulher dormiu com o chefe para subir no trabalho, será que todas que lá trabalharam serão acusadas de terem feito o mesmo? É abordado até como isso afeta os maridos e filhos dessas mulheres nessa história. Kayla quer galgar posições no trabalho aproveitando-se de sua imagem, mas quando começa a ver o preço que pagará por isso sua falta de vivência a coloca numa situação terrível. Ela quer estar na televisão. Se ela quer pular na frente da longa fila de mulheres talentosas que querem ser âncoras, o que ela tem a oferecer?

Quando não está se preocupando em desmantelar a integridade da Fox News, O Escândalo não pisa em ovos em mostrar as mulheres que facilitaram o predadorismo de Ailes, como sua secretária, sua esposa, advogadas e outras funcionárias ambiciosas ou as próprias vítimas que não o denunciaram no passado. Também não se finge que os assédios eram comportamento exclusivo dele, fazendo menção ao acordo e demissão de Bill O’Reilly, embora ignorando a contratação da Suzanne Scott como nova CEO da Fox News.

Contudo, assédio sexual não é um assunto partidário e o filme perde muito por entrar na discussão de “apesar de ela ter falado isso e eu discordo da política, ela fez aquilo que eu acho corajoso”.O Escândalo é a segunda obra de ficção baseada nos assédios na Fox News. O primeiro foi a série The Loudest Voice, com Russel Crowe. Basta ver se Hollywood terá a coragem de fazer um filme sobre os assédios de Harvey Weinstein.

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