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O Conto dos Contos – Conta outra…

O Conto dos Contos

Não há problema intrínseco algum em longas que juntam histórias diferentes, já que existem várias possibilidades narrativas e de gênero dentro desta escolha. Pode ser algo episódico mesmo, com curtas independentes de diretores diferentes, ou não (como Histórias Extraordinárias, de 1968, ou Tudo O Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo…, de 1972), como também temos exemplos de histórias menores que se cruzam em um cenário maior. Neste caso, Tarantino logo é lembrado com Pulp Fiction, de 1994, mostrando um caminho que foi emulado em Amores Brutos, que revelou Alejandro Iñárritu em 2000. Agora, imagine um caso em que temos pequenas tramas completamente independentes entre si, porém contadas de forma intercalada, insinuando alguma ligação que não acontece por um motivo simples: não existe! Então, qual o sentido de juntar esses contos em um mesmo filme? É o que gostaríamos de perguntar a Matteo Garrone, diretor de O Conto dos Contos (Il Racconto dei Racconti), co produção entre Itália, França e Reino Unido.

O Conto dos Contos

Caso tivéssemos mesmo a oportunidade de questionar o cineasta, o próprio um dos quatro(!) roteiristas do filme, talvez ele argumentasse que a natureza da fonte justificaria o formato. Baseado em partes da coletânea de contos de fadas O Pentamerão, obra que o poeta Giambattista Basile escreveu no século XVII, O Conto dos Contos nos traz como primeira história – a mais interessante, de longe – a situação de uma rainha megera (Salma Hayek) com seu desejo ardente de engravidar. Ao seguir as instruções de um sábio, o rei (John C. Reilly) caça e mata um monstro marinho –morrendo no processo – para que sua esposa coma o coração da criatura, cozido por uma virgem. O que não foi explicado a essa rainha é que a criada virgem também engravidaria, dando origem a dois meninos albinos idênticos, cuja amizade entre eles, durante a adolescência, é censurada violentamente por ela.

O Conto dos Contos

O funeral daquele monarca nos apresenta outros dois reis, que vivem em reinos próximos. Toby Jones interpreta um governante completamente aéreo, que encontra uma razão de viver criando em segredo uma pulga gigante, enquanto sua filha sonha com um pretendente que a tire do marasmo daquela corte. A irresponsabilidade dele acabará por colocá-la em uma situação desumana. O terceiro rei é um tarado, vivido por Vincent Cassel, que se encanta com a voz de uma plebeia, sem saber que ela é uma idosa acabada e esta resolve engana-lo, levando a confusão adiante. Cada um desses segmentos tem suas reviravoltas aqui e ali, mas além de não possuírem substância para se sustentarem sozinhos, quando parecem ficar mais interessantes, passamos para outro e o tédio é inevitável. Como já comentado, não existe a menor relação entre eles e o final deste longa parece haver sido filmado apenas para juntar todo mundo no mesmo recinto, lembrando uma novela da Globo.

O Conto dos Contos

Garrone, também responsável pelo irregular Gomorra (2008), trouxe novamente os dois colaboradores habituais, Ugo Chiti e Massimo Gaudioso, completando o quarteto do roteiro com o não tão experiente Edoardo Albinati, confirmando que muita gente mexendo no mesmo texto não dá certo. Nem é possível atenuar muito a responsabilidade do diretor pelo material que dispunha, já que ele também participou desta etapa. Independente de qualquer proposta, uma estrutura como essa só poderia resultar em um ritmo cansativo e bem pouco interessante, onde 133 minutos pesam bastante. O pior é que ele tem um começo bastante promissor.

Ao abrir o filme com um plano que segue artistas dirigindo-se ao castelo para divertirem o casal real, o diretor consegue explicar muito da situação apenas com imagens. Os humores muito bem representados no rosto dos atores – no caso, John C. Reilly e Salma Hayek – dão o tom da personalidade de cada personagem. Aliás, O Conto dos Contos é absolutamente bem servido em matéria de intérpretes, que fazem o que podem com o talento que possuem. A revelação de que o coração do Leviatã acabará com a tristeza da rainha, com sua sequência seguinte, constrói bem a noção do fantástico dentro daquele mundo e como seus personagens reagem de maneira absolutamente corriqueira a ele. Pelo menos, os realizadores têm uma evidente compreensão do cinema como meio visual.

O Conto dos Contos

Sobre a fotografia, o polonês Peter Suschitzky já se saiu muito melhor nos inúmeros filmes de Cronenberg em que trabalhou. Aqui, com exceção de um ou outro momento isolado, parece apenas cumprir a função de manter as cenas claras sem muita criatividade. Poderia ter valorizado o filme, aproveitando o belo desenho de produção de Dimitri Capuani, que trabalhou na direção de arte de Gangues de Nova York e A Invenção de Hugo Cabret, e os figurinos funcionais de Massimo Parrini, assistente em Irmãos Grimm e o remake de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Esses detalhes de destaque conseguem conferir ao filme uma aura de Velho Mundo real, deixando o absurdo com um ar sutil, como se víssemos um tempo onde aquilo era realmente possível, o que ajuda muito na suspensão de descrença da plateia.

Procurando estabelecer algo sobre uma base frágil, O Conto dos Contos desperdiça seu potencial e alguns méritos técnicos correndo atrás do próprio rabo. Quebrar estruturas narrativas tradicionais é ótimo, desde que essa atitude leve a coisa toda para algum lugar, sem – é claro – desafiar a paciência do público no caminho. Lá pela metade do filme, já nem compensa mais aguentar aquela vontade de ir ao banheiro.

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